Fernando Almeida não conseguiu dormir naquela noite.
Depois de tudo o que aconteceu em Santa Teresa, a imagem daquela menina continuava voltando à sua mente.
O joelho sangrando.
As roupas gastas.
A garrafinha de água.
E, principalmente, aquelas palavras.
"Foi a senhora que deixou ela sozinha."
Ana não parecia uma criança tentando ganhar dinheiro.
Não parecia uma mentirosa.
Parecia apenas uma menina cansada.
Uma menina que carregava o peso do mundo nos ombros.
E isso o incomodava.
Muito.
Na manhã seguinte, antes mesmo das sete horas, Fernando já estava dentro do carro.
O motorista conduzia pelas ruas estreitas de Santa Teresa enquanto Fernando observava pela janela.
As mansões históricas e os cafés turísticos desapareciam aos poucos.
As ruas ficavam mais estreitas.
Mais simples.
Mais esquecidas.
Até que o asfalto acabou.
E começou outro Rio de Janeiro.
O Rio que raramente aparecia nas revistas.
O Rio onde crianças cresciam rápido demais.
Onde velhos morriam cedo demais.
Onde sobreviver já era uma vitória.
"É aqui, senhor."
Fernando saiu do carro.
O contraste era brutal.
Barracos improvisados.
Fios elétricos cruzando o céu.
Escadarias quebradas.
Paredes descascadas.
Esgoto escorrendo em alguns pontos.
O cheiro de lixo misturado com comida.
Fernando sentiu um aperto no peito.
Ana vivia ali.
A menina que salvara Sofia vivia ali.
Ele começou a perguntar.
"Vocês conhecem uma menina chamada Ana?"
Uma senhora apontou para uma viela.
"Menina das balas?"
Fernando assentiu.
"Conheço."
"Ela mora lá em cima."
Outro homem interrompeu.
"Boa menina."
"Trabalha mais que muito adulto."
Fernando continuou subindo.
Quanto mais avançava, mais histórias ouvia.
"Cuida da avó sozinha."
"Nunca vi ela pedir esmola."
"Passa o dia vendendo bala."
"À noite sai recolhendo latinha."
"Não tem vida fácil."
Cada frase apertava mais o coração dele.
Finalmente chegou ao topo de uma escadaria.
Ali havia um pequeno barraco de madeira.
Tão pequeno que parecia impossível alguém viver dentro dele.
A porta estava entreaberta.
Fernando bateu.
Ninguém respondeu.
Bateu novamente.
Então ouviu uma voz.
"Pode entrar."
Era Ana.
Fernando empurrou a porta devagar.
E ficou imóvel.
A realidade era pior do que imaginava.
Muito pior.
O barraco tinha apenas um cômodo.
Uma cama velha.
Uma mesa improvisada.
Duas cadeiras diferentes.
Um fogão enferrujado.
E praticamente nada mais.
Não havia geladeira.
Não havia ventilador.
Não havia televisão.
Não havia comida.
Fernando olhou para a mesa.
Dois pedaços de pão duro.
Era tudo.
Ana estava ajoelhada ao lado da cama.
Ao vê-lo, sorriu timidamente.
"Seu Fernando."
Mas Fernando não respondeu.
Seu olhar estava fixo na mulher deitada.
A avó.
Ela parecia extremamente frágil.
Magra.
Pálida.
Com olheiras profundas.
A respiração era pesada.
Cada movimento parecia exigir esforço.
Fernando aproximou-se.
"Ela viu um médico?"
Ana baixou a cabeça.
"Não."
"Por quê?"
"Não temos dinheiro."
A resposta saiu tão simples quanto devastadora.
Fernando engoliu em seco.
"Há quanto tempo ela está assim?"
"Uns meses."
"Meses?"
Ana assentiu.
"Ela piorou nas últimas semanas."
Fernando olhou ao redor.
Nenhum remédio.
Nenhuma receita.
Nenhum tratamento.
Nada.
Apenas sofrimento.
Apenas abandono.
"Você cuida dela sozinha?"
Ana respondeu como se fosse algo normal.
"Sim."
Fernando sentiu o coração apertar.
"Como?"
A menina apontou para uma sacola cheia de doces.
"Vendo bala."
Depois apontou para várias latinhas amassadas.
"E recolho recicláveis."
Fernando ficou em silêncio.
Ana continuou.
"De manhã vendo bala nos sinais."
"À tarde perto dos turistas."
"À noite recolho lixo."
Ela falava aquilo com naturalidade.
Como quem descreve a rotina escolar.
Mas não era normal.
Não deveria ser normal.
Ela tinha apenas onze anos.
Onze.
Fernando pensou em Sofia.
Na escola particular.
Nas aulas de arte.
Nos brinquedos espalhados pelo quarto.
E sentiu vergonha.
Vergonha do mundo.
Vergonha da injustiça.
Vergonha de saber que duas crianças da mesma cidade podiam viver realidades tão diferentes.
Nesse momento, a avó começou a tossir.
Uma tosse forte.
Dolorosa.
Ana correu imediatamente.
Segurou um copo com água.
Ajudou a mulher a beber.
Com carinho.
Com paciência.
Com amor.
Fernando observou tudo.
E entendeu.
Ana já era adulta antes do tempo.
Porque a vida a obrigou.
Pouco depois, ele saiu do barraco.
Pegou o telefone.
Ligou para um médico particular.
Depois para uma farmácia.
Depois para uma enfermeira.
Em menos de uma hora, uma pequena equipe chegou.
Ana não acreditava.
Medicamentos.
Equipamentos.
Exames.
Pela primeira vez em muito tempo, alguém estava tentando ajudar.
Mas Fernando percebeu algo preocupante nos rostos dos profissionais.
Eles não estavam otimistas.
Muito pelo contrário.
Ao final da avaliação, o médico o chamou para conversar.
"A situação é grave."
Fernando sentiu o estômago afundar.
"Ela precisa ser internada?"
O médico suspirou.
"Gostaria de ter chegado antes."
Fernando fechou os olhos.
Entendeu imediatamente.
Era tarde.
Muito tarde.
Naquela noite, Fernando permaneceu no barraco.
Ana também.
Os três ficaram juntos.
Em silêncio.
Enquanto a chuva começava a cair do lado de fora.
Por volta das duas da manhã, a avó abriu os olhos.
Parecia mais lúcida.
Mais desperta.
Como se estivesse esperando por algo.
Ou alguém.
Ela procurou Ana.
Depois Fernando.
E estendeu a mão.
Fernando segurou imediatamente.
A voz dela saiu fraca.
Quase um sussurro.
"Você é o pai da menina."
Fernando assentiu.
"Sou."
Ela sorriu.
Um sorriso cansado.
Mas sincero.
"Minha neta gosta muito da sua filha."
Fernando sentiu os olhos arderem.
"Minha filha também gosta muito dela."
A senhora olhou para Ana.
Depois voltou a olhar para Fernando.
As lágrimas apareceram.
"Eu não vou conseguir ficar."
Ana imediatamente começou a chorar.
"Vó..."
Mas a idosa continuou.
"Ela é uma boa menina."
Fernando apertou sua mão.
"Eu sei."
"Ela merece uma vida melhor."
"Eu sei."
A mulher respirou com dificuldade.
E então reuniu suas últimas forças.
"Prometa cuidar dela."
O barraco inteiro pareceu parar.
A chuva.
O vento.
Tudo.
Fernando olhou para Ana.
A menina chorava em silêncio.
Sozinha.
Assustada.
Pequena demais para enfrentar aquilo.
Então ele respondeu.
Sem hesitar.
"Eu prometo."
A senhora sorriu.
Fechou os olhos.
E não os abriu novamente.
Ana soltou um grito que rasgou a madrugada.
"VÓ!"
Fernando a abraçou imediatamente.
Mas nada podia aliviar aquela dor.
Nada.
A única pessoa que ela tinha no mundo acabara de partir.
Durante horas, Ana chorou.
Até não ter mais lágrimas.
Até não ter mais forças.
Quando o sol começou a nascer, alguém bateu na porta.
Fernando abriu.
Era uma assistente social.
Ela trazia uma pasta nas mãos.
O rosto era sério.
Profissional.
Frio.
"Bom dia."
Fernando assentiu.
"Posso ajudar?"
A mulher olhou para Ana.
Depois para o corpo coberto da avó.
E suspirou.
"Recebemos a notificação."
Fernando sentiu um mau pressentimento.
"Que notificação?"
A assistente abriu a pasta.
"A menor Ana Santos ficou sem responsável legal."
Ana levantou a cabeça lentamente.
"Então..."
A mulher continuou.
"Amanhã ela será encaminhada para um abrigo infantil do município."
O mundo pareceu congelar.
Ana ficou branca.
Completamente branca.
"O quê?"
Sua voz mal saiu.
A assistente respondeu:
"É o procedimento padrão."
Ana começou a tremer.
"Não..."
Fernando fechou os punhos.
A promessa feita horas antes ainda ecoava em sua cabeça.
"Prometa cuidar dela."
A assistente social continuou falando.
Mas Fernando já não escutava.
Porque naquele instante ele percebeu uma coisa.
Se não fizesse algo imediatamente...
Ana desapareceria da vida dele.
E da vida de Sofia.
Para sempre.