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《A Menina Que Roubou Leite》Capítulo 9

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Ricardo Andrade ficou pálido diante da fotografia.

Pela primeira vez naquela noite, ele não teve resposta imediata.

A inspetora Camila Rocha segurava a imagem entre os dedos, iluminada pelas luzes da viatura.

Na foto, Ricardo aparecia ao lado de dois homens.

Um deles tinha a tatuagem de cobra no pescoço.

O outro segurava um galão vermelho.

Ao fundo, a placa velha dizia:

Vila Esperança.

Gabriel olhou para a imagem e sentiu o estômago virar.

Aquela vila.

Aquele incêndio.

Aquela tragédia que todos tinham chamado de acidente.

Agora parecia ganhar outro rosto.

O rosto do próprio irmão.

Camila levantou os olhos.

“Então, senhor Andrade... vai explicar?”

Ricardo respirou fundo.

Lentamente, o empresário poderoso tentou reconstruir sua máscara.

“Isso não prova absolutamente nada.”

Camila ergueu a foto.

“Um galão vermelho ao lado de dois homens ligados à sua empresa, na noite anterior a um incêndio criminoso, não prova nada?”

“Criminoso?”

Ricardo riu, mas a risada saiu seca.

“Esse incêndio foi periciado anos atrás. Pane elétrica.”

Helena deu um passo à frente, segurando o lado do corpo.

“Mentira.”

Ricardo virou-se para ela.

“Cuidado, Helena.”

Gabriel se colocou imediatamente entre os dois.

“Você não ameaça mais ninguém.”

Ricardo olhou para o irmão com desprezo.

“Você ainda não entende o jogo.”

Camila interrompeu.

“Qual jogo?”

Ricardo ficou em silêncio.

Camila guardou a foto dentro de um envelope plástico que tirou da viatura.

Depois olhou para Helena.

“Me conte sobre a Vila Esperança.”

Helena respirou fundo.

Seus olhos se encheram de uma dor antiga.

Uma dor que ela carregava escondida havia oito anos.

“A Vila Esperança ficava numa área simples, perto de Belford Roxo.”

Gabriel assentiu lentamente.

Ele lembrava.

Casas pequenas.

Ruas de barro.

Crianças brincando perto dos portões.

Gente trabalhadora.

Gente que Ricardo chamava de obstáculo.

Helena continuou.

“A Andrade Empreendimentos queria comprar o terreno.”

Camila perguntou:

“Para construir o quê?”

“Torres residenciais de luxo.”

Ricardo sorriu de canto.

“Projeto legal, aprovado, com licença.”

Helena olhou para ele.

“Mas os moradores não queriam sair.”

Ricardo respondeu frio:

“Todo mundo tem um preço.”

Gabriel avançou um passo.

“E quem não tinha?”

Ricardo não respondeu.

Helena sim.

“Foi ameaçado.”

O vento frio atravessou o estacionamento.

Sofia se aproximou de Gabriel.

Sem perceber, segurou a barra da jaqueta dele.

Gabriel sentiu o pequeno toque.

E aquilo quase o desarmou.

Mas manteve os olhos em Ricardo.

Helena abriu outro documento da pasta.

“Eu trabalhava no financeiro. Comecei a ver pagamentos estranhos.”

Camila pegou o papel.

“Para quem?”

“Empresas de fachada.”

“Quais?”

“Segurança privada. Transporte. Limpeza. Mas os valores não batiam com serviço nenhum.”

Ricardo soltou uma risada baixa.

“Você era assistente. Não entendia nada de contabilidade.”

Helena olhou para ele.

“Eu entendia o suficiente para saber quando uma nota era falsa.”

Camila leu os nomes.

“Serpente Serviços Operacionais.”

Gabriel fechou os punhos.

“Marcos Serpente.”

Camila virou-se para ele.

“Você conhece?”

“Trabalhava para Ricardo sem aparecer nos registros oficiais.”

Ricardo respondeu rápido:

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“Prestador eventual.”

Helena balançou a cabeça.

“Capanga.”

O silêncio ficou pesado.

Miguel choramingou dentro do carro.

Carla Mendes, a caixa do supermercado, continuava perto da porta, abraçada ao próprio corpo.

Ela já não via uma ladra.

Via uma criança cercada por uma tragédia.

Camila folheou os papéis.

“Esses pagamentos são de quando?”

Helena respondeu:

“Nas semanas antes do incêndio.”

Ricardo cruzou os braços.

“Coincidência.”

Gabriel riu sem alegria.

“Você chama tudo de coincidência.”

Helena tirou outro papel.

“Depois do incêndio, a empresa comprou o terreno por menos da metade do valor.”

Camila olhou o documento.

“Contrato de aquisição.”

“Assinado pela Andrade Empreendimentos.”

“E os moradores?”

Helena fechou os olhos.

“Alguns aceitaram qualquer valor. Outros foram embora sem nada.”

Gabriel lembrou das entrevistas.

Ricardo na televisão.

Camisa branca.

Rosto triste.

Dizendo que a empresa ajudaria as famílias atingidas.

Agora aquela imagem dava nojo.

“E o idoso que morreu?”

Helena baixou a cabeça.

“Seu Antônio.”

A voz dela falhou.

“Ele morava sozinho numa casa azul.”

Sofia olhou para a mãe.

“Você conhecia ele?”

Helena acariciou o rosto da filha.

“Conhecia.”

Gabriel viu a dor nos olhos dela.

“Ele foi uma das pessoas que mais resistiu à venda.”

Camila anotou mentalmente.

“E morreu no incêndio.”

Helena assentiu.

“Preso dentro de casa.”

O rosto de Gabriel endureceu.

Ricardo permaneceu imóvel.

Mas havia irritação em seu olhar.

Não culpa.

Irritação por tudo estar vindo à tona.

“Você sabia?”

Gabriel perguntou.

Ricardo olhou para ele.

“Sabia o quê?”

“Que ele estava lá dentro.”

Ricardo sorriu.

Um sorriso pequeno.

Cruel.

“Cuidado com acusações sem prova.”

Helena abriu outro compartimento da pasta.

Suas mãos tremiam.

Mas ela continuou.

“Havia uma lista.”

Camila se aproximou.

“Que lista?”

“Casas vazias. Casas ocupadas. Casas de moradores que resistiam.”

Ela entregou a folha.

Camila leu.

A expressão dela mudou.

“Seu Antônio Ferreira. Casa 17. Recusa definitiva.”

Gabriel sentiu o sangue gelar.

Helena sussurrou:

“Essa lista estava na mesa do Ricardo.”

Ricardo deu um passo.

“Essa mulher invadiu documentos privados da empresa.”

Camila virou-se para ele.

“Agora o senhor está admitindo que o documento é da empresa?”

Ricardo ficou calado.

Foi rápido.

Mas todos perceberam.

Gabriel olhou para Camila.

“Você ouviu.”

Camila dobrou a folha com cuidado.

“Ouvi.”

Ricardo tentou recuperar o controle.

“Inspetora, isso é ridículo. Uma pasta velha, documentos sem perícia, uma mulher claramente perturbada e uma criança treinada para repetir histórias.”

Sofia se escondeu atrás de Gabriel.

Ele sentiu aquilo.

E naquele instante a vontade dele de proteger a filha ficou maior que qualquer medo.

Helena respondeu:

“Não fui eu que treinei minha filha para ter medo.”

Ricardo encarou Helena.

Os olhos dele ficaram frios.

“Você sempre foi ingrata.”

Gabriel virou-se.

“Ingrata?”

Ricardo apontou para ela.

“Eu deixei você viva.”

O silêncio caiu como pedra.

Camila parou de folhear.

Gabriel sentiu o corpo inteiro travar.

Helena empalideceu.

Sofia olhou para a mãe, sem entender totalmente.

Mas entendendo o suficiente para tremer.

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Camila deu um passo na direção de Ricardo.

“O senhor quer repetir isso?”

Ricardo percebeu o erro.

Fechou a expressão.

“Foi modo de falar.”

Gabriel respirou fundo.

“Não foi.”

Helena começou a chorar.

“Foi exatamente isso que ele me disse naquela noite.”

Camila olhou para ela.

“Que noite?”

Helena respondeu com dificuldade:

“Na noite em que ele me mandou fugir.”

Gabriel virou-se lentamente.

“Você nunca me contou essa parte.”

Helena olhou para ele.

“Porque eu tinha vergonha.”

“Vergonha de quê?”

“De ter acreditado que fugir era a única forma de salvar você.”

Gabriel ficou sem palavras.

Helena continuou:

“Depois que consegui copiar o vídeo que provava sua inocência, Ricardo me chamou na empresa.”

A voz dela tremia.

“Ele trancou a porta da sala.”

Ricardo olhou para o chão por um instante.

Camila percebeu.

“E o que ele disse?”

Helena olhou diretamente para Ricardo.

“Ele disse que, se eu entregasse tudo à polícia, Gabriel nunca sairia vivo da cadeia.”

Gabriel sentiu a respiração falhar.

“Ele disse que faria parecer suicídio.”

Camila ficou imóvel.

Ricardo tentou falar.

Helena não deixou.

“Depois colocou a mão na minha barriga e perguntou se eu queria que minha filha nascesse órfã.”

Gabriel fechou os olhos.

A dor veio com força.

Sofia.

Ainda nem tinha nascido.

E já era usada como ameaça.

Helena continuou:

“Naquela mesma semana, o incêndio aconteceu.”

Camila perguntou:

“Você acredita que foi para apagar resistência dos moradores?”

Helena respondeu sem hesitar:

“Sim.”

“E para te assustar?”

“Também.”

Gabriel olhou para Ricardo.

“Você queimou uma comunidade inteira para conseguir um terreno.”

Ricardo respondeu baixo:

“Eu construí um império.”

Gabriel se aproximou.

“Sobre cinzas.”

Ricardo finalmente perdeu a paciência.

“Você não entende nada de negócios.”

Gabriel quase riu.

“Negócios?”

“Progresso exige decisões difíceis.”

Camila levantou a cabeça.

“Dizer isso perto de uma investigação de incêndio com morte não é inteligente.”

Ricardo ficou em silêncio.

Helena abraçou Sofia.

“A Vila Esperança virou um condomínio fechado.”

A voz dela estava cansada.

“Os moradores foram espalhados. Alguns nunca receberam nada. Outros assinaram acordos por medo.”

Gabriel olhou para a foto novamente.

Ricardo.

Marcos Serpente.

O galão vermelho.

A placa da vila.

Tudo ali.

Camila pegou o rádio.

“Central, aqui é Rocha. Preciso de uma equipe no supermercado da Avenida Governador Roberto Silveira, em Nova Iguaçu. Possível conexão com caso antigo de incêndio na Vila Esperança, fraude imobiliária e intimidação de testemunha.”

Ricardo endureceu.

“Você está cometendo um erro.”

Camila respondeu:

“Então vai ter chance de explicar na delegacia.”

Ricardo sorriu.

Mas o sorriso agora era perigoso.

“Você acha que uma ligação resolve oito anos de história?”

Gabriel olhou para ele.

“Não. Mas começa.”

Nesse instante, o celular de Camila vibrou.

Ela olhou a tela.

Era uma mensagem de um número desconhecido.

Sem nome.

Sem foto.

Apenas uma frase:

“Eu vi o que aconteceu na Vila Esperança.”

Camila franziu a testa.

Outra mensagem chegou.

“Se Helena Costa ainda estiver viva, diga que eu posso testemunhar.”

Helena levou a mão ao peito.

“Quem é?”

Camila leu a terceira mensagem.

E então seu olhar mudou.

“Ele assinou.”

Gabriel sentiu o coração acelerar.

“Quem?”

Camila virou a tela lentamente.

Helena viu o nome.

O rosto dela ficou branco.

Ricardo também viu.

E pela primeira vez, o terror apareceu de verdade em seus olhos.

Na tela estava escrito:

“Marcos Serpente.”

O homem desaparecido havia oito anos.

O capanga da foto.

A testemunha que todos achavam morta.

Acabava de surgir.

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