《A Babá Que Perdeu Tudo e Ganhou um Filho》Parte 5

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“O Plano do Advogado”

Pela primeira vez em semanas, Ana Oliveira acordou sem ouvir grades se fechando.

Mas isso não significava paz.

O pequeno apartamento alugado na Zona Leste de São Paulo parecia estranho depois de tantos anos vivendo nos fundos da mansão Montenegro.

Silencioso.

Vazio.

Solitário.

Ana preparava café quando o celular começou a vibrar novamente.

Mais uma ligação desconhecida.

Ela ignorou.

Nos últimos dias, dezenas de jornalistas haviam conseguido seu número.

Todos queriam uma entrevista.

Todos queriam uma declaração.

Todos queriam transformar sua dor em manchete.

Ela não queria falar com ninguém.

Só queria desaparecer.

Tomar um café em paz.

Dormir.

Esquecer.

Tentar reconstruir uma vida que havia sido destruída diante de todo o país.

A campainha tocou.

Ana suspirou.

Provavelmente outro repórter.

Abriu a porta sem entusiasmo.

Mas encontrou um homem alto, elegante, usando um terno azul-marinho impecável.

Cabelos grisalhos nas laterais.

Olhar firme.

Postura de quem estava acostumado a vencer.

Ele estendeu a mão.

"Ricardo Vasconcelos."

Ana reconheceu o nome imediatamente.

Mesmo alguém que não acompanhava o mundo jurídico sabia quem ele era.

Um dos advogados mais famosos do Brasil.

Especialista em ações milionárias.

Empresários temiam enfrentá-lo.

"Posso entrar?"

Ana hesitou.

Depois abriu passagem.

Ricardo observou o pequeno apartamento.

Nada luxuoso.

Nada sofisticado.

Apenas uma mulher tentando recomeçar.

"Vou ser direto."

Ele colocou uma pasta sobre a mesa.

"O que aconteceu com você foi um crime."

Ana cruzou os braços.

"Fernando já está sendo investigado."

"Não estou falando dele."

Ela franziu a testa.

"Estou falando de todos eles."

Ricardo abriu a pasta.

Documentos.

Fotografias.

Recortes de jornais.

Entrevistas.

Prints de redes sociais.

Tudo organizado.

"Patrícia Montenegro acusou você publicamente."

Virou uma página.

"Os Montenegro permitiram que sua imagem fosse destruída nacionalmente."

Outra página.

"Você foi demitida sem investigação adequada."

Outra.

"Você foi presa injustamente."

Ana observava em silêncio.

Ricardo continuou.

"Isso não é apenas uma injustiça."

Ele a encarou.

"É um processo milionário."

Ana desviou os olhos.

Não gostava daquela conversa.

Não queria vingança.

Não queria dinheiro.

Não queria aparecer novamente na televisão.

"Eu só quero seguir em frente."

Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois fechou a pasta.

"Você criou os filhos deles por doze anos."

Ana não respondeu.

"Passou mais tempo com aquelas crianças do que os próprios pais."

Ainda silêncio.

"E quando precisaram de um culpado, escolheram você."

As palavras atingiram exatamente onde doía.

Porque eram verdadeiras.

Ana sentiu um nó se formar na garganta.

Mas balançou a cabeça.

"Não quero guerra."

Ricardo soltou um suspiro.

"Você acha que eles pensariam o mesmo se tivessem conseguido colocá-la na prisão por dez anos?"

Ana ficou imóvel.

Não tinha resposta.

Porque sabia que não.

Ricardo levantou-se.

Pegou o cartão.

Colocou sobre a mesa.

"Se mudar de ideia, me ligue."

Ele caminhou até a porta.

Mas antes de sair, falou sem olhar para trás.

"Eles tentaram tirar sua liberdade."

Pausa.

"Agora estão tentando tirar sua dignidade."

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Mais uma pausa.

"Não deixe."

Quando a porta fechou, Ana ficou sozinha novamente.

O silêncio parecia ainda maior.

Ela olhou para o cartão.

Não tocou nele.

Naquela mesma tarde, os canais de televisão exibiam novas imagens dos Montenegro.

Patrícia deixava uma delegacia cercada por advogados.

Os antigos amigos desapareciam.

Patrocinadores cancelavam contratos.

Eventos beneficentes retiravam seu nome.

A queda estava apenas começando.

Mas Ana não sentia satisfação.

Sentia apenas cansaço.

Muito cansaço.

Horas depois, alguém bateu à porta.

Desta vez era Cida.

A antiga funcionária da mansão.

Ana abriu imediatamente.

"Cida!"

As duas se abraçaram.

Pela primeira vez desde a prisão, Ana sentiu o calor de alguém que realmente se importava.

"Como você está?"

"Sobrevivendo."

Cida enxugou os olhos.

"A casa está um caos."

Ana não respondeu.

"Fernando continua preso."

Silêncio.

"Patrícia quase não sai do quarto."

Mais silêncio.

Então Cida segurou suas mãos.

"Ana..."

Algo na voz dela fez o coração da mulher acelerar.

"O que aconteceu?"

"É o Lucas."

Ana ficou imóvel.

"O Lucas?"

Cida assentiu.

"Ele não está bem."

O mundo pareceu parar.

"Ele está doente?"

"Não."

A voz de Cida falhou.

"Ele só chora."

Ana sentiu o peito apertar.

"Cida..."

"Ele pergunta por você o tempo inteiro."

As lágrimas começaram a surgir.

"Todo dia."

Ana fechou os olhos.

Não.

Por favor.

Não.

"Ele não quer comer."

"Cida..."

"Não quer brincar."

Ana já chorava.

"Não quer falar com ninguém."

Cida apertou suas mãos.

"E toda noite dorme abraçado à foto de vocês dois."

Ana desabou.

Porque aquilo doía mais do que a prisão.

Mais do que as manchetes.

Mais do que a humilhação.

Lucas.

Seu menino.

Sofrendo.

Sozinho.

Sem entender por que ela havia desaparecido.

"Ele acha que você foi embora."

A frase destruiu o que restava de sua resistência.

Ana cobriu o rosto.

As lágrimas vieram sem controle.

Durante doze anos ela havia sido a pessoa que protegia Lucas.

A pessoa que o fazia sentir-se seguro.

E agora ele estava sofrendo.

Porque ela não podia estar ao lado dele.

Naquela noite, Ana não conseguiu dormir.

Sentou-se na varanda pequena do apartamento.

Observando as luzes da cidade.

Pensando em tudo.

Nos anos perdidos.

Nas humilhações.

Nas mentiras.

Na prisão.

Na entrevista de Patrícia.

Nas palavras:

"Ela era apenas uma empregada."

Apenas isso.

Apenas isso.

Apenas isso.

Mas Lucas nunca pensou assim.

Lucas a amava.

E aquilo mudava tudo.

Pouco depois da meia-noite, Ana pegou o cartão de Ricardo Vasconcelos.

Ficou olhando por vários segundos.

Depois digitou o número.

A ligação foi atendida no segundo toque.

"Ricardo Vasconcelos."

"Sou Ana."

Silêncio.

Depois um pequeno sorriso surgiu na voz dele.

"Eu estava esperando."

Ana respirou fundo.

Talvez estivesse prestes a iniciar uma guerra.

Talvez os jornais voltassem a falar dela.

Talvez sua vida ficasse ainda mais complicada.

Mas algumas injustiças não podiam ser esquecidas.

E algumas pessoas precisavam responder pelo que fizeram.

"Eu aceito."

Ricardo não pareceu surpreso.

"Ótimo."

"Mas não estou fazendo isso por dinheiro."

"Eu sei."

Ana olhou para a fotografia dela com Lucas que estava sobre a mesa.

"Estou fazendo isso porque a verdade importa."

Ricardo respondeu imediatamente.

"Então vamos mostrar a verdade ao país inteiro."

Na manhã seguinte, os maiores jornais do Brasil receberam a mesma notícia.

Ricardo Vasconcelos protocolara oficialmente uma ação milionária contra a família Montenegro.

Difamação.

Denunciação caluniosa.

Danos morais.

Demissão abusiva.

Perseguição.

As manchetes explodiram.

As redes sociais enlouqueceram.

E, pela primeira vez desde que fora colocada naquela viatura policial, Ana Oliveira deixou de ser apenas uma mulher tentando sobreviver.

Agora ela estava lutando.

E a guerra contra os Montenegro havia começado oficialmente.

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