Depois do pedido de casamento transmitido para todo o Brasil, parecia que finalmente eu poderia respirar. Por alguns segundos, por alguns minutos talvez, eu realmente acreditei que tudo começaria a se acalmar.
O país estava em choque, dividido entre euforia e curiosidade, celebrando o romance improvável entre a princesa desaparecida e o herdeiro de um dos maiores impérios empresariais do Brasil. Mas aquela sensação de paz era frágil demais para durar.
Porque, mesmo enquanto o mundo inteiro comemorava, eu sentia algo diferente.
Algo errado.
Alguém ainda estava observando.
E sorrindo nas sombras.
Na manhã seguinte, o Palácio Imperial parecia menos um símbolo de poder e mais um campo de tensão silenciosa. Os corredores estavam cheios de movimento constante. Conselheiros caminhando rápido. Guardas em alerta. Jornalistas tentando se aproximar dos portões. Políticos comentando em voz baixa. Todos falavam do mesmo assunto: o casamento. O futuro da monarquia. O impacto político da minha existência.
Mas nada disso me importava naquele momento.
O que me preocupava eram as investigações.
As provas reunidas por Ricardo Vasconcelos e pela Guarda Real estavam ficando cada vez mais claras… e cada vez mais inquietantes.
Tudo apontava para Isabella Montenegro.
Transferências bancárias suspeitas. Mensagens apagadas. Depoimentos contraditórios. Tentativas de assassinato. Registros manipulados. Cada pista levava a ela como se fosse a peça central de uma conspiração.
Mas havia um problema.
Algo não encaixava.
E eu sentia isso no fundo do meu peito.
Ricardo também sentia.
Na sala de operações da Guarda Real, o ambiente era pesado. Uma grande mesa ocupava o centro, coberta por fotografias, documentos e relatórios digitais projetados em telas laterais. O som do ar-condicionado parecia alto demais naquele silêncio tenso.
Santiago Albuquerque aparecia em várias imagens. Isabella Montenegro em outras. Funcionários corruptos, seguranças comprados, contas bancárias secretas em diferentes países. Tudo conectado de forma precisa.
Mas havia uma pergunta que ninguém conseguia responder.
Quem financiava tudo aquilo?
Porque Isabella era manipuladora.
Santiago era influente.
Mas nenhum dos dois tinha poder suficiente para sustentar um esquema daquele nível.
Havia alguém maior.
Muito maior.
Ricardo permaneceu em silêncio por longos segundos, observando os dados na tela. Seu olhar era analítico, mas havia algo de inquietação nele também.
Finalmente ele falou.
"Ela é culpada."
Eu assenti devagar.
"Eu sei."
Mas então completei.
"Mas ela não é a mente por trás disso."
O silêncio caiu imediatamente na sala.
Porque todos ali pensavam a mesma coisa.
E ninguém queria dizer em voz alta.
Naquela tarde, Isabella Montenegro foi conduzida para o interrogatório oficial da Guarda Real.
Pela primeira vez, ela não estava impecável.
Não havia maquiagem perfeita.
Nem joias.
Nem o sorriso arrogante que sempre carregava como escudo.
Ela parecia pequena.
Assustada.
Quase irreconhecível.
O Coronel Matheus Rocha sentou-se à frente dela, colocando lentamente uma pasta sobre a mesa.
O silêncio era absoluto.
"Quem mandou matar Elena Maria de Bragança?" ele perguntou com firmeza.
Isabella não respondeu.
Matheus não desviou o olhar.
"Quem organizou o sequestro da princesa?"
Nada.
Apenas silêncio.
Ele respirou fundo.
"E quem mandou matar o Príncipe Augusto?"
Foi nesse momento que algo mudou.
Os olhos dela tremeram.
As mãos começaram a se fechar com força.
E eu percebi.
Ela sabia.
Mas tinha medo.
Um medo profundo.
Real.
Quase paralisante.
Horas depois, a pressão aumentou.
Advogados entraram. Promotores começaram a pressionar. Investigadores revisavam documentos sem parar. A sala parecia menor a cada minuto.
E então, pela primeira vez, Isabella quebrou.
Não foi um choro elegante.
Foi desespero.
Um colapso emocional completo.
"Eu não mandei sequestrar Elena!" ela gritou.
A sala congelou.
"Repita", disse o interrogador.
"Eu não mandei!" ela repetiu, cobrindo o rosto com as mãos. "Eu era uma criança!"
Meu coração acelerou imediatamente.
Ricardo, ao meu lado, ficou rígido.
Porque aquilo mudava tudo.
"Quem fez isso?" perguntou o Coronel Matheus.
Isabella começou a tremer violentamente.
Todo o corpo dela parecia em colapso.
"Eu não posso dizer…"
"Você vai dizer."
"Ele vai me matar."
O silêncio que veio depois foi pesado.
Quase sufocante.
Pela primeira vez desde que tudo começou, vi terror real nos olhos dela.
Não arrogância.
Não manipulação.
Apenas pavor.
Mais tarde, ao sair da sala de interrogatório, Ricardo estava diferente.
Mais sério.
Mais distante.
"Elena…" ele disse lentamente, "e se estivermos perseguindo a pessoa errada no centro disso tudo?"
Meu estômago afundou.
Porque eu também estava pensando nisso.
Naquela noite, voltamos aos arquivos secretos encontrados no palácio. Uma sala isolada, cheia de documentos antigos, relatórios rasgados, cartas parcialmente queimadas e registros que deveriam ter desaparecido há muito tempo.
Horas de análise.
Silêncio absoluto.
Até que encontramos algo.
Movimentações financeiras antigas.
Datadas de quinze anos atrás.
Valores absurdos.
Milhões de reais.
Transferidos para empresas fantasmas.
Empresas que não existiam oficialmente.
Mas que estavam ligadas diretamente ao meu desaparecimento.
Ao assassinato do meu pai.
E a toda a estrutura de encobrimento.
Ricardo analisou os nomes lentamente.
E então parou.
Congelou.
"Elena…"
A voz dele mudou.
Eu senti meu corpo reagir antes mesmo de entender.
"O quê?"
Ele virou a tela do computador lentamente na minha direção.
E apontou para um nome.
Um único nome.
Quando li, senti meu sangue congelar por inteiro.
Príncipe Regente Antônio de Bragança.
Irmão da Rainha Helena Cristina.
Meu tio.
O ar desapareceu dos meus pulmões.
Não podia ser.
Mas, ao mesmo tempo…
Tudo começava a fazer sentido.
Quinze anos atrás, meu pai morreu.
Pouco depois, eu desapareci.
E quem começou a ganhar influência dentro da estrutura da família real?
Ele.
Antônio.
Sempre ele.
Enquanto a Rainha afundava no luto.
Enquanto o país procurava uma princesa desaparecida.
Enquanto a monarquia enfrentava uma crise sem precedentes…
Antônio avançava.
Silenciosamente.
Metodicamente.
Assumindo influência, poder e controle.
Era perfeito demais.
Assustadoramente perfeito.
Ricardo passou a mão pelo rosto.
"Meu Deus…"
Eu não conseguia falar.
Porque as peças finalmente se encaixavam.
Não era apenas um sequestro.
Era um plano de poder.
Antônio não queria apenas esconder uma herdeira.
Ele queria o trono.
Sem mim.
Sem meu pai.
Sem sucessão legítima.
O caminho ficava livre.
Matheus Rocha foi chamado imediatamente.
Quando entrou na sala e viu os documentos, ficou pálido.
"Isso não pode sair daqui", disse ele imediatamente.
"Por quê?" perguntei.
Ele respirou fundo.
"Porque se isso for verdade…"
Ele engoliu seco.
"...é a maior traição já cometida dentro da família imperial brasileira."
Naquela mesma noite, o Príncipe Regente Antônio apareceu na televisão.
Sorridente.
Calmo.
Carismático.
Falando sobre estabilidade.
Sobre tradição.
Sobre proteger a família real.
Eu assistia àquela entrevista em silêncio.
Mas agora, eu não via um líder.
Eu via o inimigo.
"Ele matou meu pai", eu disse baixinho.
Ricardo segurou minha mão imediatamente.
"Vamos provar."
"Ele destruiu minha vida."
"Vamos provar."
"Ele tentou me apagar do mundo."
Ricardo apertou minha mão com mais força.
"Eu prometo."
Mas Antônio não era apenas poderoso.
Ele era perigoso.
Porque naquele exato momento, enquanto nós descobríamos a verdade…
Ele já sabia.
Alguém dentro da Guarda Real havia vazado informações.
Alguém o alertou.
E quando um homem assim se sente encurralado…
Ele não recua.
Ele ataca.
Na madrugada, eu não consegui dormir.
O palácio estava silencioso demais.
Pesado demais.
E isso me incomodava.
Uma funcionária bateu à porta.
"Vossa Alteza."
"Sim?"
"O Coronel Matheus solicitou sua presença imediatamente."
Estranhei.
Era tarde.
Muito tarde.
Mas eu não desconfiei.
Peguei um casaco.
Saí.
Atravessei o corredor vazio.
Desci a escadaria.
E então ouvi.
Passos atrás de mim.
Virei rápido.
Nada.
Meu coração acelerou.
Algo estava errado.
Tentei voltar.
Mas foi tarde.
Uma mão surgiu das sombras.
Cobriu minha boca.
Eu tentei gritar.
Não consegui.
Outra pessoa apareceu.
Depois outra.
Tudo aconteceu rápido demais.
Lutei.
Chutei.
Arranhei.
Mas eram fortes.
O cheiro de um pano úmido invadiu meu nariz.
Minha visão começou a escurecer.
O último pensamento antes de perder a consciência foi Ricardo.
Ricardo…
E então tudo desapareceu.
Horas depois, o Palácio Imperial entrou em colapso.
Sirene.
Correria.
Guardas armados.
Portões fechados.
Porque a princesa Elena Maria de Bragança…
Havia desaparecido novamente.