Capítulo 18
Quando o incidente ocorreu, Alice ainda era muito pequena e não fazia ideia do que havia acontecido de fato.
Ela apenas sabia que, em uma manhã ensolarada, a mamãe a levou para a creche e nunca mais apareceu.
Todos diziam que sua mãe havia feito mal a alguém e, por medo da prisão, fugiu abandonando o marido e a filha.
Até seu pai pensava assim no início.
Mas só Alice sabia que sua mãe era a melhor mãe do mundo; ela não faria mal a ninguém, nem a abandonaria.
A mamãe apenas se decepcionou com o papai, por isso partiu.
Por isso, ela nunca mencionou o colar para ninguém.
Mesmo quando a verdade finalmente veio à tona, a culpa que recaía sobre sua mãe foi lavada, e seu pai, em desespero e loucura, foi internado em um hospital psiquiátrico.
Ela nunca lhe contou que tinha um meio de chegar ao mundo de sua mãe.
Quem decepciona um coração sincero deve arcar com a punição merecida.
Alice sempre acreditou nisso.
Ao mesmo tempo, ela se perguntou inúmeras vezes: a mamãe, de volta ao seu próprio mundo, estaria feliz? Ela ainda odiaria seu pai? Ela lembraria dela, sua filha?
Ela não tinha como saber a resposta.
Até hoje, ao ouvir sua mãe mencionar esses assuntos e ver a expressão de tranquilidade em seu rosto.
Alice finalmente teve certeza de que sua mãe já havia superado tudo.
A pedra pesada que estava em seu coração também finalmente caiu.
Ela segurou a mão de Elena e, finalmente de coração aberto, contou à mãe tudo o que aconteceu antes de ela vir para este mundo.
Vinte anos passaram-se num piscar de olhos.
Mas Alice levou cinco horas para explicar tudo claramente.
Do crepúsculo até a escuridão, o sorriso no rosto de Elena foi desaparecendo, restando apenas uma compaixão infinita.
Ela nunca imaginou que uma história idêntica se repetiria com sua filha.
E a pessoa que mais causou sofrimento à sua filha era exatamente quem, na época, a convenceu a permanecer naquele espaço-tempo.
Por um momento, ela sentiu um pouco de remorso.
Se ela tivesse levado a filha consigo naquela época, talvez ela não tivesse sofrido tal dano.
Mas a vida não tem "se".
Por isso, ela só podia, neste presente irremediável, abraçar sua filha, sem dizer nada.
Na verdade, não era preciso abrir a boca; muitos sentimentos só precisam de um abraço para serem transmitidos ao outro.
Ambas eram pessoas que tinham atravessado o mar de sangue e lágrimas da traição.
Ninguém mais do que elas poderia se colocar no lugar da outra.
As feridas que antes faziam Alice desejar a morte, sob os cuidados de sua mãe, curaram-se lentamente.
Olhando para o passado, ela não sentia mais dor, nem achava difícil de falar sobre isso.
Ela havia oferecido um coração sincero, apenas o entregou à pessoa errada.
O erro foi de quem pisou na sinceridade, não dela.
Antes de partir, ela já havia exposto todas aquelas imundícies; a retribuição cármica chegaria naturalmente.
Aquele mundo distante e imprevisível já se tornara passado.
Ela atravessou o lamaçal e recomeçou sua jornada.
Embora não soubesse como seria o caminho à frente, contanto que estivesse ao lado da mãe.
Alice sentia que tudo era brilhante.
Ela segurou a mão de mãe e, fazendo um juramento com o dedo mindinho, firmou um acordo.
"Vamos considerar que tudo o que aconteceu naquele mundo não passou de um sonho. Agora que o sonho acabou, nunca mais tocaremos no assunto."
Capítulo 19
No trigésimo dia desde o desaparecimento de Alice, ainda não havia nenhum rastro dela.
Como prometera na época, ela desapareceu completamente.
Hugo quase virou a cidade de cabeça para baixo, mas ainda assim não obteve nenhuma notícia.
Toda vez que adormecia, ele caía em pesadelos aterrorizantes.
No sonho, ele ainda conseguia ver Alice, mas o olhar dela ao encará-lo era mais frio que gelo.
Não importava o quanto ele gritasse, se ajoelhasse para pedir desculpas ou implorasse em confissão, ela permanecia indiferente.
Independentemente de como ele corresse atrás dela, ela estava sempre a uma distância de um passo, mas nunca alcançável.
Como um labirinto gigante, prendendo-o no lugar.
Ele só podia esperar pelo momento em que acordaria do sonho.
Mas, ao abrir os olhos e retornar ao mundo real, vendo a casa vazia, outro tipo de dor tomava seu coração.
Para Hugo, a noite e o dia eram dois tipos diferentes de tortura.
Ele não podia resistir, apenas se deixava afundar.
Ele se trancava no quarto e, com o passar do tempo, começou a confundir sonho e realidade, com raros momentos de lucidez.
Até que, em uma manhã, a campainha, que não tocava há muito tempo, soou nitidamente, despertando-o.
Ele correu tropeçando escada abaixo para abrir a porta, e a expectativa urgente em seus olhos se transformou em desânimo no momento em que viu seus pais.
Quase um mês sem vê-lo, o pai de Hugo olhou para sua aparência decadente de sem-teto e a raiva contida por muito tempo finalmente explodiu.
"Duas mulheres transformaram você nesse estado! Hugo, como pude ter gerado uma criatura tão inútil!"
Ao lado, a mãe de Hugo, vendo o ferimento na testa do filho, tentou aconselhá-lo.
"Chega! As coisas chegaram a esse ponto, de que adianta reclamar? No fim das contas, é nosso filho de sangue, pegue leve."
Hugo manteve a cabeça baixa, sem dizer uma palavra.
O pai soltou um bufo frio e passou por ele para entrar.
A mãe de Hugo também deu um longo suspiro e, enquanto ordenava que trouxessem suas coisas, contava-lhe sobre os acontecimentos recentes.
"Depois que Zhou Yunsheng conseguiu aquelas ações, uniu-se a vários acionistas para expulsar a família Hugo. As ações não param de cair, várias subsidiárias estão enfrentando falência e liquidação, e o representante legal é seu pai. Para cobrir o rombo, tivemos que vender todos os carros e imóveis que tínhamos. Seu avô ainda está na UTI e também custa dinheiro, a mansão da família foi vendida... de agora em diante, viveremos todos juntos."
Hugo não esperava que, em apenas um mês, Zhou Yunsheng tivesse transformado o Grupo Hugo em uma casca vazia.
A fortuna que a família Hugo construiu por gerações foi destruída por suas próprias mãos.
Ele segurou a cabeça em desespero, sendo devorado pela culpa.
Não lhe restava nem força para resistir.
A mãe de Hugo sabia que ele não estava bem, bateu em seu ombro tentando consolá-lo, mas não sabia por onde começar.
Bem no momento em que mãe e filho estavam sem palavras, uma voz familiar e tímida veio de trás deles.
"Irmão Hugo, tia Hugo..."
Os dois viraram-se e viram Isabela, seus pais e seu irmão parados na porta.
Ao ver aquela família, o rosto de Hugo parecia envolto por nuvens escuras, ficando completamente sombrio.
Ele olhou com olhos frios, com um tom cheio de hostilidade e inimizade.
"O que você veio fazer aqui de novo?"
Ao ver aquela expressão, Isabela quase chorou, apertando a bainha da roupa sem conseguir falar nada.
Iago, que também estava com raiva, protegeu a irmã e retrucou com voz pesada.
"Você acha que viemos porque queríamos? Só queremos uma explicação!"
Explicação?
Ao ouvir essa palavra, Hugo soltou uma risada fria.
Ele também queria uma explicação!
Capítulo 20
No quarto escuro, as duas famílias sentaram-se frente a frente, nenhuma com uma expressão amigável.
O clima na sala era de uma opressão extrema, sem ninguém dizer uma palavra por um longo tempo.
Por fim, Isabela criou coragem e revelou a notícia.
"Eu, eu estou grávida!"
Essa frase foi como um trovão, quebrando o silêncio mortal.
Os pais de Hugo ficaram chocados, olhando simultaneamente para ela.
Hugo foi ainda mais surpreendido pela notícia e levantou-se abruptamente.
Naqueles olhos, mais afiados que lâminas, havia descrença total.
"Impossível!"
Ao ouvir sua negação categórica, Iago não conseguiu se segurar e, cerrando os punhos, começou a discutir com ele.
"Como impossível! Minha irmã só namorou você, a criança é sua, já está com dois meses. Você ainda quer negar?"
O cérebro lento de Hugo girava rapidamente, tentando calcular o tempo.
Dois meses?
Isso seria meados de novembro.
Isso era ainda mais impossível!
Naquele mês, ele sempre usou preservativos, como ela poderia ter engravidado!
Após deduções e verificações, Hugo teve a certeza de que estavam mentindo, e seu olhar tornou-se ainda mais afiado.
"Se tem dois meses, a criança não é minha! Quem sabe com que outro homem de rua sua irmã promíscua se envolveu!"
Iago, enfurecido pelas palavras insultuosas, levantou a mão para bater nele, mas foi segurado por Isabela.
Ela olhou para Hugo com olhos vermelhos, explicando-se de forma injustiçada.
"Dezenove de novembro, Irmão Hugo, você bebeu demais no dia do seu aniversário, você esqueceu daquele dia?"
Com esse lembrete, Hugo lembrou-se daquela noite de luxúria.
Sua expressão ficou ainda mais sombria e ele a questionou entre dentes.
"Eu não comprei pílulas do dia seguinte para você? Você não tomou?"
"Eu pesquisei e diziam que as pílulas não fazem bem ao corpo, então não tomei! Irmão Hugo, agora não é hora de discutir se tomei ou não, o importante é que temos uma criança, você..."