《A Vendedora de Rua que Conquistou o Bilionário》Capítulo 3

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O silêncio dentro do saguão da Torre Andrade foi tão pesado que parecia possível ouvir o ar-condicionado respirando pelas paredes de vidro.

Lucas Andrade estava parado no meio do lobby, com o rosto fechado e os olhos fixos em Camila Ribeiro.

Todos os funcionários haviam parado o que estavam fazendo.

Recepcionistas.

Executivos.

Estagiários.

Seguranças.

Até os clientes que aguardavam no sofá de couro ficaram imóveis, assistindo à cena como se estivessem diante de uma novela ao vivo.

Camila tentou sorrir, mas sua boca tremia.

O chiclete que ela mascava com arrogância agora parecia preso em sua garganta.

“Lucas... eu posso explicar”, disse ela, com a voz fina.

Lucas deu um passo à frente.

“Explicar o quê, Camila?”

Ela tentou ajeitar o blazer branco de grife, mas seus dedos estavam nervosos demais.

“Aquela menina entrou aqui sem postura, sem agendamento formal, dizendo que tinha uma reunião com você. Eu só estava protegendo a empresa.”

Lucas soltou uma risada seca.

Sem humor.

Sem paciência.

“Protegendo a empresa?”

Camila engoliu em seco.

“Sim. Você sabe como é, Lucas. Todo dia aparece gente querendo se aproveitar, querendo entrar, pedir dinheiro, causar confusão...”

“Cuidado com a próxima palavra.”

A voz dele saiu baixa.

Mas foi mais assustadora do que um grito.

Camila ficou pálida.

Lucas se aproximou mais, apontando para as portas giratórias por onde Ana havia sido expulsa minutos antes.

“Aquela mulher veio porque eu pedi.”

Um murmúrio percorreu o saguão.

Camila abriu os olhos.

“Você... pediu?”

“Eu mesmo entreguei meu cartão a ela.”

“Mas eu não sabia...”

“Não sabia porque não quis saber.”

Lucas virou-se para os dois seguranças.

“E vocês? Também acham normal agarrar uma mulher pelo braço e jogar na rua?”

Os seguranças baixaram a cabeça.

Um deles tentou falar.

“Senhor Lucas, a doutora Camila mandou...”

“Eu não perguntei quem mandou. Perguntei se vocês acham normal.”

Ninguém respondeu.

Lucas respirou fundo, tentando controlar a raiva.

Mas a imagem de Ana sendo empurrada para fora, com o rosto ferido pela vergonha, ainda queimava dentro dele.

Ele olhou novamente para Camila.

“Você chamou Ana Santos de ambulante como se isso fosse ofensa.”

Camila ficou muda.

“Você disse que ela sujaria o tapete.”

Algumas pessoas se entreolharam, constrangidas.

“Você mandou os seguranças expulsarem uma mulher que estava aqui a meu convite.”

Camila começou a chorar.

Mas Lucas sabia reconhecer lágrimas de arrependimento.

E aquelas não eram.

Eram lágrimas de medo.

Medo de perder privilégio.

Medo de perder status.

Medo de ser vista como aquilo que realmente era.

“Lucas, por favor. Eu trabalho com sua família há anos. Meu tio é o Roberto Ribeiro, vice-presidente do grupo. Você não pode simplesmente me humilhar assim na frente de todo mundo.”

Lucas ergueu o queixo.

“Interessante.”

Camila piscou, confusa.

“Quando era Ana sendo humilhada, você parecia se divertir.”

A frase caiu como uma bofetada.

Camila não respondeu.

Lucas virou-se para todos os presentes.

“Que fique claro para cada pessoa neste prédio: cargo, sobrenome, roupa cara ou conta bancária não dão a ninguém o direito de pisar em outro ser humano.”

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O lobby inteiro permaneceu calado.

“E quem não entende isso não serve para trabalhar no Grupo Andrade.”

Camila deu um passo atrás.

“Você não faria isso comigo.”

Lucas olhou direto nos olhos dela.

“Você está demitida da presidência.”

A palavra explodiu no ar.

Demitida.

Camila levou a mão ao peito, como se tivesse sido atingida.

“Não...”

“Sim.”

“Lucas, pelo amor de Deus, pensa bem. Eu conheço todos os seus horários, suas reuniões, seus contratos. Eu sou essencial aqui.”

“Você era.”

“Meu tio não vai aceitar isso!”

“Seu tio também deveria aprender que empresa não é capitania hereditária.”

Alguns funcionários prenderam a respiração.

Ninguém falava assim de Roberto Ribeiro dentro daquele prédio.

Roberto era poderoso.

Antigo.

Temido.

E, acima de tudo, vingativo.

Camila percebeu que Lucas não estava blefando.

Ela então mudou o tom.

As lágrimas deram lugar à raiva.

“Você está fazendo isso por causa daquela vendedora de bala?”

Lucas estreitou os olhos.

“Estou fazendo isso porque você mostrou quem é.”

“Ela não pertence a esse lugar!”

Lucas deu mais um passo.

“E quem decidiu que você pertence?”

Camila tremeu.

“Eu estudei. Eu tenho nome. Eu sei me portar.”

“E mesmo assim não aprendeu o básico.”

“O básico?”

“Humanidade.”

A palavra arrancou o último resto de força de Camila.

Lucas chamou o chefe da segurança.

“Recolha o crachá dela.”

Camila se desesperou.

“Não! Lucas, não faz isso! Eu preciso desse emprego!”

“Você deveria ter pensado nisso antes de tratar alguém como lixo.”

O chefe da segurança, constrangido, se aproximou.

Camila segurou o crachá contra o peito.

“Eu não vou entregar.”

Lucas não levantou a voz.

“Vai.”

Por alguns segundos, todos ficaram imóveis.

Então Camila arrancou o crachá do pescoço e o jogou no balcão com violência.

“Você vai se arrepender.”

Lucas sustentou o olhar.

“Não tanto quanto você.”

Camila saiu chorando pelo lobby, os saltos batendo no mármore como pequenos tiros.

Mas, antes de cruzar a porta, virou-se e apontou o dedo para Lucas.

“Essa menina vai destruir você. Gente como ela sempre quer alguma coisa.”

Lucas respondeu sem piscar.

“Talvez ela queira apenas uma chance.”

Camila foi embora.

E, quando as portas giratórias se fecharam atrás dela, ninguém ousou aplaudir.

Mas todos sentiram que algo tinha mudado.

Lucas olhou para a rua.

Ana não estava mais lá.

O banco perto da calçada estava vazio.

A pasta simples havia sumido.

O cartão provavelmente também.

Ele sentiu o peito apertar.

A raiva deu lugar a uma culpa feroz.

Ele havia prometido a ela uma chance.

E, no primeiro contato com seu mundo, Ana tinha recebido a mesma crueldade que a vida já lhe dava todos os dias.

Lucas saiu pela porta principal, ignorando o motorista que correu atrás dele.

“Senhor Lucas, o carro está na garagem.”

“Eu vou a pé.”

“Mas senhor...”

“Agora.”

Ele desceu os degraus da Torre Andrade e entrou no movimento da Faria Lima, de terno caro, sapato brilhando e expressão desesperada.

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Começou perguntando aos vendedores da calçada.

“Você viu uma moça jovem, cabelo castanho preso, vestido azul simples, carregando uma pasta?”

Um homem que vendia café respondeu:

“Passou chorando praquele lado.”

Lucas seguiu.

Cruzou a avenida entre carros e motos.

Perguntou a um jornaleiro.

Depois a uma senhora que vendia tapioca.

Depois a um motoboy parado perto do ponto.

Alguns o reconheceram.

Outros não.

Para Lucas, não importava.

Durante quase duas horas, ele andou por ruas que sempre havia atravessado dentro de carro blindado.

Sentiu o cheiro do diesel.

O calor preso entre os prédios.

A pressa das pessoas.

O desprezo de quem esbarrava sem pedir desculpa.

E, pela primeira vez em muito tempo, percebeu que São Paulo era muito mais dura quando vista da calçada.

Enquanto isso, Ana caminhava sem rumo.

Ela havia saído da Torre Andrade com a garganta fechada e as pernas fracas.

Não chorou na frente dos seguranças.

Não chorou na frente de Camila.

Mas, quando dobrou a esquina e ninguém mais podia vê-la, as lágrimas vieram sem pedir licença.

Ela se sentiu pequena.

Suja.

Ridícula.

Como se tivesse sido ingênua por acreditar que uma porta daquelas poderia se abrir para alguém como ela.

“Eu devia saber”, murmurou.

Na mochila, o cartão de Lucas ainda estava lá.

Ela pensou em rasgá-lo.

Pensou em jogar no lixo.

Pensou em nunca mais voltar.

Mas algo dentro dela não deixou.

Depois de andar sem direção, Ana chegou a um ponto de ônibus próximo à Avenida Rebouças.

Sentou-se no banco de metal quente.

O corpo inteiro doía.

Ela ainda precisava voltar para casa.

Ainda precisava enfrentar Osvaldo.

Ainda precisava comprar remédio para Dona Célia.

Ainda precisava existir.

Ana abriu a mochila e contou o pouco dinheiro que tinha.

O suficiente para a passagem.

Não o suficiente para os remédios.

Ela fechou os olhos.

A voz de Camila ecoava em sua cabeça.

“Uma ambulante quer falar com o presidente?”

Ana apertou os punhos.

“Eu não sou lixo”, sussurrou.

Mas sua voz saiu tão fraca que nem ela mesma acreditou.

Foi nesse momento que Lucas a viu.

Ele parou do outro lado da rua.

Ana estava sentada sozinha, olhando para o nada, com os ombros caídos e o rosto molhado.

Lucas sentiu uma dor estranha no peito.

Atravessou a rua com cuidado e se aproximou devagar.

“Ana.”

Ela se assustou.

Ao vê-lo, levantou-se imediatamente.

“Eu já estou indo embora.”

“Espera.”

“Não precisa se preocupar. Eu entendi tudo.”

“Você não entendeu.”

“Entendi sim.”

Ana riu, mas era uma risada amarga.

“Entendi que lugar bonito também tem gente feia por dentro.”

Lucas ficou calado.

Ela continuou.

“Entendi que eu fui burra de achar que podia entrar ali. Entendi que um cartão bonito não muda quem eu sou.”

Lucas deu um passo mais perto.

“Você está errada.”

Ana balançou a cabeça.

“Não, senhor Lucas. Errada eu estou desde ontem, quando acreditei que minha vida podia mudar.”

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“E pode.”

“Não fala isso.”

A voz dela falhou.

“Por favor, não fala isso se não for verdade.”

Lucas respirou fundo.

“Camila foi demitida da presidência.”

Ana piscou.

“O quê?”

“Ela perdeu o cargo.”

“Por minha causa?”

“Pelas atitudes dela.”

Ana levou a mão à boca.

“Eu não queria que ninguém perdesse emprego.”

“Você não fez isso. Ela fez.”

Ana se sentou novamente, como se as pernas tivessem perdido força.

Lucas sentou ao lado dela no banco de metal, sem se importar com o terno caro ou com o olhar curioso de quem passava.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Um ônibus parou.

Pessoas desceram.

Pessoas subiram.

A cidade continuou.

Mas entre eles havia uma pausa rara.

Lucas quebrou o silêncio.

“Me desculpa.”

Ana olhou para ele.

“Você não me humilhou.”

“Mas foi no meu prédio.”

“Não foi sua mão que me empurrou.”

“Mesmo assim, eu te trouxe para aquele lugar. Eu devia ter descido para te receber.”

Ana desviou o olhar.

“Eu também devia ter imaginado.”

“Imaginado o quê?”

“Que gente como eu não é bem-vinda em certos lugares.”

Lucas apertou a mandíbula.

“Não diga isso.”

“Mas é verdade.”

“Não deveria ser.”

Ana deu um sorriso triste.

“Muita coisa não deveria ser.”

Lucas a observou por alguns instantes.

“Você falou ontem que estudou contabilidade.”

Ana pareceu surpresa com a mudança de assunto.

“Falei.”

“Por quanto tempo?”

“Três anos. Quase seis semestres.”

“Onde?”

“Na Universidade São Judas. Eu fazia à noite.”

“E por que parou?”

Ana respirou fundo.

“Minha mãe ficou doente. O dinheiro acabou. O aluguel atrasou. E Osvaldo...”

Ela parou.

Lucas percebeu a mudança em seu rosto.

“Quem é Osvaldo?”

Ana ficou rígida.

“Ninguém.”

“Ana.”

“Meu padrasto.”

Lucas esperou.

Ela olhou para as mãos.

“Ele bebe. Ele grita. Ele exige dinheiro. Se eu não levo, minha mãe paga.”

Lucas sentiu o sangue ferver, mas conteve a reação.

“Ele bate nela?”

Ana não respondeu.

E o silêncio respondeu por ela.

Lucas fechou os punhos sobre os joelhos.

“Você não precisa passar por isso sozinha.”

Ana olhou para ele com desconfiança.

“Todo mundo fala isso até a coisa ficar difícil.”

“Eu não sou todo mundo.”

“Eu não conheço você.”

“Então conheça.”

Ana ficou em silêncio.

Lucas tirou um cartão novo do bolso e colocou sobre o banco, entre os dois.

“Volte amanhã.”

Ela riu sem acreditar.

“Depois de hoje?”

“Principalmente depois de hoje.”

“E se me expulsarem de novo?”

“Eu estarei na porta.”

Ana olhou para o cartão.

“Por que está fazendo isso?”

Lucas pensou antes de responder.

“Porque ontem eu vi você salvar um menino no trânsito e dar a ele dinheiro que provavelmente faria falta.”

Ana abaixou os olhos.

“Ele precisava.”

“Você também.”

“Eu me viro.”

“Eu sei. Mas talvez você não precise se virar sozinha para sempre.”

As palavras atingiram Ana em cheio.

Ela não chorou.

Mas seus olhos ficaram cheios d’água.

Lucas então perguntou:

“Você ainda lembra de contabilidade?”

Ana soltou uma risada pequena, quase ofendida.

“Eu posso ter largado a faculdade, senhor Lucas. Mas os números nunca me largaram.”

Pela primeira vez naquele dia, Lucas sorriu de verdade.

“Então me prove.”

Ana ergueu o rosto.

“O quê?”

“Amanhã. Dez horas. Torre Andrade.”

Ele levantou-se.

Ana ficou sentada, segurando o cartão.

Lucas deu alguns passos, mas parou e voltou o olhar para ela.

“E Ana?”

“Sim?”

“Não use ‘senhor Lucas’.”

“Como eu chamo?”

“Lucas.”

Ela quase sorriu.

Quase.

Quando ele se afastou, Ana olhou para o cartão novamente.

O medo ainda estava ali.

A vergonha também.

Mas agora havia outra coisa.

Uma chama pequena.

Teimosa.

Viva.

Enquanto isso, do outro lado da rua, dentro de um carro prata parado irregularmente, Camila Ribeiro observava os dois com os olhos inchados de ódio.

Ela havia seguido Lucas.

Viu quando ele se sentou ao lado de Ana.

Viu quando ele sorriu.

Viu quando entregou outro cartão.

Camila apertou o volante com tanta força que suas unhas quase quebraram.

“Você vai se arrepender, Lucas.”

Ela pegou o celular e discou um número.

Do outro lado da linha, uma voz masculina atendeu.

“Camila?”

Ela respirou fundo, tentando conter a fúria.

“Tio Roberto... nós temos um problema.”

E, enquanto Ana acreditava estar recebendo sua primeira chance, uma guerra silenciosa começava a se formar nas sombras da família Andrade.

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