“Tenho seis anos.”
As palavras de Isabela continuaram ecoando dentro da cabeça de Rafael Montenegro.
Uma vez.
Duas vezes.
Dez vezes.
Como um martelo golpeando sua consciência.
Seis anos.
Exatamente seis anos.
A mesma quantidade de tempo que Camila Oliveira estava desaparecida.
A mesma quantidade de tempo que ele carregava uma ferida que jamais cicatrizou.
A mesma quantidade de tempo que passou tentando convencer a si mesmo de que tinha sido abandonado.
Mas agora...
Tudo parecia uma mentira.
Ou pior.
Uma armação.
O hospital Santa Luzia surgiu à frente.
As luzes da emergência brilhavam sob a chuva.
Rafael estacionou bruscamente.
Nem desligou o motor.
Nem percebeu.
Só saiu do carro.
“Vamos!”
Isabela correu atrás dele.
A menina quase tropeçou tentando acompanhar seus passos.
Dentro do hospital, enfermeiros e pacientes se viraram imediatamente.
Era impossível não reconhecê-lo.
Principalmente porque as redes sociais já estavam explodindo.
O noivo que abandonou a noiva no altar.
O herdeiro bilionário que fugiu do próprio casamento.
O escândalo do ano.
Mas Rafael não se importava.
Não naquele momento.
Tudo o que existia era Camila.
Enquanto isso...
Do outro lado da cidade.
Na Igreja São José.
O caos havia tomado conta da cerimônia.
“Vocês estão filmando isso?”
“Meu Deus, ele foi embora!”
“Ele simplesmente abandonou a noiva!”
“Isso está ao vivo!”
Os celulares estavam por toda parte.
Os convidados gravavam.
Fotografavam.
Comentavam.
Em poucos minutos, os vídeos já circulavam pelas redes sociais.
O nome Rafael Montenegro ocupava os assuntos mais comentados do Brasil.
Valentina Vasconcelos permanecia parada diante do altar.
Imóvel.
Pálida.
Respirando com dificuldade.
O vestido branco de alta-costura parecia pesar toneladas sobre seus ombros.
Ela ainda encarava as portas da igreja.
Como se esperasse Rafael voltar.
Mas ele não voltou.
Nem olhou para trás.
Nem uma única vez.
As lágrimas começaram a descer pelo rosto dela.
Primeiro silenciosamente.
Depois sem controle.
“Valentina...”
Uma madrinha tentou se aproximar.
Ela afastou a mão.
“Não.”
“Vamos sair daqui.”
“Não!”
O grito ecoou pela igreja.
Todos se calaram.
Valentina sentiu centenas de olhos sobre ela.
Olhares de pena.
Olhares de curiosidade.
Olhares de julgamento.
Aquilo era pior que qualquer humilhação.
Ela havia passado meses planejando aquele casamento.
Meses aparecendo em revistas.
Meses sendo apresentada como a futura senhora Montenegro.
E agora?
Agora era apenas a mulher abandonada no altar.
Seu celular começou a vibrar.
Uma.
Duas.
Cinco.
Dez vezes.
Mensagens.
Jornalistas.
Amigos.
Parentes.
Todos perguntando a mesma coisa.
O que aconteceu?
Mas nem ela sabia responder.
Porque a única pergunta que importava era outra.
Quem era Camila Oliveira?
E por que Rafael a escolheu?
Na primeira fileira da igreja, Helena Montenegro observava tudo em silêncio.
Seu rosto estava mais pálido do que nunca.
Ela conhecia aquele nome.
Conhecia há muitos anos.
E também conhecia os segredos que deveriam ter permanecido enterrados.
“Meu Deus...”
Ela sussurrou.
Porque sentia que algo muito perigoso estava prestes a acontecer.
Muito mais perigoso que um casamento destruído.
Muito mais perigoso que um escândalo na imprensa.
O passado estava voltando.
E quando o passado voltava para a família Montenegro...
Sempre havia destruição.
No hospital...
Rafael atravessava os corredores como uma tempestade.
“Quarto 214?”
Uma recepcionista levantou os olhos.
“Senhor, precisa se identificar—”
“Quarto 214!”
A mulher se assustou.
“Segundo andar.”
Rafael correu.
Entrou no elevador.
Apertou o botão repetidamente.
Como se isso pudesse fazê-lo subir mais rápido.
Isabela permanecia ao seu lado.
Segurando a fotografia.
Abraçando-a contra o peito.
Quando as portas se abriram, Rafael saiu correndo novamente.
Seu coração batia tão forte que chegava a doer.
Porque o medo estava crescendo.
E se fosse tarde demais?
E se Camila estivesse morrendo?
E se ele tivesse chegado tarde outra vez?
As imagens do passado começaram a surgir.
Camila sorrindo no parque.
Camila correndo pela praia.
Camila usando o anel de noivado.
Camila dizendo que o amava.
Camila desaparecendo.
Camila sumindo da sua vida.
E agora...
Camila em um hospital.
Machucada.
Ameaçada.
Com medo.
Rafael apertou os punhos.
Quem fez isso?
Quem estava perseguindo ela?
Por quê?
E por que Isabela tinha sido enviada justamente para ele?
As perguntas se acumulavam.
Mas não havia respostas.
Ainda não.
Ao mesmo tempo...
Na mansão Montenegro.
Augusto Montenegro observava uma reportagem na televisão.
As imagens do casamento interrompido passavam repetidamente.
O apresentador parecia eufórico.
“Rafael Montenegro abandona cerimônia após aparição misteriosa de uma criança!”
Augusto permaneceu imóvel.
Seu rosto não demonstrava emoção.
Mas seus olhos ficaram sombrios.
Muito sombrios.
Então pegou o telefone.
“Ela conseguiu encontrá-lo.”
Do outro lado da linha, ninguém respondeu durante alguns segundos.
“Quer que eu resolva?”
Augusto olhou novamente para a televisão.
A imagem de Isabela apareceu na tela.
Molhada.
Assustada.
Segurando a fotografia.
Ele estreitou os olhos.
“Não.”
Silêncio.
“Agora é tarde demais.”
A ligação foi encerrada.
Augusto caminhou até a janela.
A chuva continuava caindo sobre São Paulo.
“Camila...”
Seu tom era frio.
Perigoso.
“Você nunca deveria ter voltado.”
No hospital...
Rafael finalmente encontrou a placa.
Porta azul.
Exatamente como Isabela havia descrito.
Seu corpo inteiro congelou.
A poucos metros daquela porta existiam respostas.
Respostas que ele procurava havia seis anos.
Mas também existia a possibilidade de descobrir algo que mudaria sua vida para sempre.
“Ela está aí.”
Isabela falou baixinho.
Rafael olhou para a menina.
Ela parecia exausta.
Assustada.
Mas também esperançosa.
Como se acreditasse que tudo ficaria bem agora.
Ele desejou ter a mesma certeza.
Respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
Então colocou a mão na maçaneta.
Seu coração disparou.
A palma da mão estava suando.
Durante um instante, ele pensou em todas as possibilidades.
Talvez ela não quisesse vê-lo.
Talvez ainda o odiasse.
Talvez estivesse escondendo algo.
Talvez...
A verdade fosse muito pior do que imaginava.
Mas não havia mais volta.
Seis anos antes, ele perdeu Camila.
Hoje não perderia novamente.
Rafael girou a maçaneta.
A porta se abriu lentamente.
O cheiro de medicamentos escapou para o corredor.
As luzes frias do quarto iluminaram o ambiente.
Máquinas monitoravam sinais vitais.
O som dos aparelhos preenchia o silêncio.
E então ele a viu.
Camila Oliveira.
Deitada na cama do hospital.
Pálida.
Frágil.
Com hematomas visíveis nos braços.
Os cabelos espalhados sobre o travesseiro.
Um tubo de oxigênio sob o nariz.
Muito diferente da mulher cheia de vida que existia em suas lembranças.
Por um instante, Rafael simplesmente parou de respirar.
O mundo inteiro desapareceu.
Não existiam mais jornalistas.
Não existia mais casamento.
Não existia mais Valentina.
Não existia mais nada.
Somente ela.
Camila.
A mulher que ele jamais conseguiu esquecer.
A mulher que continuava ocupando cada espaço vazio do seu coração.
Lentamente, como se sentisse uma presença familiar, Camila abriu os olhos.
E encontrou os dele.
O tempo pareceu parar.
Os dois permaneceram imóveis.
Separados por seis anos de dor.
De segredos.
De mentiras.
De saudade.
Os lábios dela tremeram.
As lágrimas surgiram imediatamente.
E então, com a voz quase desaparecendo em um sussurro, Camila pronunciou o nome que não dizia havia seis anos.
“Rafael...?”