O caso Monteiro já não era mais apenas uma investigação.
Era uma ferida aberta que continuava se expandindo a cada nova informação.
Naquela tarde, a Delegacia Central de São Paulo recebeu uma notificação inesperada do Conselho Tutelar de Campinas.
E essa notificação mudaria completamente o rumo da história.
“Temos um menor identificado com possível ligação ao caso”, disse o investigador entrando na sala.
Rafael levantou o olhar imediatamente.
“Que menor?”
O policial colocou um documento na mesa.
“Nome: Lucas Almeida.”
O silêncio na sala mudou de forma instantânea.
Isabela ergueu os olhos devagar.
“Lucas…?”
O investigador continuou:
“Ele vive atualmente sob tutela do sistema de acolhimento em Campinas desde a infância.”
Rafael franziu a testa.
“E o que ele tem a ver com isso?”
O policial respondeu com calma:
“Ele apareceu espontaneamente dizendo que conhece a mesma história que a sua filha.”
Rafael ficou imóvel.
“Isso não faz sentido.”
Na sala ao lado, Sofia parou de desenhar de repente.
Camila percebeu imediatamente.
“O que foi, Sofia?”
A menina respondeu sem hesitar:
“Ele chegou.”
Camila congelou.
“Quem chegou?”
Sofia olhou para o papel.
E disse:
“Meu irmão.”
Na delegacia, o clima mudou completamente quando o menino chegou.
Lucas Almeida tinha cerca de oito anos.
Magro.
Olhar atento demais para alguém da idade dele.
Ele não parecia assustado.
Parecia… familiarizado.
Como se já tivesse passado por aquilo antes.
Rafael deu um passo à frente.
“Você é o Lucas?”
O menino assentiu.
“Sim.”
O investigador se aproximou.
“Você sabe por que está aqui?”
Lucas respondeu calmamente:
“Porque ela também está aqui.”
Rafael franziu a testa.
“Ela quem?”
Lucas respondeu sem hesitar:
“Sofia.”
O silêncio caiu novamente.
Isabela se levantou de repente.
“Isso é absurdo… ele é uma criança!”
Mas Lucas não reagiu ao tom dela.
Ele apenas olhou para ela.
E disse:
“Eu conheço ela.”
Rafael respirou fundo.
“Como?”
Lucas hesitou apenas um segundo.
Depois respondeu:
“Ela estava comigo.”
O investigador se aproximou mais.
“Você conhece Sofia de onde?”
Lucas olhou para baixo.
E respondeu:
“Do quarto.”
Isabela ficou pálida.
“Que quarto?”
Lucas levantou o olhar.
“O quarto do hospital.”
O ar na sala ficou mais pesado.
Rafael deu um passo à frente.
“Você esteve no hospital com ela?”
Lucas assentiu.
“Estivemos juntos.”
O investigador trocou um olhar com os colegas.
“Isso precisa ser detalhado.”
Lucas foi levado para uma sala separada.
Camila Ribeiro foi chamada imediatamente.
E pela primeira vez desde o início do caso, dois mundos se encontrariam.
Na sala de atendimento, Lucas sentou-se calmamente.
Camila observou.
“Lucas, você pode me contar o que lembra?”
O menino respirou fundo.
E começou:
“Eu lembro da luz branca.”
Camila escreveu.
“Mais alguma coisa?”
Lucas continuou:
“Eu lembro de duas camas pequenas.”
Ela parou por um segundo.
“Duas?”
Lucas assentiu.
“Uma era minha. A outra era dela.”
Camila ficou em silêncio por um momento.
“Quem é ‘ela’?”
Lucas respondeu imediatamente:
“Sofia.”
Na sala de investigação, Rafael assistia pelas câmeras.
Isabela estava ao lado, cada vez mais tensa.
“Isso não pode estar acontecendo”, Rafael murmurou.
O investigador entrou na sala de observação.
“Ele está descrevendo o mesmo padrão que sua filha.”
Rafael virou-se imediatamente.
“Você está dizendo que eles… se conheciam?”
O investigador respondeu:
“Ou que foram colocados juntos em algum momento.”
Isabela começou a tremer.
“Não… não…”
Na sala de entrevista, Camila continuava.
“Lucas, você lembra de sair do hospital?”
Ele hesitou.
E respondeu:
“Sim.”
“Com quem você saiu?”
Lucas olhou para baixo.
E disse:
“Com uma mulher.”
Camila franziu o cenho.
“Quem era ela?”
Lucas respondeu:
“Ela disse que era minha mãe.”
Na delegacia, Rafael ouviu isso pela tela.
E ficou imóvel.
“Minha mãe?”, ele repetiu.
O investigador observou cuidadosamente.
“Isso muda completamente a linha de investigação.”
Lucas continuou na sala:
“Ela disse que eu não podia ficar lá.”
Camila perguntou suavemente:
“E Sofia?”
Lucas respondeu:
“Ela ficou.”
Silêncio.
Rafael levantou-se de repente.
“Isso não faz sentido! Se ele saiu… ela também teria saído!”
O investigador respondeu calmamente:
“Não necessariamente.”
Isabela cobriu o rosto com as mãos.
“Meu Deus…”
Camila na sala continuou:
“Lucas, você lembra do nome dessa mulher?”
O menino hesitou.
Longamente.
E então disse:
“Mariana.”
Na delegacia, o nome ecoou novamente.
Rafael congelou.
“Mariana…”, ele repetiu.
Lucas assentiu.
“Ela me levou embora.”
Isabela caiu sentada novamente.
Rafael virou-se para o investigador.
“Isso não pode ser coincidência.”
O investigador respondeu:
“Não é.”
Na sala de observação, Lucas desenhou algo no papel.
Camila olhou.
E sentiu um frio imediato.
Era o mesmo desenho.
O mesmo quarto.
As mesmas duas camas.
Mas agora havia algo novo.
Camila perguntou:
“O que é isso no canto?”
Lucas respondeu:
“Ela ficava lá.”
“Quem?”
Lucas olhou diretamente para ela.
E disse:
“Sofia.”
Na delegacia, o investigador colocou um novo documento na mesa.
“Temos um problema maior agora.”
Rafael perguntou imediatamente:
“O quê?”
O policial respondeu:
“Os relatos de Lucas e Sofia são idênticos.”
Silêncio.
“Como isso é possível?”, Rafael perguntou.
O investigador respondeu lentamente:
“Porque eles podem ter vivido a mesma experiência.”
Isabela levantou o olhar, desesperada.
“Isso é impossível…”
Mas o investigador continuou:
“Ou porque foram separados depois dela.”
Rafael ficou imóvel.
Lucas, na sala ao lado, terminou seu desenho.
E disse algo que ninguém esperava:
“Ela ainda está lá.”
Camila congelou.
“Onde?”
Lucas respondeu:
“No lugar onde eles nos deixaram.”
Na delegacia, o investigador recebeu uma nova atualização do arquivo hospitalar.
Ele leu em voz baixa:
“Registro de transferência simultânea de dois recém-nascidos não compatibilizados no sistema.”
Rafael se aproximou lentamente.
“Dois?”
O investigador assentiu.
Isabela sussurrou:
“Então… eles eram dois…”
O investigador respondeu:
“E foram separados no mesmo dia.”
Rafael respirou fundo.
“Quem fez isso?”
O investigador olhou para ele.
E disse:
“Essa é a pergunta que ainda não conseguimos responder.”
E naquele instante, enquanto Lucas e Sofia repetiam a mesma história em salas diferentes…
ficou claro que a verdade não estava apenas escondida.
Ela estava duplicada.