O silêncio dentro da sala de reuniões do Hospital Sírio-Libanês era diferente naquela noite.
Não era calma.
Era tensão acumulada.
Como se algo antigo tivesse sido puxado de volta para a superfície depois de anos enterrado.
Henrique Vasconcelos estava sentado na cama, cercado por monitores e médicos, mas sua atenção não estava mais no próprio corpo.
Estava em uma única coisa.
O nome que tinha ouvido mais cedo.
Mariana Alves.
Renato entrou na sala com uma pasta preta na mão.
Ele parecia desconfortável.
“Senhor… conseguimos o relatório completo sobre ela.”
Henrique virou o rosto lentamente.
“Fale.”
Renato respirou fundo.
“Mariana Alves trabalhou para o Grupo Vasconcelos.”
Silêncio.
Henrique franziu o cenho.
“Em qual área?”
Renato hesitou antes de responder.
“Pesquisa médica.”
O ar mudou.
Henrique ficou imóvel.
“Isso não estava no meu registro de funcionários.”
Renato confirmou com a cabeça.
“Porque era confidencial.”
No outro lado da cidade, na periferia da Zona Sul, Mariana Alves estava sentada no chão da pequena casa, olhando para o nada.
Gabriel estava ao lado dela, em silêncio.
Mas ele não parecia uma criança comum naquele momento.
Parecia alguém ouvindo algo distante.
Algo que ninguém mais conseguia perceber.
Mariana passou a mão no rosto.
“Eles encontraram.” — ela murmurou.
Gabriel respondeu baixo:
“Eles sempre encontram.”
Mariana fechou os olhos.
“Você não deveria ter sido visto.”
Gabriel olhou para ela.
E disse algo que fez o ar da casa ficar mais pesado:
“Eu já fui visto antes.”
No hospital, Henrique apertou os lençóis com força.
“Pesquisa médica de quê?” — ele perguntou.
Renato abriu o arquivo no tablet.
E mostrou.
“Projeto interno do grupo… chamado ‘Neuro Genesis’.”
Silêncio absoluto.
Henrique congelou.
Esse nome ele conhecia.
Mas não queria lembrar.
Renato continuou:
“Era um programa experimental de regeneração neurológica.”
Henrique respirou mais pesado.
“Isso foi encerrado há anos.”
Renato assentiu.
“Oficialmente sim.”
Pausa.
“Mas Mariana Alves estava lá até o fim.”
Henrique virou o rosto lentamente.
E pela primeira vez naquela noite…
não parecia um empresário.
Parecia alguém perdendo controle da própria história.
“Ela fazia o quê lá?” — ele perguntou.
Renato hesitou.
“Ela era responsável pela parte de compatibilidade biológica.”
Silêncio.
Henrique franziu o cenho.
“Explique.”
Renato engoliu seco.
“Testes em crianças.”
O ar da sala pareceu congelar.
Na favela, Mariana se levantou de repente.
Como se tivesse sentido algo.
Gabriel olhou para ela.
“Eles falaram o nome?” — ele perguntou.
Mariana não respondeu imediatamente.
Depois disse:
“Sim.”
Silêncio.
Gabriel baixou o olhar.
E disse:
“Então eles lembraram.”
No hospital, Henrique estava agora completamente imóvel.
“Crianças?” — ele repetiu.
Renato confirmou.
“Era a fase inicial do projeto.”
Henrique apertou os punhos.
“Isso nunca passou pela aprovação do conselho.”
Renato respondeu:
“Porque nunca foi oficializado.”
Pausa.
“Era paralelo.”
Henrique sentiu um frio na espinha.
“Quem autorizou isso?” — ele perguntou.
Renato hesitou por um segundo.
E então respondeu:
“Seu pai.”
Silêncio absoluto.
O mundo pareceu parar.
Henrique fechou os olhos.
E quando abriu…
havia algo diferente.
Não era choque.
Era memória.
Na favela, Mariana finalmente falou.
“Você não devia lembrar disso.”
Gabriel olhou para ela.
“Mas eu lembro.”
Ela ficou tensa.
“Você era pequeno.”
Gabriel respondeu:
“Eu nunca fui pequeno.”
No hospital, Henrique começou a respirar mais rápido.
“Meu pai estava envolvido nisso?” — ele perguntou.
Renato assentiu.
“Ele financiava tudo.”
Pausa.
“Mas não sabia tudo que acontecia.”
Henrique riu sem humor.
“Claro que sabia.”
Renato abriu outro arquivo.
E mostrou uma imagem.
Uma sala de laboratório.
E uma criança.
Henrique se aproximou da tela.
E ficou imóvel.
“Isso…” — ele murmurou.
Renato confirmou:
“É ele.”
Gabriel.
Henrique sentiu o coração acelerar.
“Ele estava no projeto…” — ele disse.
Renato respondeu:
“Ele era o projeto.”
Silêncio absoluto.
Na favela, Mariana começou a tremer levemente.
“Não era para isso voltar…” — ela disse.
Gabriel olhou para ela.
“Eu fui o único que funcionou.”
Mariana fechou os olhos.
E uma lágrima caiu.
No hospital, Henrique levantou a voz pela primeira vez.
“Vocês fizeram isso com uma criança?” — ele gritou.
Renato tentou se manter calmo.
“Não era para sobreviver.”
Henrique ficou imóvel.
“Mas ele sobreviveu.”
Renato assentiu.
“E desapareceu depois do incidente.”
Henrique respirou fundo.
“Incidente?”
Renato hesitou.
“Falha no sistema.”
Pausa.
“Explosão de energia neural.”
Henrique ficou em silêncio.
E então disse algo baixo:
“Ele não estava curando minha perna…”
Renato olhou para ele.
Henrique continuou:
“Ele estava reativando algo.”
Na favela, Gabriel colocou a mão na cabeça.
E disse:
“Eles estão abrindo de novo.”
Mariana se aproximou rapidamente.
“O que você está sentindo?”
Gabriel respondeu:
“Eles estão tentando me ligar outra vez.”
No hospital, os monitores começaram a apitar.
Sem motivo.
Renato olhou assustado.
“Senhor… os sinais estão voltando.”
Henrique abriu os olhos.
E sentiu novamente.
Não dor.
Mas algo mais profundo.
Como se algo dentro dele estivesse respondendo.
Na favela, o celular de Mariana tocou.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
Silêncio.
Depois uma voz:
“Ele está acordando.”
Mariana congelou.
“Quem é você?” — ela perguntou.
Mas a ligação já tinha sido encerrada.
No hospital, Henrique olhou para o teto.
E disse:
“Ele não é só um menino.”
Renato respondeu:
“Não, senhor.”
Pausa.
“Ele é o que sobrou do projeto.”
Henrique virou lentamente o rosto.
E perguntou:
“E o que acontece quando o projeto volta?”
Renato não respondeu.
Porque naquele momento…
todas as luzes do hospital se apagaram ao mesmo tempo.
E no escuro total…
uma única frase apareceu no monitor principal:
“SUBJETO GABRIEL — ATIVO NOVAMENTE”