O dia parecia ensolarado e tranquilo do lado de fora, mas dentro da Torre Andrade, Ana Santos sentia o coração disparado.
O sucesso da última reunião havia se espalhado pelos corredores, e os funcionários ainda cochichavam sobre a queda de Roberto Ribeiro e a humilhação de Camila.
Ana caminhava lentamente pelo saguão, ajustando a pasta na mão, tentando absorver a sensação de vitória. Pela primeira vez em muito tempo, sentia que podia respirar sem medo.
Mas nem toda vitória dura para sempre.
De repente, um cheiro forte de álcool e suor invadiu o ambiente. Ana ergueu o olhar.
No meio do lobby, um homem cambaleava. A barba por fazer, camisa suja e remendada, garrafa de cachaça na mão. Os olhos vermelhos brilharam com fúria ao avistar Ana.
“ANA! Sua traidora! Sua ingrata!” — gritou Osvaldo, o padrasto, avançando desajeitado, mas furioso.
Os seguranças tentaram intervir, mas ele empurrou um deles, tropeçando sobre o tapete recém-polido. A pasta de Ana caiu no chão, espalhando documentos e algumas notas antigas.
“Vem comigo! Agora!” — rugiu Osvaldo, agarrando Ana pelo braço.
Ana tentou se soltar, mas ele tinha força de sobra.
“Solta! Você vai machucar minha mãe!” — gritou Ana, o medo dilacerando sua voz.
Lucas Andrade, que havia acompanhado Ana discretamente desde a garagem, percebeu a cena e correu. Cada passo ecoava no mármore do saguão como trovão.
“Solta ela agora!” — gritou Lucas, avançando contra Osvaldo.
O padrasto virou-se, surpreendido, mas não o suficiente para evitar o golpe. Lucas atingiu o ombro de Osvaldo com força, fazendo-o cambalear para trás. Mas o homem não desistia.
“Você não vai me impedir! Ela vai me dar o que é meu!” — berrou Osvaldo, com os dentes cerrados e os punhos fechados.
Ana recuou, tremendo, com lágrimas escorrendo pelo rosto. A sensação de déjà-vu era sufocante: os gritos, a violência, o medo. Desta vez, porém, ela não estava sozinha.
Lucas se colocou na frente dela, braços abertos, protegendo-a.
“Se você der mais um passo, eu chamo a polícia”, avisou ele, firme, sem titubear.
Osvaldo riu de forma descontrolada, cuspindo no chão.
“Chama! Chama a polícia! Eu não ligo! Você não sabe de nada, menino rico!”
Enquanto isso, Ana respirava fundo, tentando pensar rápido. Ela precisava proteger a pasta com os arquivos e a própria vida.
De repente, sirenes de viaturas soaram ao longe. Um policial passava próximo ao prédio e, ao ver a confusão, entrou com reforço.
Osvaldo tentou fugir, mas foi cercado. Lucas segurou firme os braços do homem até os policiais chegarem.
—“Você está preso por tentativa de sequestro e ameaça!” — anunciou o policial.
Osvaldo resistiu, mas não havia escapatória. O delegado que chegou minutos depois começou a interrogar o homem. Durante o processo, Ana permaneceu em silêncio, mas observando cada detalhe.
O que ela não sabia era que, enquanto a polícia lidava com a situação, Lucas investigava o passado de Osvaldo. Descobriu rapidamente que o padrasto não agia sozinho. Havia conexões com um grupo criminoso que operava em São Paulo, envolvido em extorsão, tráfico de pequenas cargas e lavagem de dinheiro.
Ana ficou assustada. “Então tudo que ele fez comigo… não é apenas pessoal?” — perguntou, com a voz trêmula.
Lucas balançou a cabeça. “Não. É muito maior do que você pensa. Ele tem parceiros e interesses que vão além de sua família.”
A pasta de Ana ainda estava segura. Ela pegou os documentos e respirou fundo. A adrenalina ainda corria pelas veias, mas havia uma sensação de alívio: desta vez, ela não estava sozinha.
Quando os policiais finalmente colocaram Osvaldo na viatura, ele se virou para Ana, olhos ardendo em ódio, e disse algo que congelou a respiração de todos:
“Ela nem é filha daquela mulher.”
Ana arregalou os olhos.
“Como assim?” — murmurou, quase sem voz.
Lucas franziu o cenho, surpreso. A informação soava absurda, mas havia algo de verdadeiro na convicção de Osvaldo.
O homem foi colocado na viatura, e os policiais fecharam a porta com firmeza. Camila Ribeiro, que assistia à cena do saguão, recuou para o lado, pálida e impotente, percebendo que nem mesmo o padrasto podia intimidar Ana agora.
Lucas se aproximou de Ana, passando a mão em seu ombro.
“Você está bem?” — perguntou, a preocupação evidente.
Ela respirou fundo, tentando controlar a respiração.
“Sim… agora estou.” — respondeu, ainda tremendo, mas com a determinação crescente.
“Vamos subir. Preciso mostrar a você algo sobre sua mãe e sobre esse homem. E preciso que confie em mim.”
Ana assentiu, silenciosa. O peso da revelação de Osvaldo permanecia em sua mente. Ela não era filha do homem que pensava. Algo maior estava escondido, e agora, mais do que nunca, sabia que precisaria descobrir toda a verdade para se proteger e proteger a mãe.
Enquanto subiam pelo elevador, Lucas explicou sobre a investigação preliminar. O caso do padrasto de Ana era apenas a ponta do iceberg. Havia documentos, contas e movimentações suspeitas ligadas a organizações criminosas. A situação exigiria cuidado extremo.
Ana sentiu uma mistura de medo e excitação. O inferno que ela tentava escapar havia voltado. Mas desta vez, ela não estava desprotegida.
E, naquele instante, a certeza de que seu destino estava prestes a mudar novamente fez seu coração disparar.
Ela mal podia imaginar que, enquanto o elevador subia lentamente, cada andar que passava a aproximava de novas descobertas, novos perigos… e de respostas que poderiam mudar tudo que ela acreditava sobre sua família e sobre si mesma.