O amanhecer ainda nem havia clareado completamente a cidade de São Paulo quando Lucas acordou.
Ele não dormira direito.
Mesmo depois de salvar Miguel mais uma vez.
O garoto sentiu que algo estava errado.
Algo que ninguém mais conseguia ver.
Caminhou silencioso pelo corredor da mansão Andrade, evitando os seguranças ainda adormecidos.
Chegou ao quarto do bebê.
Miguel dormia tranquilo, coberto por um edredom vermelho.
Mas Lucas notou detalhes que ninguém havia percebido.
O cheiro do leite.
A temperatura do líquido.
A consistência no bico do mamadeira.
Havia algo diferente.
Algo que indicava perigo.
Lucas examinou a mamadeira com cuidado.
Sentiu um leve gosto amargo ao tocar a ponta com a língua.
Seu coração acelerou.
Alguém estava colocando algo na comida do bebê.
Há dias.
Ou semanas.
Talvez mais.
O sangue de Lucas gelou.
Ele sabia que não podia esperar.
Não havia tempo para alertar médicos que já haviam mostrado sua incompetência.
Nem para Jonathan que, embora poderoso, ainda era apenas humano.
Lucas decidiu agir sozinho.
Pegou uma pequena seringa que encontrou no quarto de Miguel.
Um movimento rápido, preciso, quase imperceptível.
Amostra do leite do bebê.
Levantou-se e correu para a pequena sala de estudos da mansão.
Jonathan estava no andar de baixo, tomando café.
Victoria apareceu logo atrás dele, impecável, mas com olhos duros e desconfiados.
"Jonathan, ainda falando com aquele menino?", perguntou com um sorriso falso.
"Ele encontrou algo, Victoria", respondeu Jonathan, tenso.
"Algo perigoso?"
"Sim."
Victoria revirou os olhos. "Claro. Porque uma criança sabe mais do que todos os nossos médicos juntos."
Jonathan ignorou o comentário. Pegou o celular e mandou mensagem para Ricardo Salles, exigindo que enviassem alguém para analisar o leite do bebê imediatamente.
Enquanto isso, Lucas examinava a amostra, procurando vestígios de substâncias estranhas.
Havia cheiro metálico, resquícios de medicamentos.
Alguém estava tentando envenenar Miguel deliberadamente.
Lucas não podia acreditar que chegara tão perto de descobrir sem que ninguém tivesse notado.
Ele sentiu um aperto no peito. Raiva. Medo. Determinação.
Jonathan entrou no quarto de estudo, olhando para Lucas com os olhos arregalados.
"O que você descobriu?"
Lucas não levantou a cabeça imediatamente.
"Alguém está tentando matar Miguel", disse finalmente, com a voz calma, mas firme.
Jonathan recuou alguns passos.
"Como assim? Quem faria algo assim com meu filho?"
Lucas olhou nos olhos dele. "Não sei. Mas está acontecendo há algum tempo."
Victoria entrou, interrompendo a conversa.
"Jonathan, você está deixando essa criança influenciar nossas decisões? Ele pode estar inventando histórias."
"Ele não inventou nada, Victoria!", Jonathan explodiu. "Ele salvou nosso filho duas vezes!"
Victoria cruzou os braços. "Isso não prova nada. Talvez seja apenas coincidência."
Jonathan respirou fundo, tentando controlar a fúria que crescia dentro dele.
"Não é coincidência. Ele sabe o que está fazendo. Ele salvou Miguel porque percebeu o perigo."
Victoria bufou. "Você está exagerando. Uma criança? Por favor."
Lucas se aproximou, firme.
"Você quer ver provas?", disse, estendendo a seringa com a amostra do leite.
Jonathan pegou, analisou rapidamente.
O cheiro metálico e o gosto amargo eram evidentes.
Seus olhos se arregalaram.
"Eu não vou permitir que alguém faça isso com meu filho", disse Jonathan, a voz baixa e perigosa.
Victoria se aproximou, segurando seu braço. "Jonathan, calma. Precisamos pensar antes de acusar alguém. E se for uma pessoa da família? Ou alguém que trabalha aqui há anos? Você não pode sair apontando dedos."
Jonathan se livrou de seu toque com força. "Eu vou descobrir. Eu juro que vou descobrir quem é o responsável."
Lucas permaneceu em silêncio, observando cada reação.
O garoto sabia que Jonathan estava em choque, e que a raiva poderia ser tanto uma arma quanto um risco.
"Temos que agir rápido", disse Lucas. "Se não, Miguel vai correr perigo de novo."
Jonathan assentiu, respirando fundo. "Mostre-me o que você sabe."
Lucas conduziu-o pelo quarto do bebê, mostrando o que havia percebido.
O cheiro, a temperatura, a mamadeira alterada.
Cada detalhe parecia pequeno, mas era crucial.
Jonathan franziu o cenho. "Então é realmente intencional. Não uma coincidência."
"Sim", disse Lucas. "Alguém está observando cada movimento do bebê."
Victoria olhou para os dois, ainda descrente. "E quem seria capaz de... isso?"
Jonathan deu um passo para trás, a raiva misturada com medo. "Não sei. Mas alguém do nosso círculo sabe."
O silêncio tomou o quarto.
O poder da casa Andrade parecia frágil diante do perigo invisível.
Jonathan respirou fundo. Olhou para Lucas.
"Você precisa me ajudar a descobrir quem está por trás disso. Preciso de todos os detalhes."
Lucas assentiu. "Mas não podemos confiar em ninguém."
Victoria estreitou os olhos. "Quem você pensa que pode saber mais do que nós, Lucas? Você é apenas uma criança."
Lucas ergueu o queixo. "Não sou apenas uma criança. Eu vejo o que ninguém mais quer ver."
Jonathan respirou fundo, sentindo a responsabilidade pesar.
Seus olhos se fixaram no bebê, adormecido agora, mas vulnerável.
"Temos que proteger Miguel", disse Jonathan. "Não importa o custo."
Victoria interrompeu, mais firme do que antes. "E se formos longe demais? Jonathan, pense! Se acusarmos alguém errado, isso pode destruir vidas."
Lucas olhou para ela, sem medo. "Algumas vidas já estão em perigo."
Jonathan sentiu o coração acelerar. Cada palavra de Lucas era certeira.
Ele percebeu que o garoto tinha razão.
O perigo era real.
E ninguém além dele parecia perceber.
Durante toda a manhã, Jonathan iniciou uma investigação interna.
Funcionários foram questionados, quartos revistados, registros de alimentação checados.
Mas Victoria insistia em barrar qualquer ação mais agressiva.
Ela temia escândalos. Temia expor a família.
"Não podemos fazer acusações precipitadas", dizia.
"Se alguém descobrir que suspeitamos de envenenamento, pode virar notícia nacional."
Mas Jonathan estava irredutível.
Lucas permanecia atento a cada detalhe.
Observava a equipe médica, os empregados, cada visita na mansão.
Algo estava errado.
O garoto percebeu que os olhares mudavam quando se aproximava da cozinha.
Que os registros de horário da enfermagem não batiam.
Que alguns funcionários passavam pelos corredores com mais pressa do que o normal.
E então, algo ainda mais perturbador.
Jonathan pediu para revisar as câmeras de segurança do quarto de Miguel.
"Mostre-me quem esteve aqui durante a noite", ordenou.
O técnico começou a acessar os arquivos.
Lucas observava, atento.
Jonathan olhou para Victoria, esperando concordância.
Ela relutou, mas não disse nada.
Quando os arquivos carregaram, Jonathan sentiu o estômago revirar.
As imagens noturnas mostravam os funcionários entrando e saindo.
Mas alguns momentos-chave estavam faltando.
Câmeras que deveriam estar registrando atividades durante a madrugada tinham trechos apagados.
Jonathan franziu a testa, incrédulo.
Lucas apontou silenciosamente.
"Alguém deletou as gravações."
Victoria engoliu em seco, sua expressão pálida.
"Isso é impossível", disse ela, mas sua voz tremia.
Jonathan se aproximou do monitor. "Não, não é impossível. É real. E se alguém está deletando imagens, isso significa que quer que ninguém descubra."
Lucas permaneceu em silêncio.
Seus olhos escuros observavam o bebê.
Ele sabia.
Sabia que não se tratava de um acidente.
Sabia que Miguel estava em perigo constante.
Jonathan respirou fundo, sentindo uma mistura de fúria, medo e urgência.
"Precisamos descobrir quem é", disse ele, com a voz baixa, mas firme. "E rápido."
Lucas assentiu.
O garoto estava pronto.
Mas naquele momento, todos perceberam uma verdade assustadora:
O inimigo estava muito perto.
E ninguém sabia exatamente quem.
As peças do quebra-cabeça estavam espalhadas.
E a primeira delas acabava de desaparecer das gravações de segurança.
As câmeras deletadas.
O aviso silencioso de que o perigo ainda estava ativo.
E que ninguém podia confiar em ninguém.
Lucas olhou para Jonathan.
A voz calma, firme e certeira, fez o bilionário tremer.
"Não é doença."