A pequena Sofia Costa segurava a garrafa de leite como se fosse a última coisa quente no mundo. Seus dedos finos tremiam, e o líquido dentro parecia pesar mais do que ela poderia carregar.
O supermercado em Nova Iguaçu era simples, barato, quase vazio sob a luz fria e branca das lâmpadas fluorescentes.
Prateleiras de sopas enlatadas e cereais em promoção se estendiam atrás do balcão. As portas automáticas de vidro abriam e fechavam com o vento da noite, trazendo o cheiro úmido do asfalto molhado.
Sofia estava de camiseta velha bege, jeans curtos demais nos tornozelos e tênis com um cadarço faltando.
Seu cabelo loiro estava despenteado, o rosto sujo, e os olhos grandes demais para uma criança que deveria estar pensando em lição de casa ou desenho animado.
Atrás do balcão, a caixa Carla Mendes olhou para a garrafa de leite e depois para a menina.
— "São quatro reais e oitenta e nove centavos." — sua voz soou ríspida, sem espaço para piedade.
Sofia engoliu em seco.
Abriu a mão.
Dois quartos de real. Três moedas de dez centavos. Um níquel.
Carla franziu a testa.
Sofia abraçou a garrafa com força, como se soltá-la pudesse despedaçar tudo ao seu redor.
— "Por favor…" — sussurrou. — "Posso pagar amanhã?"
Carla suspirou, visivelmente impaciente. — "Não posso fazer isso. São regras da loja."
A palavra “regras” ecoou no coração de Sofia como uma sentença.
Atrás dela, Gabriel Andrade esperava na fila. Segurava uma barra de pão e um pacote de pilhas.
Alto, largo, com o casaco de sarja escura ainda coberto de serragem de um dia exaustivo no canteiro de obras, ele havia entrado no supermercado sem intenção alguma.
Mas algo naquela menina o fez parar. Algo que o fez permanecer em silêncio e observar.
Sofia colocou a sacola de papel no balcão com as duas mãos, como se entregá-la fosse uma rendição dolorosa.
— "Meu irmão chora a noite toda" — disse, limpando as lágrimas com o dorso da mão. — "Ele é pequeno. Precisa de leite."
Carla puxou a garrafa de volta para si.
— "Sinto muito, querida. Política da loja." — A palavra “política” novamente.
Gabriel sentiu o maxilar endurecer. Ele conhecia essa palavra usada para esconder covardia.
Por um instante, Sofia olhou para as portas automáticas.
Gabriel viu a decisão antes de qualquer outra pessoa.
— "Espere" — disse, mas Sofia já tinha pegado a sacola de papel e corrido.
— "Ei!" — gritou Carla, estendendo a mão tarde demais.
As portas automáticas se abriram. O ar frio invadiu o pequeno corpo da menina. Ela desapareceu na escuridão do estacionamento.
Gabriel deixou a barra de pão e as pilhas caírem no chão e correu atrás dela.
O estacionamento estava iluminado por postes azuis refletindo no asfalto molhado. Alguns carros estacionados, vidros escuros, silhuetas apagadas.
Sofia parou ao lado de um velho sedã, abraçando a sacola contra o peito como se alguém pudesse arrancá-la dela.
Gabriel desacelerou imediatamente. Levantou as mãos, mantendo distância.
— "Ei" — disse, mantendo a voz calma. — "Não vou te machucar."
Sofia recuou meio passo. Seus olhos enormes, cheios de medo, procuravam uma saída.
Gabriel agachou-se à altura dela.
— "Você disse que seu irmão chora a noite toda. Onde ele está?"
O lábio inferior de Sofia tremeu.
— "No carro."
Gabriel olhou para o sedã. Sob um cobertor, uma pequena forma se movia, choramingando baixinho.
— "E sua mãe?"
Sofia apertou a sacola com mais força. — "Ela está dormindo."
O estômago de Gabriel gelou.
— "Qual é o nome da sua mãe?"
Sofia hesitou, como se tivesse sido avisada para não falar com estranhos.
— "Helena" — a voz saiu tão baixa que parecia um sopro.
O nome atingiu Gabriel como um soco no peito. Ele parou de respirar por alguns segundos.
Helena Costa.
A mulher que ele amara antes de sua vida desmoronar.
A mulher que desaparecera enquanto ele aguardava no presídio de Nova Iguaçu por acusações que, mais tarde, seriam retiradas.
O coração de Gabriel acelerou. Ele olhou para a criança. Loira, olhos azul-acinzentados, uma pequena covinha na bochecha esquerda. A mesma covinha de Helena.
Ele se levantou rápido demais. Sofia recuou, assustada.
Gabriel forçou-se a agachar novamente.
— "Sofia" — disse suavemente, embora ela ainda não tivesse revelado seu nome.
Os olhos da menina se estreitaram. — "Como sabe meu nome?"
Ele não sabia.
Não exatamente.
Mas Helena lhe dissera uma vez, deitada em um parque, que se tivesse uma filha, chamaria de Sofia, porque floresciam mesmo depois do inverno.
Gabriel respirou fundo. — "E seu sobrenome?"
Sofia assentiu lentamente. — "Costa."
O mundo de Gabriel parecia inclinar-se. O chão molhado, a luz fria do estacionamento, o supermercado vazio… tudo girava ao redor daquela revelação.
— "Posso verificar sua mãe?" — perguntou ele, a voz baixa, quase implorando.
— "Não" — respondeu Sofia rapidamente. — "Mamãe disse para não deixar ninguém nos encontrar."
— "Por quê?" — Gabriel sentiu um frio na espinha.
Sofia olhou para a estrada à frente. — "Porque o Sr. Andrade vai nos encontrar."
O corpo de Gabriel congelou. — "Meu nome é Andrade."
O rosto de Sofia ficou pálido. Não de reconhecimento. De terror. Ela agarrou a sacola e tentou fugir, mas Gabriel recuou imediatamente, dando espaço.
— "Não. Não, escute. Sou Gabriel Andrade."
Ela balançou a cabeça vigorosamente. — "Não! O Sr. Andrade é ruim!"
Uma dor aguda atravessou o peito dele.
— "Quem te disse isso?" — perguntou, tentando não elevar a voz.
— "Minha mãe."
Antes que pudesse reagir, a porta do sedã se abriu. Uma voz fraca e urgente chamou:
— "Sofia?"
Gabriel virou-se. Helena Costa surgiu do banco da frente como um fantasma que envelhecera prematuramente. Seus cabelos loiros escurecidos estavam emaranhados, o rosto pálido e marcado, a mão apoiada contra o lado do corpo.
Ela viu Gabriel. O mundo parou.
— "Não…" — sussurrou.
Gabriel deu um passo à frente. — "Helena."
Seus olhos se encheram de lágrimas instantaneamente, mas o medo engolia toda a suavidade.
— "Fiquem longe de nós."
Sofia olhou para ele, confusa. Miguel chorava baixinho sob o cobertor. Helena Costa fechou os olhos, cansada, exausta, mas viva.
O estacionamento escuro, o leite nas mãos de Sofia, o frio da noite — tudo conspirava para um reencontro que parecia impossível.
E aquela garrafa de leite, simples e pequena, havia os reunido naquele instante de pura tensão e emoção, preparando o terreno para o que viria depois.
O nome “Helena Costa” ecoava entre eles. Para Gabriel, era o sinal de que oito anos de mentiras, medos e desaparecimentos estavam prestes a se confrontar.