O estacionamento parecia ter ficado menor.
Mais escuro.
Mais silencioso.
Gabriel Andrade continuava parado diante do velho sedã enquanto sentia o coração bater tão forte que chegava a doer.
Helena Costa.
O nome que ele repetira milhares de vezes durante oito anos.
O nome que nunca conseguira esquecer.
E agora ela estava ali.
A poucos metros dele.
Pálida.
Magra.
Quebrada pela vida.
Mas viva.
Sofia observava os dois sem entender.
Seus dedos continuavam agarrados à sacola de compras.
Como se alguém pudesse roubá-la a qualquer instante.
Miguel choramingou novamente no banco traseiro.
O som fez Helena despertar um pouco mais.
Ela tentou abrir completamente a porta do carro.
Mas seu corpo parecia pesado.
Fraco.
Gabriel deu um passo instintivo.
“Helena...”
Ela levantou os olhos.
E naquele instante as lágrimas começaram a escorrer.
Não eram lágrimas de alegria.
Nem de saudade.
Eram lágrimas de puro desespero.
“Não.”
A voz saiu quase sem força.
“Por favor... não.”
Gabriel parou imediatamente.
Aquela reação atingiu seu peito como uma faca.
Durante anos ele imaginou aquele reencontro.
Imaginou abraçá-la.
Perguntar onde ela tinha ido.
Perguntar por que o abandonara.
Mas nunca imaginou vê-la olhando para ele daquele jeito.
Como alguém que estava diante de um perigo.
“Helena... sou eu.”
Ela fechou os olhos.
Como se ouvir aquela voz fosse doloroso.
“Eu sei quem você é.”
Sofia olhou de um para o outro.
Confusa.
“Mamãe?”
Helena respirou fundo.
Tentando controlar o choro.
Mas não conseguiu.
O rosto começou a tremer.
“Meu Deus...”
Gabriel sentiu a garganta fechar.
Oito anos.
Oito anos sem respostas.
Oito anos acreditando em mentiras.
E agora tudo parecia desmoronar diante dele.
Ele olhou novamente para Sofia.
A menina tinha os mesmos olhos da mãe.
A mesma covinha.
O mesmo jeito de apertar os lábios quando estava nervosa.
Era impossível ignorar.
Impossível.
“Quantos anos você tem?”
Sofia hesitou.
Depois respondeu:
“Oito.”
O mundo girou.
Oito anos.
Exatamente oito anos.
O mesmo tempo em que Helena desaparecera.
Gabriel sentiu o sangue sumir do rosto.
“Quando você nasceu?”
“Em abril.”
Ele fechou os olhos.
Abril.
Helena estava grávida quando desapareceu.
Ela estava grávida.
Seu corpo inteiro ficou rígido.
“Helena...”
Ela não respondeu.
Continuava chorando.
“Helena, por favor, olha para mim.”
Ela finalmente levantou os olhos.
E Gabriel viu algo que nunca imaginou encontrar.
Medo.
Muito medo.
“Você precisa ir embora.”
Gabriel piscou.
“Eu acabei de te encontrar.”
“Você precisa ir.”
“Não.”
“Gabriel...”
“Não.”
A resposta saiu firme.
Mais firme do que ele esperava.
“Eu procurei você durante anos.”
As lágrimas de Helena aumentaram.
“Eu sei.”
“Então por que desapareceu?”
Silêncio.
O vento soprou entre os carros.
Ao longe uma motocicleta passou pela avenida.
Miguel começou a chorar novamente.
Sofia correu até o banco traseiro.
Tentando acalmá-lo.
Gabriel observou a cena.
Uma menina de oito anos cuidando de um bebê.
Como uma adulta.
Como alguém que nunca teve infância.
Seu coração apertou.
“Vocês estão morando nesse carro?”
Helena desviou o olhar.
Aquilo já era resposta suficiente.
Gabriel sentiu raiva.
Raiva da situação.
Raiva do passado.
Raiva das respostas que ainda não tinha.
“Quem fez isso com vocês?”
Helena fechou os olhos.
“Vai embora.”
“Não vou.”
“Vai embora!”
A voz saiu mais alta.
Sofia se assustou.
Miguel começou a chorar mais forte.
Helena imediatamente se arrependeu.
Levou a mão ao rosto.
“Desculpa...”
Gabriel respirou fundo.
Tentando controlar as emoções.
Então olhou para Sofia novamente.
“Você sabe quem eu sou?”
A menina ficou imóvel.
Durante alguns segundos.
Depois respondeu:
“Sim.”
Gabriel sentiu o coração acelerar.
“Quem?”
Sofia engoliu em seco.
“Gabriel Andrade.”
O nome saiu quase como um segredo proibido.
“E o que sua mãe falou sobre mim?”
Sofia olhou para Helena.
Depois para ele.
Visivelmente insegura.
“Pode falar.”
A menina mordeu o lábio.
Então respondeu:
“Ela disse que você é perigoso.”
Gabriel ficou imóvel.
“Perigoso?”
Sofia assentiu.
“Ela disse que se você nos encontrasse... coisas ruins aconteceriam.”
O silêncio que se seguiu pareceu infinito.
Gabriel sentiu uma dor absurda atravessar seu peito.
Não pela acusação.
Mas porque aquela menina acreditava naquilo.
A própria filha.
Se realmente fosse sua filha.
Tinha medo dele.
Helena virou o rosto.
Incapaz de encará-lo.
“Você contou isso para ela?”
“Eu precisava protegê-la.”
“De mim?”
“De tudo.”
“Helena!”
Ela começou a chorar novamente.
Mais forte.
Mais desesperada.
“Você não entende!”
“Então me explica!”
A voz dele ecoou pelo estacionamento.
Sofia se encolheu.
Gabriel percebeu imediatamente.
Respirou fundo.
Tentando recuperar a calma.
“Desculpa.”
O vento levantou alguns fios do cabelo de Helena.
Ela parecia exausta.
Doente.
Como alguém que carregava um peso impossível.
“Eu queria te procurar.”
Gabriel congelou.
“Queria?”
“Todos os dias.”
“Então por que não procurou?”
Helena apertou os olhos.
Como se estivesse revivendo um pesadelo.
“Porque eu não podia.”
“Quem te impediu?”
Silêncio.
Ela não respondeu.
Mas Gabriel percebeu.
Alguém.
Sempre existiu alguém.
Alguém por trás daquela história.
Alguém que tinha destruído suas vidas.
Sofia voltou para perto da mãe.
Segurou sua mão.
Pequena.
Frágil.
“Mamãe?”
Helena acariciou seus cabelos.
Tentando sorrir.
Mas não conseguiu.
As lágrimas continuavam descendo.
Gabriel observava tudo.
E quanto mais olhava.
Mais certeza tinha.
Sofia era sua filha.
A sensação era impossível de explicar.
Não era lógica.
Era algo mais profundo.
Algo que vinha do coração.
Então uma tosse forte interrompeu tudo.
Helena levou a mão ao peito.
Seu corpo se curvou de dor.
Gabriel imediatamente avançou.
“Helena!”
Ela tentou afastá-lo.
Mas quase caiu.
Gabriel segurou seus ombros.
Pela primeira vez em oito anos.
O toque fez os dois congelarem.
O mundo desapareceu.
As luzes.
O estacionamento.
O supermercado.
Tudo.
Por um segundo só existiam eles.
E todos os anos perdidos.
Helena começou a chorar ainda mais.
“Eu achei que nunca mais fosse te ver.”
A voz dela saiu quebrada.
Gabriel sentiu os olhos queimarem.
“Eu também.”
Sofia observava sem entender.
Miguel chorava baixinho no carro.
E naquele instante parecia que finalmente a verdade começaria a aparecer.
Mas então algo mudou.
Helena virou a cabeça.
Olhando para a entrada do estacionamento.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
Os olhos se arregalaram.
O corpo ficou rígido.
Como se tivesse visto um fantasma.
Ou algo pior.
Gabriel percebeu imediatamente.
“Helena?”
Ela continuava olhando para o mesmo ponto.
Paralisada.
A respiração acelerada.
As mãos tremendo.
“Helena, o que foi?”
Então ela segurou o braço dele com força.
Mais força do que parecia possível.
Os olhos cheios de terror.
“Gabriel...”
“Fala comigo.”
Ela começou a chorar.
Desesperadamente.
Como alguém que sabia que o pior acabara de acontecer.
E então pronunciou as palavras que fizeram o sangue dele gelar.
“Vai embora!”
“Helena—”
“Vai embora agora!”
“Por quê?”
Ela apontou para a entrada do estacionamento.
Seu corpo inteiro tremia.
E gritou:
“RICARDO NOS ENCONTROU!”