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《A MENINA QUE NUNCA EXISTIU》PARTE 4

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Na manhã seguinte, São Paulo parecia mais fria do que o normal, como se a cidade tivesse sido coberta por uma camada invisível de silêncio.

Na Mansão Vasconcelos, o clima havia mudado completamente após as últimas descobertas. Não havia mais a sensação de curiosidade sobre Sofia.

Agora havia preocupação.

E medo.

Eduardo Vasconcelos estava no escritório principal, cercado por relatórios médicos impressos e arquivos digitais abertos em múltiplas telas.

Seu olhar estava fixo em uma linha repetida em todos os documentos:

“Paciente submetida a acompanhamento psicológico prolongado em ambiente fechado.”

Ele franziu a testa.

“Ambiente fechado?”, ele repetiu em voz baixa.

Na porta, o médico da família, Dr. Henrique Lacerda, aguardava com expressão tensa.

“Preciso entender uma coisa com clareza”, disse Eduardo. “Minha filha foi submetida a esse tipo de tratamento por quanto tempo?”

O médico hesitou.

“Dois anos e meio, aproximadamente.”

Eduardo levantou o olhar lentamente.

“E isso foi decidido por quem?”

Silêncio.

O médico evitou responder diretamente.

“Foi um protocolo recomendado por especialistas externos.”

“Especialistas de onde?”, Eduardo insistiu.

O médico respirou fundo.

“Hospital Infantil Santa Clara.”

O nome caiu no ambiente como algo pesado demais para ser ignorado.

Eduardo se levantou.

“Esse hospital de novo…”

Ele caminhou até a janela.

“Vocês me disseram que era um centro de referência.”

“E é”, respondeu o médico rapidamente. “Mas havia um programa específico de tratamento psicológico intensivo.”

Eduardo virou o rosto.

“Intensivo como?”

O médico hesitou.

“Isolamento emocional controlado.”

No mesmo momento, no Jardim Ângela, Téo estava sentado na varanda do abrigo, observando o movimento da rua.

Júlia Farias se aproximou com dois papéis na mão.

“Precisamos conversar sobre algo sério”, ela disse.

Téo não respondeu.

“Encontramos registros do hospital Santa Clara relacionados à sua mãe.”

Isso fez ele levantar o olhar imediatamente.

Na mansão, Sofia estava desenhando.

Mas seus desenhos não eram mais aleatórios.

Agora havia padrões.

Corredores.

Portas trancadas.

Uma figura feminina borrada.

Ela pressionava o lápis com força incomum.

Eduardo entrou devagar.

“Sofia… você lembra daquele lugar?”

Ela parou.

E escreveu:

“ELA CHORAVA MUITO.”

Eduardo sentiu um aperto no peito.

“Quem chorava?”, ele perguntou.

Sofia apontou para o desenho.

A figura feminina.

Na sede do Grupo Vasconcelos de Tecnologia, Camila Braga analisava arquivos de segurança antigos.

Ela abriu uma pasta chamada:

“Santa Clara – Restrito”

O sistema pediu autenticação dupla.

Ela digitou sua senha.

Acesso permitido.

Mas os arquivos estavam incompletos.

“Isso não faz sentido…”, ela murmurou.

Enquanto isso, no abrigo, Téo lia o documento entregue por Júlia.

Seu rosto ficou rígido.

“Isso não é só hospital”, ele disse.

Júlia o observou.

“Então o que é?”

Téo apertou o papel.

“Eles chamavam de tratamento… mas não era tratamento.”

Na mansão, Eduardo estava agora mais inquieto.

Ele ligou diretamente para um contato no sistema de saúde privado.

“Quero todos os registros do Santa Clara dos últimos dez anos.”

A resposta veio hesitante.

“Senhor… esses dados foram parcialmente apagados do sistema nacional.”

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Eduardo ficou imóvel.

“Parcialmente?”

“Sim. E o padrão é estranho.”

“Explique.”

Silêncio.

“Algumas entradas não foram apenas removidas. Elas foram reescritas com outra identidade.”

Eduardo desligou sem responder.

Ele ficou olhando para o telefone como se ele tivesse mudado de natureza.

Naquela tarde, Sofia teve um comportamento inesperado.

Ela estava na sala quando de repente levantou.

Sem aviso.

Sem hesitação.

Eduardo se aproximou.

“Sofia?”

Ela caminhou até o corredor.

E parou diante de uma porta antiga da casa.

Uma porta que levava a uma ala pouco usada da mansão.

Ela colocou a mão sobre a madeira.

E não se mexeu.

“Você nunca esteve aqui”, disse Eduardo suavemente.

Mas Sofia não saiu.

Ela apenas pressionou a porta.

Como se lembrasse de algo que nunca deveria ter sido esquecido.

No abrigo, Téo fechou os olhos.

“Minha mãe não sumiu”, ele disse de repente.

Júlia ficou em silêncio.

“Ela foi tirada.”

“Isso é uma acusação grave”, ela respondeu.

Téo abriu os olhos.

“Eu sei o que vi nos arquivos.”

Naquele instante, o sistema do Conselho Tutelar no celular de Júlia emitiu um alerta automático.

“Atualização de dados hospitalares detectada.”

Ela franziu a testa.

“Isso não deveria estar conectado agora…”

No mesmo segundo, na Mansão Vasconcelos, o computador de Eduardo acendeu sozinho.

Sem comando.

A tela abriu um arquivo antigo.

Título:

“Projeto Santa Clara – Continuidade Neuroemocional Infantil”

Eduardo congelou.

“Eu nunca autorizei isso…”

Na sede da empresa, Camila assistia à mesma base de dados sendo atualizada em tempo real.

Ela tentou interromper o acesso.

Mas o sistema bloqueou sua ação.

Mensagem na tela:

“ACESSO COMPARTILHADO ATIVO”

Camila ficou rígida.

“Compartilhado com quem…?”

Na mansão, Sofia começou a respirar mais rápido.

Ela soltou o papel que segurava.

E pela primeira vez desde que tudo começou, ela reagiu fisicamente ao que estava acontecendo ao redor.

Ela levou as mãos à cabeça.

Como se ouvisse algo que ninguém mais ouvia.

Eduardo se aproximou.

“Sofia, olha pra mim.”

Mas ela não respondeu.

Ela estava tremendo.

E então, algo inesperado aconteceu.

Ela não falou.

Não escreveu.

Ela apenas bateu com força na mesa.

Uma vez.

Forte.

Decidida.

Eduardo ficou paralisado.

Não era linguagem.

Não era palavra.

Era outra coisa.

No abrigo, Téo também parou de falar.

Ele olhou para o próprio celular.

E disse apenas:

“Eles ativaram de novo.”

Júlia o encarou.

“Quem ativou o quê?”

Téo levantou o olhar.

“Os arquivos dela não deveriam estar acessando ao mesmo tempo.”

Naquele momento, todos os sistemas conectados ao Hospital Santa Clara começaram a sincronizar sozinhos.

Mansão.

Abrigo.

Empresa.

Hospital.

E então, no computador de Eduardo, uma nova linha apareceu sozinha:

“Paciente conectada: Sofia Vasconcelos”

Logo abaixo:

“Interação detectada: resposta não verbal confirmada.”

Eduardo recuou um passo.

“Isso não pode estar acontecendo…”

Sofia levantou os olhos lentamente.

E olhou diretamente para o pai.

Mas não era um olhar de criança.

Era um olhar de reconhecimento.

E no hospital central de São Paulo, todos os arquivos do setor infantil abriram simultaneamente.

Sozinhos.

E começaram a ser reescritos em tempo real.

 

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