《A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida》PARTE 7

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O laboratório improvisado dentro do Hospital Santa Cecília estava silencioso demais para o que estava prestes a acontecer.

Duas cadeiras.

Uma mesa.

Uma câmera de gravação.

E duas mulheres que eram, ao mesmo tempo, a mesma pessoa.

Isabela estava sentada à esquerda da sala.

A outra Isabela Nogueira estava sentada à direita.

Ambas imóveis.

Ambas conscientes.

Ambas olhando uma para a outra sem piscar.

A Dra. Helena Duarte estava de pé entre elas, segurando um tablet com mãos ligeiramente tensas. Pela primeira vez desde o início de toda aquela situação, seu rosto não demonstrava apenas preocupação clínica.

Havia medo.

“Este é um teste de memória episódica cruzada.” — ela disse, tentando manter a voz estável. — “Perguntas serão feitas sobre eventos pessoais específicos de alta precisão emocional.”

Silêncio.

Rafael Albuquerque não estava na sala.

Nem a família.

Somente médicos autorizados.

E o sistema.

Isabela respirou fundo.

“Isso é uma piada?” — ela perguntou, olhando diretamente para Helena.

A outra Isabela sorriu levemente.

“Eu não vejo motivo para isso ser uma piada.”

Isabela virou o rosto imediatamente.

“Claro que você não vê.”

Helena levantou a mão.

“Vamos começar.”

A primeira pergunta apareceu no tablet.

“Qual foi o nome do restaurante onde você comemorou seu último aniversário antes do acidente?”

Isabela respondeu imediatamente:

“Fasano, Jardins.”

A outra Isabela respondeu sem hesitar:

“Fasano, Jardins.”

Isabela congelou por um segundo.

Ela olhou para Helena.

“Isso não prova nada.”

Helena não respondeu.

Segunda pergunta.

“Qual foi a cor do vestido usado no evento corporativo da Faria Lima em 2023?”

Isabela respondeu:

“Azul petróleo.”

A outra Isabela respondeu:

“Azul petróleo.”

Silêncio.

Isabela começou a franzir a testa.

“Isso não é possível…”

Helena virou a página.

Terceira pergunta.

“Qual foi a última frase que Rafael Albuquerque disse para você antes do acidente?”

Isabela respirou fundo.

“Ele disse ‘não confie em ninguém depois de hoje’.”

A outra Isabela respondeu exatamente a mesma frase.

Isabela levantou o tom de voz:

“Vocês estão repetindo informações!”

Helena respondeu imediatamente:

“Não estamos.”

Quarta pergunta.

“Qual é o nome da música que tocava no carro no dia do acidente na Avenida Faria Lima?”

Isabela respondeu com irritação crescente:

“Clair de Lune.”

A outra Isabela respondeu:

“Clair de Lune.”

Silêncio mais pesado.

A câmera registrava tudo.

Helena olhou para os dados no tablet.

E não disse nada por alguns segundos.

Isabela percebeu.

“Doutora…” — sua voz agora estava mais baixa. — “Isso não é normal, certo?”

Helena hesitou.

“Continue o teste.”

Quinta pergunta.

“Qual foi o primeiro lugar que você visitou com Rafael em São Paulo?”

Isabela respondeu:

“Guarujá.”

A outra Isabela respondeu:

“Guarujá.”

Isabela começou a respirar mais rápido.

“Pare isso.”

Helena não respondeu.

Sexta pergunta.

“Qual foi o nome que você escolheu para o seu projeto pessoal de design em 2022?”

Isabela respondeu:

“Linha Aurora.”

A outra Isabela respondeu:

“Linha Aurora.”

Silêncio absoluto na sala.

Isabela levantou-se da cadeira abruptamente.

“Isso não é um teste!”

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Helena levantou a mão rapidamente.

“Sente-se.”

Isabela não obedeceu.

“Vocês estão me colocando contra uma cópia perfeita!”

A outra Isabela falou pela primeira vez diretamente para ela:

“Eu não sou uma cópia.”

Isabela virou imediatamente.

“Cale a boca.”

Helena interrompeu:

“Isabela, sente-se.”

Isabela respirava com dificuldade.

“Ela está repetindo tudo… exatamente tudo…”

Helena olhou para o tablet.

E então para os médicos ao lado.

Ninguém falava.

Sétima pergunta.

Helena hesitou antes de ler.

“Qual foi o evento mais traumático da sua vida antes do acidente?”

Silêncio.

Isabela olhou para a outra Isabela.

E respondeu:

“A morte da minha irmã quando eu tinha 17 anos.”

A outra Isabela respondeu:

“A morte da minha irmã quando eu tinha 17 anos.”

Agora Isabela ficou completamente imóvel.

Não havia mais reação emocional.

Só choque.

Ela virou lentamente para Helena.

“Isso não é memória.”

Helena não respondeu.

Isabela continuou:

“Isso é cópia total.”

A outra Isabela falou com calma:

“Isso é experiência compartilhada.”

Isabela deu uma risada curta e nervosa.

“Compartilhada? Você está ouvindo isso?”

Helena finalmente fechou o tablet.

Silêncio total.

Ela olhou para os dados.

E falou lentamente:

“Os resultados são idênticos.”

Isabela sentiu o corpo gelar.

“Idênticos…”

Helena continuou:

“Não há divergência estatística.”

Isabela deu um passo para trás.

“Isso não prova que ela é eu.”

Helena respondeu com cuidado:

“Também não prova que você não é ela.”

Silêncio.

A frase destruiu o ar da sala.

Isabela ficou imóvel.

“Aí está o erro de vocês…”

Helena olhou para ela.

Isabela continuou:

“Vocês estão tentando decidir quem é original.”

Ela respirou fundo.

“Mas isso não é originalidade.”

A outra Isabela levantou o olhar.

Isabela apontou para ela.

“Isso é duplicação perfeita.”

Silêncio pesado.

Helena abriu outro arquivo no tablet.

Isabela percebeu.

“Tem mais.”

Helena hesitou.

“Sim.”

Isabela deu um passo à frente.

“Mostra.”

Helena virou a tela.

Um novo documento apareceu.

Título técnico.

Isabela Nogueira / ISB-02 – Perfil Neural Completo

Isabela congelou.

“ISB-02…”

Helena falou baixo:

“Esse perfil não é derivado de você.”

Isabela franziu a testa.

“O que isso quer dizer?”

Helena respirou fundo.

“Ele foi gerado em paralelo.”

Silêncio.

Isabela começou a entender lentamente.

“Você está dizendo que… não foi uma cópia de mim.”

Helena assentiu.

“Mas sim uma criação simultânea.”

A outra Isabela finalmente reagiu.

“Isso não é verdade.”

Isabela virou para ela.

“Você sabia disso?”

A outra Isabela respondeu com calma:

“Eu sou real.”

Isabela deu um passo à frente.

“Você não respondeu a pergunta.”

Helena levantou a mão.

“Pare.”

Mas Isabela não parou.

“Se você é real… por que seus dados foram gerados ao mesmo tempo que os meus?”

Silêncio.

A outra Isabela não respondeu.

Helena olhou para o tablet novamente.

E disse algo que mudou completamente o ambiente:

“Porque ambas foram inicializadas no mesmo sistema.”

Isabela congelou.

“Sistema…”

Helena continuou:

“Não é mais uma questão de identidade.”

Uma pausa longa.

“É arquitetura.”

Isabela sentiu o chão desaparecer sob os pés.

“Arquitetura de quê?”

Helena não respondeu imediatamente.

E então falou baixo:

“De consciência replicável.”

Silêncio absoluto.

Isabela olhou para a outra Isabela.

E pela primeira vez desde o início de tudo, não viu uma inimiga.

Não viu uma impostora.

Viu um reflexo funcional.

E naquele instante, algo pior aconteceu.

Helena recebeu uma notificação no tablet.

Ela leu.

E ficou imóvel.

Isabela percebeu imediatamente.

“O que foi?”

Helena hesitou.

E respondeu:

“Os sistemas externos acabaram de sincronizar os dois perfis novamente.”

Isabela franziu a testa.

“Sincronizar?”

Helena não respondeu.

A câmera de segurança da sala piscou uma vez.

E voltou a gravar.

Ambas as Isabela estavam agora olhando diretamente para ela.

Exatamente ao mesmo tempo.

Como se algo, em algum lugar, tivesse acabado de atualizar as duas versões da mesma pessoa.

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