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《A MENINA QUE NUNCA EXISTIU》PARTE 2

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Na manhã seguinte ao evento na Mansão Vasconcelos, o silêncio dentro da residência parecia mais pesado do que o mármore do chão. Nada era dito em voz alta, mas tudo estava sendo observado.

Sofia Vasconcelos estava sentada no sofá da sala principal, segurando um papel amassado onde havia escrito apenas uma palavra na noite anterior: “Téo”.

Ela não falava, mas também não esquecia.

No andar de cima, Eduardo Vasconcelos andava de um lado para o outro com o telefone na mão. A notícia já havia vazado. Um menino desconhecido entrou na festa, interagiu com sua filha e provocou uma resposta.

E isso, para o mundo dele, era perigoso.

“Quero todos os relatórios de segurança da noite passada”, ele disse ao telefone. “Todos. Sem exceção.”

Do outro lado da cidade, na delegacia da zona sul, Mateus Ribeiro, o Téo, estava sentado numa sala fria de interrogatório.

As paredes eram brancas demais. O ar parecia parado.

Um policial folheava uma pasta.

“Nome completo.”

“Téo Ribeiro”, ele respondeu.

“Idade?”

“Onze.”

“Endereço?”

“Jardim Ângela.”

O policial levantou os olhos.

“Você tem ideia de onde você entrou ontem à noite?”

Téo não desviou o olhar.

“Eu entrei onde uma menina precisava de ajuda.”

O policial riu sem humor.

“Ou você entrou onde não devia.”

No prédio do Grupo Vasconcelos de Tecnologia, a reunião emergencial já havia começado.

Na sala de vidro do 32º andar, executivos observavam imagens da câmera de segurança.

O menino aparecia claramente falando com Sofia.

Um dos diretores balançou a cabeça.

“Isso pode ser um ataque de concorrência.”

“Um menino de favela?” outro respondeu. “Isso não faz sentido.”

Mas Camila Braga, responsável pela área de compliance, não parecia convencida.

Ela observava a tela com atenção excessiva.

“Não subestimem isso”, ela disse. “Nada é aleatório quando envolve a família Vasconcelos.”

Na delegacia, a porta se abriu com força.

Uma mulher entrou apressada, de terno simples e crachá oficial.

Júlia Farias, do Conselho Tutelar.

“Esse menino não pode ficar aqui sozinho”, ela disse.

O policial revirou os olhos.

“Ele invadiu uma propriedade privada de alto risco.”

“Ele é uma criança”, Júlia respondeu firme. “Não um criminoso corporativo.”

Téo permaneceu em silêncio, mas observando tudo.

Ele já tinha aprendido que adultos brigavam mais entre si do que com a verdade.

Enquanto isso, na mansão, Eduardo assistia às imagens novamente.

Sofia estava no vídeo.

E falava.

Pouco.

Uma palavra.

Mas falava.

Ele pausou a imagem.

Aquele detalhe o incomodava mais do que qualquer ameaça financeira.

“Quem é esse menino?” ele perguntou.

O chefe de segurança hesitou.

“Estamos investigando. Mas há algo estranho nos registros dele.”

Eduardo virou o rosto.

“Explique.”

O segurança engoliu seco.

“Não há histórico escolar consistente. Não há registro médico confiável. E… o nome da mãe dele aparece em sistemas diferentes com dados conflitantes.”

O silêncio ficou mais denso.

“Isso não é possível”, Eduardo murmurou.

Mas no fundo ele sabia que era.

Na delegacia, Júlia se aproximou de Téo.

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“Você entende por que estão te segurando aqui?”

“Porque ela falou”, ele respondeu.

Júlia franziu a testa.

“Ela quem?”

“A menina.”

O policial interrompeu.

“Você quer dizer a filha do empresário.”

Téo assentiu.

“Ela não estava quebrada. Só estava presa.”

Naquele momento, um carro preto parou discretamente na rua em frente à delegacia.

Dentro dele, um homem observava.

Anotava algo em um tablet.

Ligou para alguém.

“Ele já está no sistema.”

Pausa.

“Sim. O menino apareceu de novo.”

Silêncio.

“E ele ativou resposta na criança.”

A voz do outro lado ficou mais baixa.

“Confirme a origem dele.”

A ligação foi encerrada.

Na sala de interrogatório, Júlia tentou suavizar o ambiente.

“Mateus… você não pode simplesmente entrar em propriedades privadas de famílias poderosas.”

“Eu não entrei por causa dele”, Téo respondeu.

“Então por quê?”

Ele hesitou.

Por um segundo, parecia que ia responder algo mais profundo.

Mas então fechou a expressão.

“Porque eu já vi isso antes.”

Júlia ficou séria.

“O que você viu?”

Téo olhou para baixo.

“Criança que para de falar… nunca é só tristeza.”

Na mansão, Eduardo recebeu uma ligação inesperada.

“Senhor Vasconcelos… encontramos um problema nos arquivos hospitalares relacionados à sua filha.”

Ele ficou imóvel.

“Que tipo de problema?”

A voz no telefone hesitou.

“Os registros de internação dela foram editados várias vezes.”

Eduardo apertou o telefone com força.

“Isso não é possível.”

“Mas tem mais”, continuou a voz.

“Não é só ela.”

Pausa.

“Há outro nome vinculado ao mesmo padrão de alteração.”

Eduardo sentiu um desconforto frio subir pelo peito.

“Qual nome?”

Silêncio do outro lado.

Depois:

“Mateus Ribeiro.”

Na delegacia, Téo foi autorizado a sair temporariamente sob responsabilidade do Conselho Tutelar.

Ao sair do prédio, ele sentiu o sol forte de São Paulo bater no rosto.

Júlia caminhava ao lado dele.

“Você vai precisar de proteção agora”, ela disse.

“Eu não preciso de proteção”, ele respondeu.

“Todo mundo precisa.”

Téo parou por um segundo.

“Não quando já perderam tudo.”

No mesmo instante, na mansão, Sofia estava no jardim.

Sozinha.

Ela segurava o papel novamente.

E escreveu outra palavra.

“Hospital.”

Eduardo viu de longe.

E congelou.

“Hospital?” ele repetiu.

Sofia não explicou.

Ela apenas olhou para ele.

Como se estivesse tentando lembrar algo que ainda não conseguia dizer em voz alta.

No fim da tarde, Camila Braga revisava relatórios no escritório.

Algo no sistema hospitalar chamou sua atenção.

Um arquivo antigo.

Ela clicou.

E parou.

O nome de uma mulher apareceu na tela:

Luciana Ribeiro

Mãe de Téo.

Mas quando ela tentou abrir o registro completo, a tela piscou.

E o arquivo desapareceu.

Camila ficou imóvel.

Então murmurou:

“Isso não deveria ter sido apagado…”

Naquela noite, Téo voltou ao abrigo no Jardim Ângela.

Mas antes de entrar, ele percebeu algo estranho.

Um carro parado do outro lado da rua.

Motor ligado.

Vidros escuros.

Ele reconheceu algo instintivamente.

Não era curiosidade.

Era vigilância.

Júlia também percebeu.

“Entre agora”, ela disse.

Mas Téo não se mexeu.

Ele apenas olhou diretamente para o carro.

Como se estivesse esperando que alguém finalmente saísse dele.

Dentro do veículo, uma voz disse:

“Ele sabe.”

Outra respondeu:

“Então acelerem o próximo passo.”

No hospital central de São Paulo, uma funcionária de TI olhava para o sistema de registros antigos.

Ela digitou o nome novamente:

Luciana Ribeiro

Pressionou enter.

Erro.

Tentou outra base.

Erro.

Suspirou.

“Esse nome não existe mais…”

Ela se levantou, confusa.

E quando voltou ao computador…

O nome dela também havia desaparecido da tela.

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