Lucas não saiu da mansão porque quis fugir.
Ele saiu porque percebeu que alguém o estava seguindo.
Desde o momento em que o relatório de DNA apareceu, todos os olhares mudaram.
Antes, ele era apenas um menino de rua.
Um incômodo.
Um intruso.
Agora, era sangue Andrade.
E isso o tornava perigoso.
Lucas atravessou o jardim lateral da mansão, usando as sombras das árvores para se esconder.
O vento frio da madrugada batia em seu rosto.
Atrás dele, as luzes da casa continuavam acesas.
Havia gritos.
Portas batendo.
Pessoas correndo.
Jonathan chamando seu nome.
Mas Lucas não voltou.
Ele precisava entender quem tinha mexido nos arquivos.
Quem tinha deletado as câmeras.
Quem estava tentando matar Miguel.
E, acima de tudo, quem tinha tanto medo de Ana.
Ele pulou o muro baixo perto da área de serviço.
Caiu do outro lado, em uma rua estreita e escura do Morumbi.
Por alguns segundos, ficou parado.
Escutando.
Nada.
Então ouviu.
Um motor.
Baixo.
Devagar.
Um carro preto surgiu no fim da rua.
Lucas sentiu o corpo inteiro ficar alerta.
Começou a andar mais rápido.
O carro acompanhou.
Ele virou na esquina.
O carro também.
Lucas correu.
O carro acelerou.
A porta traseira se abriu antes mesmo de parar.
Dois homens desceram.
Fortes.
Rápidos.
Sem uniforme.
Lucas tentou atravessar a rua, mas um deles o agarrou pela cintura.
"Me solta!"
Ele chutou.
Mordeu.
Bateu.
Mas o outro homem colocou um pano sobre sua boca.
Um cheiro forte invadiu seu nariz.
Lucas tentou prender a respiração.
Não conseguiu.
A última coisa que viu foi a luz distante da mansão.
Depois, tudo ficou escuro.
Dentro da mansão Andrade, Jonathan perdeu o controle.
Não aos poucos.
De uma vez.
"Como assim ele sumiu?!"
Sua voz explodiu no salão principal.
Seguranças, empregados, médicos e familiares ficaram imóveis.
Ninguém ousava responder.
Sérgio Duarte apareceu correndo, com o celular na mão.
"Senhor, estamos verificando as câmeras externas."
Jonathan agarrou o braço dele.
"Verificando?"
Sérgio engoliu seco.
"Sim, senhor."
"Meu filho quase foi assassinado dentro desta casa. Lucas descobre um segredo da minha família. E agora ele desaparece."
Jonathan soltou o braço do segurança com força.
"Isso não é fuga. Isso é sequestro."
Victoria estava parada perto da escada.
Pálida.
Mas não chorava.
Roberto Andrade surgiu ao lado dela, fingindo preocupação.
"Jonathan, calma. Talvez o menino tenha apenas se assustado."
Jonathan virou para o tio.
"Se você repetir isso, eu mando revistar sua casa primeiro."
Roberto ficou mudo.
Leonardo deu um passo para trás.
Beatriz Andrade, a madrasta de Jonathan, apareceu no alto da escada.
Elegante.
Fria.
Usando um robe de seda escuro.
"Você está fazendo um espetáculo", disse ela.
Jonathan ergueu os olhos.
"Um menino foi sequestrado."
Beatriz desceu um degrau.
"Um menino que ninguém conhece."
Jonathan subiu dois degraus na direção dela.
"Eu conheço o suficiente."
Beatriz sorriu.
"Conhece? Ou está se deixando manipular por uma criança que apareceu convenientemente no momento certo?"
Jonathan não respondeu.
Apenas encarou a mulher que havia comandado aquela casa por décadas.
Dona Beatriz sempre falava como rainha.
Mas naquela noite, Jonathan começou a vê-la de outro jeito.
Como alguém com medo de perder o trono.
Sérgio voltou.
"Senhor."
Jonathan virou imediatamente.
"Fale."
"As câmeras do portão lateral travaram por oito minutos."
O silêncio tomou o salão.
Jonathan fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua voz estava baixa.
Perigosa.
"De novo."
Sérgio assentiu.
"Sim."
"Quem tem acesso ao sistema?"
"O setor de segurança, o doutor Henrique Tavares e a administração da casa."
Todos olharam para todos.
Victoria levou a mão à boca.
Leonardo sussurrou:
"Isso é loucura."
Jonathan apontou para Sérgio.
"Quero cada carro da família rastreado."
"Sim, senhor."
"Quero placas nas saídas do bairro."
"Já estou acionando."
"Quero helicóptero."
Sérgio hesitou.
"Agora?"
Jonathan se aproximou dele.
"Agora."
Roberto tentou interferir.
"Jonathan, envolver o grupo inteiro nisso pode causar um escândalo."
Jonathan virou para ele.
"Escândalo é descobrir que minha família preferiu proteger sobrenome enquanto uma criança era levada."
Roberto ficou vermelho.
Jonathan pegou o celular e ligou diretamente para a central do Grupo Andrade.
"Ativem todos os motoristas, seguranças e contatos da cidade."
Do outro lado, alguém perguntou algo.
Jonathan respondeu:
"Não me importa se é madrugada."
Pausa.
"Procurem um menino de doze anos. Moreno. Moletom cinza. Calça rasgada."
A voz dele falhou por meio segundo.
Depois endureceu.
"E encontrem antes de quem levou ele decidir terminar o serviço."
Lucas acordou com dor de cabeça.
O chão era frio.
O cheiro era de mofo, ferrugem e gasolina velha.
Ele tentou se mexer.
As mãos estavam amarradas.
Os pés também.
Havia fita em sua boca.
Por alguns segundos, não entendeu onde estava.
Depois lembrou.
O carro.
Os homens.
O pano.
Ele respirou devagar pelo nariz.
Pânico não ajudava.
Na rua, pânico matava.
Lucas virou a cabeça lentamente.
Estava em um galpão abandonado.
Talvez na zona leste.
Talvez perto de alguma estrada.
Havia caixas velhas, pneus, tambores enferrujados e uma única lâmpada amarela pendurada no teto.
Ao longe, ouviu vozes.
Duas.
Não.
Três.
Uma delas ele reconheceu.
E seu sangue gelou.
Doutor Henrique Tavares.
"Eu disse para não machucar demais", falou o advogado.
"Ele mordeu meu braço", respondeu um dos homens.
"Ele é uma criança."
"Uma criança que sabe demais."
Houve silêncio.
Depois Henrique falou, mais baixo:
"Exatamente."
Lucas fechou os olhos por um segundo.
Então era verdade.
Henrique estava envolvido.
O advogado da família.
O homem que guardava documentos.
O homem que sabia sobre Ana.
O homem que mexia nos arquivos antes de todos.
Lucas tentou forçar as cordas.
Nada.
Estavam bem apertadas.
Ele olhou ao redor.
Precisava de algo cortante.
Qualquer coisa.
Um pedaço de metal.
Um vidro.
Um prego.
As vozes se aproximaram.
Lucas parou de se mexer.
Henrique entrou no galpão.
Impecável como sempre.
Terno escuro.
Sapatos brilhantes.
Como se tivesse ido a uma reunião, não ao sequestro de uma criança.
Ele se agachou diante de Lucas.
"Você causou bastante problema, sabia?"
Lucas o encarou.
Henrique arrancou a fita da boca dele.
A dor fez Lucas prender a respiração.
Mas ele não gritou.
"Você é corajoso", disse Henrique.
Lucas respondeu com a voz rouca:
"Você tem medo."
O sorriso do advogado desapareceu.
"Medo de você?"
"Da verdade."
Henrique olhou para os homens atrás dele.
Depois voltou a sorrir.
"Você não entende nada, menino."
"Entendo que Ana não sumiu sozinha."
O rosto de Henrique endureceu.
Lucas percebeu.
Acertou.
"Quem mandou você?"
Henrique se levantou.
"Você deveria ter continuado invisível."
"Mas Miguel ia morrer."
"O problema é exatamente esse."
Lucas sentiu o estômago virar.
"Você tentou matar ele."
Henrique não respondeu.
E aquele silêncio disse tudo.
Lucas sentiu raiva.
Uma raiva fria.
"Por quê?"
Henrique caminhou pelo galpão.
"Porque um império não pode ser decidido por emoção."
"Ele é um bebê."
"Ele é uma peça."
Lucas o encarou com nojo.
Henrique continuou:
"Miguel vivo mantém Jonathan no controle absoluto."
"E eu?"
Henrique sorriu.
"Você é pior."
Lucas ficou imóvel.
"Você não deveria existir."
As palavras bateram forte.
Não porque eram novas.
Lucas já tinha sentido aquilo a vida inteira.
Mas, naquele momento, elas tinham outro peso.
Henrique sabia.
Sabia exatamente quem ele era.
"Eu sou filho de quem?"
Henrique se aproximou outra vez.
"Você é uma lembrança que deveria ter sido enterrada."
Lucas prendeu a respiração.
"Minha mãe era Ana?"
Henrique ficou em silêncio.
Lucas insistiu:
"Ana era minha mãe?"
O advogado se inclinou.
"Você realmente acha que merece respostas?"
Lucas não desviou os olhos.
"Mereço mais do que vocês deram a ela."
Pela primeira vez, Henrique pareceu perder a paciência.
Deu um tapa no rosto de Lucas.
Forte.
A cabeça do menino virou para o lado.
O lábio abriu.
Sangue escorreu.
Mas Lucas sorriu.
"Você bate como quem está desesperado."
Henrique respirou fundo.
"Amarrem melhor."
Um dos homens se aproximou.
Lucas foi arrastado até uma cadeira velha.
Amarraram seus braços ao encosto.
Henrique colocou a fita de volta em sua boca.
Depois pegou o celular.
"Sim."
Uma pausa.
"Está comigo."
Outra pausa.
"Não. Ele ainda não falou com Jonathan."
Lucas arregalou os olhos.
Havia alguém do outro lado.
Alguém acima de Henrique.
O verdadeiro mandante.
Henrique ouviu em silêncio.
Depois respondeu:
"Entendido."
Desligou.
Olhou para os homens.
"Acabem com isso hoje."
Lucas sentiu o coração bater mais forte.
Um dos sequestradores apontou para os tambores de gasolina.
"Do jeito combinado?"
Henrique ajeitou o paletó.
"Um incêndio resolve muita coisa."
Lucas ficou imóvel.
O medo veio.
Finalmente.
Não por ele.
Por Miguel.
Por Jonathan.
Por Ana.
Pela verdade que ainda não tinha chegado inteira ao mundo.
Henrique caminhou até a porta.
Antes de sair, virou-se uma última vez.
"Você devia ter ficado na rua, Lucas."
A porta de metal se fechou.
O som ecoou pelo galpão vazio.
Os homens começaram a espalhar gasolina pelo chão.
O cheiro ficou mais forte.
Lucas olhou para a lâmpada amarela acima dele.
Depois para um pedaço de vidro quebrado perto da cadeira.
Pequeno.
Distante.
Quase impossível.
Mas Lucas já tinha sobrevivido a coisas impossíveis antes.
Enquanto a gasolina se espalhava pelo chão, ele começou a mover os pulsos em silêncio.
Lento.
Com dor.
Sem parar.
Porque aquela noite ainda não podia terminar.
Não ali.
Não queimado num galpão esquecido.
Não antes de Jonathan descobrir que o inimigo não estava apenas dentro da mansão.
Estava sentado à mesa da família.
E tinha acabado de dar a ordem para matar Lucas.