— O procedimento médico foi concluído com sucesso, sinto muito não ter incluído você na tomada de decisão prévia.
Jonathan recuou um passo com o impacto das palavras, demonstrando uma instabilidade física imediata, como se tivesse recebido um golpe físico.
A palidez tomou conta do rosto dele e os lábios tremeram antes que conseguisse articular o questionamento:
— Qual a justificativa para agir dessa forma?!
— Nós havíamos estabelecido um acordo de convivência recente, não é verdade?
— Por que recorrer a uma medida tão drástica com o nosso futuro?
Tomado por um descontrole emocional repentino, ele segurou os papéis do relatório médico com força e rasgou as folhas em vários pedaços.
Os fragmentos de papel se espalharam pelo chão da sala de estar, refletindo a destruição do vínculo conjugal deles.
— Qual o propósito dessa encenação? Você manteve uma postura dissimulada comigo o tempo todo? — Os olhos dele estavam vermelhos pela agitação e pelo choro iminente, entregando uma mistura de desespero e indignação. — Você fingiu aceitar as minhas desculpas e simulou que a rotina havia voltado ao normal apenas para desestruturar a minha postura neste momento?
— Enquanto eu detalhava os nossos planos e a nossa estabilidade futura, o que passava pela sua cabeça?
A voz dele saiu embargada, fixando o olhar em Clarissa em busca de alguma justificativa que fizesse sentido:
— Clarissa, como você consegue exercer tamanha frieza com a nossa história?
Clarissa limitou-se a encará-lo com uma fisionomia que misturava desprezo e total desinteresse pelas justificativas dele.
— Jonathan, falta legitimidade na sua indignação para falar em frieza comigo — ela rebateu, mantendo a voz firme e controlada. — Onde estava a sua preocupação com a integridade da nossa história no momento em que você compartilhava a intimidade com a Gabriela no quarto da cobertura?
— Eu não admito que você reduza a situação a... — ele tentou interrompê-la com gestos defensivos.
— Exijo que você escute os fatos por completo — Jonathan insistiu de forma ríspida, tentando retomar o controle da narrativa. — A Gabriela mantinha uma posição de dependência financeira com o Sr. Zanini antes de ingressar na nossa operação, presenciei a dinâmica dos dois em vários eventos corporativos do setor.
— No ano passado, o vínculo entre eles foi desfeito de comum acordo por interesse de ambas as partes.
Ele falava de forma acelerada, tentando expor a fragilidade do histórico da funcionária para atenuar o peso dos próprios atos na mente de Clarissa:
— Foi justamente essa facilidade de contexto que motivou a minha escolha por ela. A relação servia apenas como entretenimento passageiro na minha rotina, sem qualquer possibilidade de interferir no espaço que é seu por direito no casamento.
— ... —
Clarissa franziu a testa ao escutar a argumentação, exibindo uma fisionomia de profundo nojo.
— Jonathan, se a sua justificativa envolvesse algum tipo de sentimento legítimo pela moça, eu poderia encarar o cenário com algum respeito; da forma como você expõe as coisas, a sua postura se torna apenas repulsiva e degradante para mim.
Dito isso, ela cortou o contato visual, caminhou até o móvel de apoio e retirou da bolsa os documentos formais de dissolução do casamento, deixando os papéis sobre a mesa de centro com um posicionamento definitivo:
— Assine a documentação agora mesmo e evite o prolongamento desnecessário desse desgaste para ambos.
A resolução dela era final, focada apenas em encerrar os trâmites legais do divórcio e iniciar um novo percurso longe da influência dele.
21
O período de reflexão do divórcio funcionava como uma zona de amortecimento, posicionada bem no meio do casamento rompido de Clarissa e Jonathan.
Durante essa fase tão específica, Clarissa optou por viajar sozinha para Gramado, buscando reencontrar aquela antiga aspiração que havia sido despertada em seu peito.
A última vez em que Jonathan mencionara com tanto entusiasmo a ideia de passear em Gramado foi como uma pedra lançada em um lago calmo, gerando ondas nos pensamentos de Clarissa, despertando o desejo profundo de caminhar pelo centro da cidade e respirar aquele ar fresco.
Resgatando os tempos de faculdade, nos períodos em que não tinha aulas, Clarissa dividia seu tempo entre as leituras na biblioteca e longas caminhadas pelas esquinas charmosas daquela região serrana.
Cada detalhe da arquitetura e das árvores locais parecia carregar fragmentos de boas memórias, transmitindo uma sensação de paz e bem-estar toda vez que ela passava por ali.
Para esta viagem, Clarissa organizou a hospedagem com bastante antecedência em uma pousada de uma conhecida de longa data.
A proprietária do estabelecimento tinha um perfil interessante: era Melisa, uma colega de faculdade de Clarissa, nascida na própria região e vinda de uma família estruturada, o que a poupava de pressões financeiras; após a graduação, ela decidira seguir sua vocação abrindo aquela pousada acolhedora em uma das vias mais bonitas da cidade.
Por estarem na baixa temporada, a movimentação de turistas em Gramado estava reduzida, refletindo-se também no número discreto de hóspedes na pousada naquele período.
Logo após se acomodar na pousada, Clarissa sentou-se na área externa sob a sombra de uma árvore, mantendo uma xícara de chá aquecida sobre a mesa enquanto fechava os olhos para desfrutar daquele momento de calmaria.
A quietude foi interrompida pelo som do sino fixado na porta de entrada da pousada. Em seguida, uma voz conhecida ecoou no ambiente:
— Gostaria de fazer a reserva de um quarto individual.
O fluxo de ar travou nos pulmões de Clarissa por um segundo, sentindo um impacto repentino no peito.
Mudando de posição lentamente, ela direcionou o olhar para a entrada e deparou-se com Jonathan.
Naquele milésimo de segundo, a mente dela ficou completamente vazia, incapaz de prever que cruzaria com Jonathan justamente naquele período e local.
— Sinto muito, senhor, mas não temos nenhuma acomodação disponível no momento — Melisa interveio com um sorriso profissional no rosto, mantendo a firmeza na voz.
Jonathan franziu a testa ao escutar a negativa, exibindo uma fisionomia desconfiada:
— Como isso seria possível?
Na análise dele, considerando a baixa temporada da região, a pousada ter atingido a lotação máxima de forma exata parecia uma justificativa sem coerência.
— É a nossa realidade atual, senhor — Melisa sustentou a resposta com simpatia, embora o olhar transmitisse um aviso implícito. — Adotamos como diretriz não aceitar novos registros a partir do dia de hoje.
A explicação foi dada com leveza, mas funcionou como um limite claro para impedir o acesso dele.
Jonathan sentiu o incômodo da rejeição direcionada, mudando a fisionomia imediatamente.
Ele tinha clareza de que aquela restrição era fruto de um alinhamento prévio entre Clarissa e a proprietária, mas recusava-se a aceitar o bloqueio sem tentar uma saída.
— Tudo bem, não tenho interesse na hospedagem, vim apenas falar com uma pessoa — ele mudou a abordagem, tentando contornar a proibição para garantir um contato com Clarissa de qualquer forma.
— Contudo, a hóspede em questão não demonstra a menor disposição para atendê-lo.
O sorriso permanecia no rosto de Melisa, mas os olhos transmitiam uma rigidez absoluta, sinalizando que ele não deveria insistir naquela conduta.
— Caso o senhor decida permanecer no local contra a vontade dela, serei obrigada a acionar as autoridades de segurança imediatamente — Melisa elevou o tom de voz com seriedade, deixando claro que não toleraria tumultos no estabelecimento e que protegeria o espaço pessoal de Clarissa.
Jonathan sentiu a frustração crescer, mas percebeu a falta de alternativas no momento.
Incapaz de aceitar o silêncio, ele chamou em tom alto na direção onde Clarissa estava sentada:
— Clarissa!
A voz dele carregava uma mistura de urgência e apelo, buscando resgatar qualquer vestígio da convivência de anos para obter uma resposta.
No entanto, Clarissa manteve a atenção fixa na tela do celular, agindo como se os chamados de Jonathan fossem um ruído de fundo sem importância, sem esboçar qualquer reação.
Naquele estágio, ela sentia apenas repulsa e cansaço em relação à presença dele, priorizando a distância e o isolamento de qualquer conflito.
Assim que ele deixou o local, Clarissa direcionou o olhar para Melisa com uma expressão intrigada:
— Como você conseguiu identificar o propósito da vinda dele de forma tão imediata?
Para Clarissa, o surgimento repentino de Jonathan no local e a reação segura da amiga pareciam uma coincidência incomum.
— Você mantinha registros fotográficos de vocês dois juntos nas postagens antigas da internet — Melisa justificou com bom humor, demonstrando percepção afiada.
Clarissa recordou-se de que, no período que antecedeu o casamento, realmente compartilhara algumas imagens do ensaio fotográfico na rede.
Embora as configurações do seu perfil limitassem a exibição e muito tempo tivesse se passado desde então, a amiga guardara o detalhe na memória.
— Situação constrangedora — Clarissa comentou com um sorriso amargo, deixando transparecer a desilusão. — O divórcio está em andamento, estamos cumprindo os prazos legais da separação.
Exteriorizar o cenário trazia um misto de sentimentos complexos, unindo a tristeza pelo desfecho da história deles ao receio sobre as incertezas da nova rotina.
— Não há motivo para constrangimento algum entre nós, saiba que estou à disposição para apoiar você no que for necessário nesta fase. Embora eu não tenha seguido a carreira jurídica após a formatura, as minhas colegas de turma atuam como advogadas renomadas no setor de família — Melisa ofereceu o suporte de forma genuína, tentando tranquilizar Clarissa diante do desgaste da situação.