Capítulo 4
Cada palavra soava sincera e profunda.
Alice quase acreditou.
Mas, ao lembrar dos vídeos que vira de manhã, só sentiu um profundo sarcasmo.
Claramente, o amor dele por ela não era falso, então por que ele seria capaz de fazer algo tão doloroso?
Ela chorou, escondendo metade do rosto no travesseiro, enquanto sua consciência se tornava cada vez mais confusa, até que adormeceu sem perceber.
Quando acordou, já eram meia-noite.
Alice tateou ao lado da cama e notou que o lugar estava vazio. Ela ficou atordoada por um momento e, segurando o copo, decidiu descer para beber água.
Mas, ao sair do quarto, ouviu sons de rangidos vindo do cômodo ao lado.
A porta do escritório estava entreaberta. Ela caminhou levemente e viu os dois entrelaçados sobre a mesa.
A pele de Isabela brilhava como a neve sob a luz. Ela estava com o rosto rubro, respirando com dificuldade, suas unhas arranhando a superfície da mesa.
"Irmão Hugo, a Alice não está... não está com dores por causa do período? Você não deveria estar com ela, em vez de vir brincar comigo..."
"Cale a boca!"
Hugo baixou o tom de voz deliberadamente, mas seus movimentos não pararam.
Aquela cena, sem qualquer aviso, atingiu o peito dela como um golpe pesado, tornando cada respiração uma agonia lancinante.
Ele não conseguia se controlar? A cada momento, tinha que estar com Isabela...
Ela desviou o olhar, perdendo qualquer vontade de beber água, e cambaleou de volta para o quarto.
Meia hora depois, a porta foi aberta.
Hugo, após o banho, deitou-se ao seu lado e a abraçou novamente.
"Alice, querida, seu marido está aqui. A dor já passou."
Alice não respondeu.
Ela fechou os olhos, fingindo estar dormindo.
Mas as lágrimas escorriam pelas bochechas, molhando suas têmporas.
Atrás dela, ele pensava que ela estava dormindo e continuava a massagear suavemente sua barriga.
Ela sentia o calor escaldante vindo da ponta dos dedos dele, e suas forças pareciam ter sido drenadas, restando apenas uma dor sem fim.
Ela contava os dias em sua mente, repetidamente.
Faltam apenas treze dias.
Aguente firme, Alice. Faltam apenas treze dias, e você não terá mais nenhum vínculo com este homem.
Durante os dias do período menstrual de Alice, Hugo cancelou todo o trabalho para ficar em casa cuidando dela.
Quando ela começou a melhorar, ele finalmente a soltou relutante para ir à empresa resolver o acúmulo de assuntos.
Assim que ele saiu, Alice pegou seus documentos e foi à delegacia para cancelar seu registro civil.
O atendente pareceu surpreso: "Senhorita, apenas pessoas falecidas podem realizar este procedimento."
Alice assentiu: "Serei completamente removida deste mundo em dez dias. Por favor, poderia fazer isso antecipadamente para mim?"
O atendente pensou que ela estivesse com câncer e, com um olhar de piedade, acabou processando o pedido.
Segurando o documento carimbado, Alice deu um suspiro de alívio, exibindo um sorriso de libertação.
Em breve, não haveria mais ninguém chamada Alice neste mundo.
Hugo, nunca mais encontrará Alice!
Ela caminhou lentamente para casa. Ao passar pelo ensino médio, olhou para o muro amarelado, hesitou por um momento, mas entrou.
Assim que cruzou a entrada, inúmeras lembranças da juventude vieram à tona.
O campo de futebol onde ele a puxava para correr oitocentos metros, a biblioteca onde ele roubava beijos enquanto ela fingia dormir, a janela da sala de aula onde ele lhe trazia lanches...
A cada passo, Alice lembrava de mais memórias relacionadas a Hugo.
Por fim, ela parou perto de uma grande árvore no jardim.
Vendo aquele pinheiro, que antes batia em seu ombro, agora grande e imponente, os olhos de Alice se umedeceram.
No aniversário de seus dezesseis anos, para lhe preparar uma surpresa, Hugo desligou a eletricidade do prédio da escola e a levou para fora às escondidas.
Ele a levou até aquela árvore, deu-lhe um presente de aniversário, as rosas que ela mais amava, cantou parabéns e, por fim, enterrou uma carta debaixo da árvore.
Na época, ela quis saber o conteúdo da carta, mas ele apenas riu e esfregou o nariz contra o dela.
"Alice, isso é um segredo."
"Quando tivermos oitenta anos, com cabelos brancos, trarei você aqui novamente para lermos esta carta juntos, está bem?"
Naquela época, ninguém poderia imaginar.
Que nesta vida, eles nunca mais envelheceriam juntos.
Alice agachou-se e começou a remover a terra com uma pedra.
Após dez minutos cavando, ela desenterrou um frasco de vidro hermeticamente fechado.
O papel estava desbotado, mas ainda era possível identificar a caligrafia de Hugo.
"Hugo, aos oitenta anos. Olá, aqui é o Hugo aos dezessete anos."
"Neste momento, você certamente está lendo esta carta ao lado da Alice, talvez com seus filhos e netos por perto. Fico muito feliz que, dos dezessete aos oitenta, você a amou por tantos anos, mantendo sua promessa original. Esse era o desejo da minha vida, e fico feliz que você tenha conseguido. Dizem que os sentimentos mudam instantaneamente, mas o amor de Hugo por Alice nunca mudará."
"Por favor, diga à Alice que esta vida não é o fim. Na próxima, na seguinte, na próxima... eu ainda quero estar com Alice. Hugo e Alice, continuaremos nos amando por muito, muito tempo."
Página inteira cheia de palavras, Alice lia linha por linha. Vendo aquele amor profundo, seus olhos se encheram de lágrimas e seu peito doía intensamente.
De repente, o celular no bolso tocou.
Era Isabela.
Ela não queria atender e rejeitou a chamada, mas a outra parte insistia sem parar.
Ela já previa o que viria, então, com as mãos trêmulas, pressionou o botão de atender.
Como esperado, o alto-falante logo transmitiu sons de impactos pesados.
"Hum... Irmão Hugo, você não disse que não me amava? Por que está impacientemente me prendendo debaixo de você novamente?"
Hugo não respondeu.
Apenas se ouvia uma respiração contida ao extremo.
Isabela, insatisfeita, insistia em obter uma resposta.
"Você só não consegue viver sem meu corpo, não é?"
"Eu entendo seus desejos melhor que a Alice, não é?"
"Você não consegue viver sem mim, não é? Você sente tanta falta de mim que não aguenta um dia sem ir para a cama comigo, não é?"
Frase após frase, levando Hugo a um limite onde ele não podia recuar, até que ele finalmente respondeu.
"Sim! Eu sou viciado em você!"
Capítulo 5
No instante em que as palavras terminaram, a chamada também foi encerrada.
Ao olhar para a tela que se apagava, a mão de Alice, que segurava aquela carta, tremia levemente.
De repente, em meio às lágrimas que embaçavam sua visão, ela pareceu ver Hugo aos dezessete anos.
O jovem, vestindo o uniforme escolar azul e branco, estava sob uma árvore de plátanos, com os olhos avermelhados enquanto olhava para ela com angústia, dizendo algo repetidamente.
As lágrimas turvaram sua visão, e ela não conseguia ver com clareza.
Apenas através da leitura labial, ela confirmou repetidas vezes, e finalmente entendeu a frase que ele queria lhe dizer.
"Alice, não perdoe."
"Não o perdoe."
Naquele momento, todas as suas emoções pareceram desmoronar instantaneamente. A dor aguda que vinha de seu coração a fez arfar, arqueando o corpo de agonia.
Por fim, sem conseguir mais conter-se, ela agarrou a carta e agachou-se no chão, chorando.
Tudo bem.
Hugo.
Eu não perdoarei.
Eu nunca perdoarei.
Por vários dias consecutivos, Hugo não voltou para casa.
Até o dia do quarto aniversário de casamento deles.
Assim que acordou, Alice viu o vestido e as joias que Hugo havia preparado para ela.
A secretária, que esperava ao lado, fez uma pequena reverência, com um tom de voz cheio de respeito.
"Sra. Alice, o Sr. Hugo tem preparado o banquete de celebração durante todos esses dias. Por favor, compareça esta noite."
Alice ouviu em silêncio, sem dizer uma palavra.
Foram três dias de desaparecimento, preparando uma surpresa de aniversário?
Ou estaria ele enroscado nos lençóis de outra pessoa?
Ela não sabia, e nem queria perguntar.
À noite, Alice vestiu o que ele havia preparado e seguiu a secretária até o local da festa.
Hugo a esperava na porta. Assim que a viu, tirou o próprio casaco e colocou sobre os ombros dela.
Ele a abraçou e caminhou rapidamente para o salão, sem tempo nem para cumprimentar os convidados, o que fez seus amigos comentarem com escárnio.
"Assim que a esposa chega, ele não vê mais ninguém. Olhem só esse romântico incurável!"
"Todo ano o aniversário de casamento é tão grandioso quanto um casamento. Hugo, você mima tanto sua esposa que nos faz passar vergonha!"
"Quem diz que não? Minha esposa me cobra todo dia para aprender com você, mas sou um homem comum, não tenho esse gene romântico do Hugo!"
Ao ouvir as provocações dos amigos, Hugo deu um leve sorriso.
"Vocês não conseguiriam aprender. No mundo, nunca haverá outra pessoa que ame Alice tanto quanto eu."
Diante dos olhares invejosos que vinham de todos os lados, Alice não teve reação alguma.
Durante toda a noite, sob a desculpa de estar com frio, Alice permaneceu sentada no sofá.
Ela observava Hugo se inclinar para ajustar a barra do seu vestido com seriedade; via-o circular pela multidão com uma taça na mão, aceitando os parabéns; observava-o retornar ao seu lado de tempos em tempos para lhe oferecer sobremesas deliciosas...