O Hospital Santa Cecília parecia diferente naquela manhã.
Não fisicamente.
Mas algo no ar tinha mudado.
Isabela estava sentada novamente em uma sala interna, agora acompanhada apenas pela Dra. Helena Duarte. A médica mantinha os olhos fixos em um tablet, com uma expressão que Isabela nunca tinha visto antes nela: dúvida.
Não era profissional.
Era pessoal.
Helena deslizou a tela lentamente, como se cada movimento pesasse mais do que deveria.
Isabela observava em silêncio.
“Você encontrou alguma coisa?” — ela perguntou finalmente.
Helena não respondeu imediatamente.
Isso já foi suficiente para Isabela entender que sim.
“Doutora…” — Isabela insistiu. — “Me diga a verdade.”
Helena respirou fundo.
“Alguns registros do seu histórico foram… inconsistentes.”
Isabela franziu a testa.
“Inconsistentes como?”
Helena hesitou.
“Não batem entre si.”
Isabela inclinou o corpo para frente.
“Explique isso direito.”
Helena virou o tablet para ela.
Na tela, havia arquivos médicos.
Exames.
Relatórios de internação.
Datas.
Tudo organizado.
Mas algo estava errado.
Isabela apontou imediatamente.
“Isso aqui… não é a minha linha do tempo.”
Helena assentiu lentamente.
“Eu sei.”
O silêncio ficou denso.
Isabela pegou o tablet com cuidado.
“Isso aqui mostra que eu tive alta duas vezes.”
Helena confirmou.
“Sim.”
Isabela levantou o olhar rapidamente.
“Isso é impossível.”
Helena respondeu baixo:
“Também achei que fosse.”
Isabela começou a passar os dedos na tela.
“Esses registros foram editados.”
Helena não respondeu.
Isabela olhou para ela com intensidade crescente.
“Doutora… isso não é erro. Isso é alteração.”
Helena finalmente falou:
“Eu pedi acesso direto ao servidor central do hospital.”
Isabela congelou.
“E?”
Helena respirou fundo.
“Os logs foram limpos.”
Isabela arregalou os olhos.
“Limpos?”
Helena assentiu.
“Como se alguém tivesse apagado parte da sua existência aqui dentro.”
Isabela soltou o tablet lentamente.
“Isso não é hospital normal…”
Helena abaixou o olhar.
“Não mais.”
O silêncio entre as duas ficou pesado.
Isabela começou a sentir aquele frio familiar novamente.
Não era medo simples.
Era a sensação de estar dentro de algo maior do que ela.
“Doutora…” — Isabela falou mais baixo. — “Quem teria acesso a isso?”
Helena demorou para responder.
“Somente administração central… ou alguém com autorização externa.”
Isabela levantou imediatamente.
“Como quem?”
Helena hesitou.
E isso foi o pior sinal possível.
“Empresas parceiras do grupo de saúde.”
Isabela ficou imóvel.
“Grupo Albuquerque Saúde?”
Helena não respondeu diretamente.
Mas não precisou.
Isabela começou a andar pela sala.
“Você está me dizendo que alguém de fora pode mexer no meu histórico médico?”
Helena respondeu:
“Não estou dizendo que pode.”
Uma pausa.
“Estou dizendo que aconteceu.”
Isabela parou.
“E vocês estão me dizendo isso agora?”
Helena fechou o tablet.
“Porque eu não tinha certeza antes.”
Isabela virou rapidamente.
“E agora tem?”
Helena olhou diretamente para ela.
“Agora eu tenho evidências de intervenção externa.”
O ar ficou pesado.
Isabela sentiu o estômago apertar.
“Intervenção em quê exatamente?”
Helena abriu um novo arquivo.
E mostrou.
Um nome.
Isabela Nogueira.
Isabela congelou.
“Esse nome…”
Helena assentiu.
“Ele aparece em registros paralelos seus.”
Isabela deu um passo para trás.
“Paralelos?”
Helena continuou:
“Consultas, exames, movimentações clínicas… como se existissem duas pacientes com o mesmo perfil biológico.”
Isabela levou a mão à cabeça.
“Isso não é possível…”
Helena respondeu:
“Mas está documentado.”
Isabela respirou fundo.
“Então não é erro administrativo…”
Helena negou lentamente.
“Não.”
Uma pausa.
“É estrutura duplicada.”
Isabela sentiu o chão instável.
“Duas estruturas…”
Helena continuou, mais cautelosa:
“Dois registros paralelos de uma mesma identidade clínica.”
Isabela olhou para ela fixamente.
“Você está dizendo que existem duas Isabela registradas aqui dentro.”
Helena não respondeu imediatamente.
E isso respondeu tudo.
Isabela começou a rir de nervoso.
“Isso é absurdo…”
Helena interrompeu:
“Eu também achei.”
Silêncio.
Isabela respirou fundo.
“E quem criou isso?”
Helena fechou o tablet lentamente.
“Isso é o que eu estou tentando descobrir.”
Isabela deu um passo à frente.
“Você está me dizendo que alguém pegou minha identidade médica e duplicou.”
Helena corrigiu:
“Não só sua identidade médica.”
Uma pausa.
“Seu padrão neurológico também.”
Isabela congelou.
“Padrão neurológico?”
Helena assentiu.
“Há registros de exames cerebrais avançados realizados durante sua internação.”
Isabela franziu a testa.
“Eu nunca fiz isso.”
Helena respondeu imediatamente:
“Mas alguém fez por você.”
Isabela ficou em silêncio.
Helena continuou:
“E os resultados foram armazenados em outro sistema.”
Isabela perguntou:
“Qual sistema?”
Helena hesitou.
“Um sistema não vinculado ao hospital.”
Isabela sentiu o corpo inteiro ficar frio.
“Então isso não é medicina comum.”
Helena respondeu baixo:
“Não.”
Uma pausa longa.
“Isso parece pesquisa experimental.”
Isabela ficou imóvel.
“Experimental em quê?”
Helena olhou diretamente para ela.
“Identidade.”
O silêncio naquela sala mudou de qualidade.
Agora não era só pesado.
Era perigoso.
Isabela sentiu a respiração falhar por um segundo.
“Você está me dizendo que alguém mexeu na minha identidade…”
Helena respondeu:
“Estou dizendo que ela pode ter sido reconstruída.”
Isabela arregalou os olhos.
“Reconstruída?”
Helena assentiu lentamente.
“Neuroplasticidade artificial aplicada a padrões de memória e comportamento.”
Isabela deu um passo para trás.
“Isso não existe…”
Helena respondeu:
“Existe nos registros que encontrei.”
Isabela respirou fundo.
“E onde isso foi feito?”
Helena hesitou por um segundo.
E então respondeu:
“Campinas.”
O nome ficou no ar.
Isabela repetiu lentamente:
“Campinas…”
Helena continuou:
“Instituto privado.”
Isabela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua voz estava mais baixa.
“E o que eles fizeram comigo?”
Helena olhou para o tablet novamente.
E mostrou um último arquivo.
Isabela se aproximou lentamente.
O título era simples.
Mas devastador.
“Projeto: Reestruturação Neural de Identidade – ISB-01”
Isabela ficou imóvel.
“ISB-01…”
Helena respondeu:
“Isso parece ser você.”
Isabela sentiu as pernas falharem levemente.
“Não…”
Helena continuou:
“E há uma segunda linha associada.”
Isabela perguntou quase sem voz:
“Qual?”
Helena deslizou a tela.
E leu:
“ISB-02 – Instância ativa paralela.”
Isabela ficou completamente em silêncio.
O mundo ao redor dela parecia ter perdido o som.
Helena fechou o tablet devagar.
“Isabela… isso não é só erro de registro.”
Uma pausa.
“Isso é experimento documentado.”
Isabela não respondeu.
Ela apenas encarava o vazio à frente.
Porque naquele instante, ela entendeu algo que ninguém tinha dito diretamente.
Se existia ISB-01…
E ISB-02…
Então nenhuma das duas versões era acidente.
E alguém sabia exatamente o que estava fazendo desde o começo.