Na manhã seguinte, a Torre Andrade parecia diferente.
O mesmo mármore brilhava no lobby.
Os mesmos elevadores subiam e desciam silenciosos.
Os mesmos funcionários passavam com crachás pendurados no pescoço, segurando copos de café e fingindo normalidade.
Mas havia tensão no ar.
Uma tensão grossa.
Pesada.
Como se todo o prédio soubesse que alguma coisa muito grave estava prestes a acontecer.
Ana Santos chegou antes das oito.
Usava uma calça preta simples, uma blusa branca sem marca e o cabelo preso com cuidado.
Não parecia uma executiva rica.
Não parecia uma herdeira.
Não parecia alguém nascido para aquele mundo.
Mas seus olhos estavam firmes.
Na bolsa, levava uma pasta com cópias impressas.
No pen drive, levava os arquivos rastreados.
E no peito, levava um medo tão grande que quase a fazia perder o ar.
Lucas Andrade a esperava no corredor do andar executivo.
Ele estava sério.
Mais sério do que ela jamais o vira.
“Você dormiu?”, perguntou ele.
Ana deu um sorriso pequeno.
“Dormi umas duas horas.”
“Isso não é dormir.”
“Pra quem já dormiu em cadeira de hospital, duas horas numa cama é luxo.”
Lucas não sorriu.
Ele estava preocupado.
Aquela reunião podia destruir Roberto Ribeiro.
Mas também podia colocar Ana na mira de gente poderosa.
“Você tem certeza de que quer entrar naquela sala?”, perguntou Lucas.
Ana olhou para a porta fechada da sala do conselho.
Do outro lado, estavam diretores, acionistas, advogados e pessoas que jamais aceitariam ser confrontadas por uma jovem que, até poucos dias antes, vendia doces na Avenida Paulista.
“Eu não quero”, respondeu ela.
Lucas franziu o cenho.
Ana respirou fundo.
“Mas preciso.”
A resposta ficou entre os dois como uma promessa.
Lucas assentiu.
“Eu estarei ao seu lado.”
Ana apertou a pasta contra o peito.
“Então vamos.”
Dentro da sala do conselho, o ambiente parecia uma arena.
Uma mesa comprida de madeira escura ocupava o centro.
Nas paredes, telas enormes exibiam gráficos de desempenho da empresa.
Homens e mulheres bem vestidos conversavam em voz baixa.
Alguns olharam para Ana com curiosidade.
Outros com desprezo.
Outros com irritação.
Roberto Ribeiro estava sentado perto da cabeceira da mesa.
Terno azul-marinho.
Relógio caro.
Cabelo grisalho penteado para trás.
Sorriso calmo demais.
Ao lado dele, Camila Ribeiro tentava manter a pose, embora seus olhos entregassem noites maldormidas e ódio acumulado.
Quando Ana entrou, Camila inclinou-se para o tio e cochichou algo.
Roberto nem olhou para ela.
Apenas sorriu.
Um sorriso frio.
Lucas caminhou até a cabeceira da mesa.
“Bom dia a todos.”
Poucas pessoas responderam.
Roberto cruzou as mãos sobre a mesa.
“Lucas, espero que essa reunião extraordinária tenha uma boa justificativa. Interromper a agenda do conselho por causa de uma suspeita interna pode gerar instabilidade desnecessária.”
Lucas olhou para ele.
“Vai ter justificativa.”
Roberto ergueu uma sobrancelha.
“Ótimo. Porque a empresa não pode ser conduzida por impulsos emocionais.”
Ana sentiu o golpe.
Sabia que era para ela.
Lucas também percebeu.
Mas não respondeu.
Apenas ligou a tela principal.
“Nos últimos dias, a assistente executiva Ana Santos encontrou irregularidades graves no setor financeiro.”
Um murmúrio percorreu a sala.
Um dos diretores soltou uma risada baixa.
“Assistente executiva? Ela está na empresa há quantos dias?”
“Tempo suficiente”, respondeu Lucas.
Roberto inclinou-se na cadeira.
“Com todo respeito, Lucas, entregar uma investigação financeira a uma funcionária recém-chegada é, no mínimo, imprudente.”
Ana sentiu o rosto esquentar.
Mas manteve-se em pé.
Lucas olhou para ela.
“Mostre.”
Ana conectou o pen drive.
As mãos tremiam levemente.
Ela odiou isso.
Camila percebeu e sorriu.
“Está nervosa, querida?”, provocou.
Ana olhou para ela.
“Não. Só estou tentando decidir por onde começo. Tem muita coisa.”
O sorriso de Camila sumiu.
A primeira planilha apareceu na tela.
Ana deu um passo à frente.
“Esses são os pagamentos do último ano referentes a obras terceirizadas em Campinas, Sorocaba e Guarulhos.”
Ela apontou para as colunas.
“Em cada contrato, existe um valor aprovado pelo conselho. Mas o valor transferido pelo financeiro é maior.”
Um acionista franziu a testa.
“Diferenças administrativas acontecem.”
“Acontecem”, respondeu Ana. “Mas não sempre para as mesmas empresas. Nem sempre com autorização do mesmo usuário.”
Ela mudou a tela.
Apareceram nomes de fornecedores.
Alguns conhecidos.
Outros estranhos.
“Essas três empresas foram criadas há menos de um ano. Não possuem funcionários registrados, não possuem sede operacional ativa e receberam juntas mais de dezessete milhões de reais do Grupo Andrade.”
O murmúrio aumentou.
Roberto soltou uma risada.
“Isso é absurdo.”
Ana virou-se para ele.
“Ainda não terminei.”
Ela abriu outra tela.
“Cada pagamento passou por uma aprovação interna com as iniciais RRB.”
Todos olharam para Roberto.
O vice-presidente endureceu.
“Essas iniciais podem significar qualquer coisa.”
Ana clicou novamente.
A tela exibiu o histórico de login.
Usuário: Roberto Ribeiro.
Horários: 22h14, 23h03, 01h27.
A sala ficou muda.
Roberto ajeitou a gravata.
“Meu acesso pode ter sido usado por outra pessoa.”
“Pode”, disse Ana. “Por isso eu conferi os registros de IP.”
Ela abriu outro documento.
“Todos os acessos foram feitos a partir do computador da sua sala.”
Um dos advogados se inclinou para frente.
“Isso foi auditado?”
Lucas respondeu.
“Sim. Pela equipe externa chamada ontem à noite.”
Roberto olhou para Lucas, furioso.
“Você chamou auditoria sem me consultar?”
“Chamei.”
“Eu sou vice-presidente financeiro!”
“Exatamente por isso.”
O silêncio ficou brutal.
Camila se levantou.
“Isso é uma armação!”
Todos olharam para ela.
Camila apontou para Ana.
“Essa mulher entrou aqui há três dias! Três dias! Quem garante que ela não plantou esses arquivos? Quem garante que ela não está manipulando Lucas?”
Ana respirou fundo.
Camila continuou, cada vez mais histérica.
“Ela era uma ambulante! Uma vendedora de bala! Vocês vão acreditar nela contra um homem que construiu essa empresa?”
Lucas bateu a mão na mesa.
“Chega.”
Camila se calou, assustada.
Mas Roberto levantou-se devagar.
Agora seu sorriso havia desaparecido.
“Lucas, você está cometendo o maior erro da sua vida.”
“Não. O erro foi confiar em você.”
Roberto apontou para Ana.
“Essa menina não sabe com quem está mexendo.”
Ana sentiu um frio atravessar a espinha.
Mas deu um passo à frente.
“Eu sei exatamente com quem estou mexendo.”
Roberto arregalou os olhos.
Ana abriu o último arquivo.
A tela revelou uma conta bancária oculta.
Banco Atlântico Private.
Titularidade protegida por empresa offshore.
Movimentações mensais.
Transferências fracionadas.
E, no campo de autorização final, o nome completo:
Roberto Ribeiro.
A sala explodiu em vozes.
“Meu Deus.”
“Isso é crime.”
“Chama o jurídico.”
“Como isso passou?”
Roberto perdeu completamente o controle.
“Mentira!”
Ele agarrou um copo de água e jogou contra a parede.
O vidro estilhaçou.
Ana deu um passo para trás.
Lucas se colocou imediatamente na frente dela.
“Você não chega perto dela.”
Roberto tremia de ódio.
“Você destruiu minha vida por causa dessa garota?”
Lucas respondeu baixo:
“Você destruiu sua vida sozinho.”
Camila começou a chorar.
“Tio, fala alguma coisa!”
Roberto virou-se para ela, vermelho de raiva.
“Cala a boca, Camila!”
A secretária congelou.
Pela primeira vez, percebeu que para o tio ela não era família.
Era peça.
E peças quebradas são descartadas.
A porta da sala se abriu.
Dois policiais civis entraram acompanhados de um delegado e de representantes do departamento jurídico.
O delegado mostrou o distintivo.
“Roberto Ribeiro?”
Roberto ficou imóvel.
“Sou eu.”
“O senhor está sendo conduzido para prestar esclarecimentos sobre suspeita de fraude corporativa, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.”
A sala entrou em choque.
Camila tentou correr para a porta lateral.
Mas uma policial bloqueou o caminho.
“Camila Ribeiro?”
“Eu não fiz nada!”
“A senhora também será conduzida.”
“Não! Não! Isso é um engano!”
A policial segurou seu braço.
Camila olhou para Lucas, desesperada.
“Lucas, por favor! Eu só fiz o que meu tio mandou!”
Roberto virou-se para ela com ódio.
“Idiota!”
Camila começou a soluçar.
“Tio, eu te ajudei! Eu alterei os registros porque você pediu!”
A confissão escapou diante de todos.
O advogado do Grupo Andrade fechou os olhos, como quem acabava de ouvir a prova que faltava.
Ana sentiu as pernas fraquejarem.
Lucas olhou para ela.
Camila percebeu o que tinha feito.
Colocou as mãos na boca.
“Não...”
Mas já era tarde.
Os policiais colocaram algemas em Roberto.
Ele não resistiu no começo.
Apenas encarou Ana com uma frieza que a fez sentir medo.
“Você acha que venceu?”
Ana não respondeu.
Roberto se inclinou levemente, mesmo com os policiais segurando seus braços.
“Gente como você não sobrevive no nosso mundo.”
Lucas avançou um passo.
“Ela já sobreviveu a coisa pior.”
Roberto soltou uma risada amarga.
“Veremos.”
Os policiais o levaram.
Camila vinha atrás, chorando, com maquiagem escorrida pelo rosto.
Ao passar por Ana, parou por um segundo.
O ódio nos olhos dela era quase físico.
“Você acabou comigo.”
Ana respondeu com a voz baixa:
“Não. Eu só mostrei o que você escondia.”
Camila tentou cuspir uma resposta, mas a policial a puxou.
As portas da sala se fecharam.
O conselho ficou em silêncio.
Ninguém sabia o que dizer.
O mesmo diretor que havia duvidado de Ana minutos antes levantou-se lentamente.
“Senhorita Ana... eu...”
Ela não quis ouvir desculpas.
Não naquele momento.
O corpo inteiro dela tremia.
A adrenalina começava a cair.
Lucas se aproximou.
“Você foi incrível.”
Ana soltou uma risada fraca.
“Eu achei que fosse desmaiar.”
“Mas não desmaiou.”
“Quase.”
Lucas sorriu pela primeira vez no dia.
Ana também tentou sorrir.
Mas havia cansaço demais em seu rosto.
Eles saíram da sala lado a lado.
No corredor, funcionários se amontoavam discretamente, fingindo não olhar.
Mas todos olhavam.
A história já corria pelo prédio inteiro.
A nova assistente havia derrubado o vice-presidente.
A vendedora da avenida havia exposto um roubo milionário.
A mulher que foi humilhada no lobby agora caminhava com a cabeça erguida.
Ana respirou fundo quando chegaram ao elevador.
Pela primeira vez desde que tudo começou, sentiu que talvez pudesse descansar.
Talvez pudesse ligar para Dona Célia e dizer que tinha dado certo.
Talvez pudesse acreditar que a justiça existia.
As portas do elevador se abriram no térreo.
O lobby estava agitado.
Policiais conversavam com funcionários.
Jornalistas já começavam a se aproximar da entrada principal.
Lucas colocou a mão de leve nas costas de Ana, protegendo-a do tumulto.
“Vamos sair pela garagem.”
Ana assentiu.
Mas então ouviu um grito.
Um grito rouco.
Bêbado.
Familiar.
“ANA!”
O sangue dela gelou.
Ela virou devagar.
No meio do lobby, empurrando um segurança, estava Osvaldo.
Camisa suja.
Olhos vermelhos.
Cabelo bagunçado.
Cheiro de álcool mesmo à distância.
Ele segurava uma garrafa pela metade e apontava o dedo para ela.
“Então é aqui que você tá se escondendo, sua ingrata?”
Ana ficou paralisada.
Lucas sentiu o corpo dela endurecer.
Osvaldo avançou, tropeçando, mas furioso.
“Agora trabalha pra rico e esqueceu de levar dinheiro pra casa?”
Todos olharam.
Ana mal conseguia respirar.
O pesadelo tinha atravessado as portas da Torre Andrade.
E vinha direto na direção dela.