Naquela noite, São Paulo parecia mais silenciosa do que deveria.
Não era o silêncio natural da madrugada.
Era um silêncio que parecia imposto.
No Jardim Ângela, as luzes dos postes piscavam intermitentemente, como se até a eletricidade estivesse instável.
Téo Ribeiro caminhava na frente.
Atrás dele, Eduardo Vasconcelos tentava acompanhar o ritmo das ruas estreitas e irregulares.
“Não gosto disso”, Eduardo disse, olhando ao redor.
Téo não respondeu.
“Você disse que alguém estava te seguindo”, Eduardo insistiu.
Téo parou por um segundo.
“Eu não disse que era só eu.”
O vento atravessou o beco.
E por um instante, tudo pareceu quieto demais.
Na sede do Grupo Vasconcelos, o clima era de contenção total.
Otávio Vasconcelos caminhava pela sala de crise como se já fosse o dono absoluto da situação.
“Localização confirmada?”, ele perguntou.
Um operador respondeu:
“Sim. Jardim Ângela. Dois ativos.”
Otávio assentiu lentamente.
“Então encerrem a exposição.”
“Encerrar… como?”, perguntou um executivo.
Otávio olhou diretamente para ele.
“Removendo o problema da rua.”
No abrigo, Júlia Farias recebeu um alerta urgente no celular.
“Atualização de risco crítico.”
Ela franziu a testa.
“Não pode ser agora…”
A tela mudou sozinha.
“ATIVO RIBEIRO – MOVIMENTO DETECTADO”
Júlia levantou rapidamente.
“Eles estão indo atrás dele…”
No Jardim Ângela, Téo parou de andar.
Eduardo também.
“Você percebeu isso?”, Téo perguntou.
“Percebi o quê?”
O menino olhou para o fim da rua.
“Eles já não estão escondendo.”
Eduardo seguiu o olhar dele.
E viu.
Dois carros pretos estavam parados.
Sem faróis.
Sem placas visíveis.
“São policiais?”, Eduardo perguntou.
Téo respondeu seco:
“Não.”
“Então quem são?”
Téo respirou fundo.
“Os que não aparecem em relatório.”
Na mansão, Sofia Vasconcelos estava em pé no meio do corredor.
Imóvel.
Olhos fixos.
Ela não falava.
Mas havia algo diferente nela.
Como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais podia ouvir.
No escritório, o sistema da casa acendeu sozinho.
A tela mostrou:
“CONEXÃO ATIVA: SANTA CLARA”
Eduardo, ainda no bairro, não sabia disso.
Mas em algum nível, Sofia também estava lá.
Na rua, os carros começaram a se mover.
Devagar.
Como cercando.
Eduardo deu um passo para trás.
“Téo… precisamos sair daqui.”
Mas Téo não se mexeu.
“Já é tarde”, ele disse.
De repente, Júlia chegou correndo ao final da rua.
“Parem!”, ela gritou.
“Ele é menor de idade!”
Os carros ignoraram.
Uma porta abriu.
Sem sirene.
Sem uniforme.
Sem identificação.
Um homem desceu.
E falou apenas:
“Mateus Ribeiro.”
Téo deu um passo para trás instintivamente.
Eduardo se colocou na frente.
“Quem é você?”
O homem não respondeu.
Ele apenas mostrou um documento.
Não era policial.
Não era judicial.
Era médico.
“Ele precisa vir conosco”, disse o homem.
“Por quê?”, Eduardo exigiu.
O homem respondeu calmamente:
“Porque ele já faz parte do protocolo.”
No mesmo instante, na empresa, Camila Braga assistia a transmissão interna de segurança.
“Isso não foi autorizado”, ela disse.
Otávio apareceu na tela.
“Foi sim.”
Camila ficou rígida.
“Isso é sequestro institucional.”
Otávio respondeu frio:
“É contenção de risco.”
No Jardim Ângela, Téo recuou mais um passo.
“Eu não vou com vocês.”
O homem médico inclinou a cabeça.
“Você não tem escolha.”
Eduardo tentou intervir.
“Ele é uma criança!”
O homem respondeu:
“Ele é um ativo de pesquisa.”
Silêncio total.
Naquele segundo, Júlia gritou:
“Eu tenho ordem do Conselho Tutelar!”
Ela mostrou o celular.
Mas o sistema já estava bloqueado.
Mensagem:
“JURISDIÇÃO TRANSFERIDA”
Júlia empalideceu.
“Transferida para onde…?”
No mesmo instante, na mansão, Sofia caiu de joelhos.
Ela levou as mãos à cabeça.
E pela primeira vez desde que tudo começou…
Ela sussurrou algo.
Muito baixo.
“Não…”
Eduardo, mesmo longe, sentiu algo estranho no peito.
No Jardim Ângela, os homens se aproximaram de Téo.
Eduardo tentou impedir.
Mas foi segurado.
“Téo!”, ele gritou.
O menino olhou para ele.
“Não deixa eles levarem tudo”, ele disse.
E então aconteceu rápido demais.
Um pano foi colocado sobre o rosto de Téo.
Ele tentou resistir.
Mas o corpo perdeu força.
Eduardo gritou:
“SOLTA ELE!”
Mas já estava sendo colocado dentro do carro.
Júlia correu.
“Isso é ilegal!”
Um dos homens respondeu:
“Não aqui.”
A porta do carro fechou.
Trancada.
Eduardo bateu no vidro.
“Téo!”
O menino ainda estava consciente por um segundo.
E olhou diretamente para ele.
Sem medo.
Sem choro.
Só uma frase:
“Ela não está sozinha.”
O carro partiu.
Sem sirene.
Sem aviso.
No mesmo instante, na Mansão Vasconcelos, Sofia parou de respirar por um segundo.
E então escreveu com força no papel:
“ELE FOI LEVADO.”
Eduardo, no meio da rua, recebeu a mensagem ao mesmo tempo.
E ficou imóvel.
No sistema interno da empresa, um alerta apareceu:
“TRANSFERÊNCIA DE ATIVO CONCLUÍDA”
Destino:
“INSTALAÇÃO PRIVADA – PROJETO SANTA CLARA”