— O que acha de decolarmos amanhã na parte da tarde? — ele questionou, mostrando as opções de assentos disponíveis com os olhos brilhando de expectativa, projetando uma harmonia que não existia.
— Chegamos no aeroporto de Porto Alegre no fim do dia, pegamos o carro alugado para subir a serra, jantamos um fondue no centro de Gramado e depois podemos caminhar pelos arredores do Lago Negro à noite.
Ele detalhava o roteiro com uma animação crescente, resgatando um entusiasmo que parecia ignorar os traumas recentes do casal.
— Qual era o nome daquela cafeteria colonial charmosa que você comentava? Aquela com a vista linda para o vale e que serve os melhores doces?
— Café da Velha Infância — ela respondeu com a voz pausada.
Ele assentiu com a cabeça, lembrando de outro detalhe da conversa de anos atrás:
— E aquela bebida quente com especiarias que te dava enjoo só de sentir o cheiro?...
— Vinho quente — ela deu um sorriso contido, completando a frase.
— Isso mesmo! Todo mundo elogia a receita de lá, quero fazer questão de experimentar desta vez.
A fisionomia dele transmitia uma espontaneidade quase infantil, um vislumbre do jovem de antes que tentava apagar a gravidade dos fatos atuais através de planos futuros.
Ela observou aquela encenação com um distanciamento frio sob a aparência dócil.
Ela quebrou a empolgação dele com total suavidade:
— As primeiras semanas exigem cuidados extremos e repouso, não haverá possibilidade de deslocamento para mim.
Ele travou por um instante, perdendo parte do sorriso ao processar a resposta.
Em seguida, tentou disfarçar o incômodo dando um leve toque na própria testa, demonstrando desatenção:
— É verdade, falha minha agir por impulso e esquecer as recomendações médicas.
— Sem problemas, organizamos essa viagem assim que o bebê nascer. Faço questão de registrar cada momento de vocês dois juntos por lá!
Ele tentou recuperar o otimismo, projetando uma estabilidade familiar que ela sabia ser impossível de se concretizar.
— Tudo bem — ela limitou-se a dizer, mantendo a expressão vazia.
Ela tinha clareza de que todos aqueles planos representavam apenas uma tentativa desesperada dele de manter o controle sobre a situação.
Sua postura em relação ao casamento continuava firme e sem espaço para retornos.
19
Ela deixou a unidade de saúde com o corpo debilitado pelo desgaste do procedimento.
O pós-operatório imediato provocava uma sensação de tontura e exaustão física.
Ao checar o celular na saída, notou várias chamadas perdidas da sua mãe.
Ainda assimilando o momento, ela retornou a ligação para entender o motivo da insistência.
— Clarissa, a novidade da gestação se confirmou? — A voz da mulher entregava uma satisfação evidente logo no primeiro segundo de chamada.
— O Jonathan entrou em contato com você? — ela questionou, sentindo o peso da rapidez com que a informação havia circulado.
— O Arthur precisa de apoio para fechar os custos do carro novo da sua irmã, e como a situação aqui em casa está apertada, recorri ao Jonathan para resolver essa pendência. Agora o enxoval dela está garantido e ela ganha respeito na nova família.
A justificativa foi dita com total naturalidade, como se o patrimônio do genro estivesse à disposição para suprir as demandas financeiras do resto dos familiares.
Ela sentiu o sangue subir à cabeça, tomada por uma indignação difícil de conter:
— Você perdeu o senso de limite, mãe? Se havia uma demanda financeira, a cobrança deveria ser direcionada a mim, por que envolver o Jonathan nisso?
— Você não entende a dinâmica das coisas, o papel dele é dar suporte para a família da esposa. Ele já se comprometeu a ajudar na aquisição do imóvel deles no futuro, esse valor de agora não faz nem cócegas no faturamento dele!
A mulher manteve a argumentação firme, reforçando a percepção de que a união servia apenas como patrimônio familiar, ignorando qualquer limite de privacidade da filha.
— Finalmente você agiu com inteligência e garantiu a sua permanência nessa posição, a sua última vinda para o interior me deixou preocupada com a possibilidade real de uma separação.
Ela continuava ditando as regras do telefonema, sem perceber o limite do esgotamento dela.
Ela apertou o aparelho contra o ouvido com as articulações dos dedos brancas pela força do movimento, respirou fundo e cortou o monólogo da mãe com total firmeza:
— Sua previsão falhou. O processo de divórcio com o Jonathan já foi iniciado.
— O procedimento de interrupção da gravidez foi concluído minutos atrás, não há mais nenhuma gestação em game!
A revelação funcionou como um choque térmico do outro lado da linha, silenciando as cobranças da mãe de forma imediata.
Assim que encerrou a chamada com a mãe, antes mesmo de conseguir deixar o saguão do hospital, o celular tocou novamente com o nome da sogra no visor.
— Clarissa, o Jonathan me atualizou sobre a novidade da gravidez — Dona Helena iniciou o diálogo com um tom de falsa cordialidade, mas a sequência da fala revelou a real intenção do contato.
— Minha recomendação é que, ao atingir o quarto mês, você realize os exames necessários para checar o sexo da criança; se for uma menina, o ideal é interromper o processo o quanto antes.
As instruções foram ditas com uma frieza assustadora, tratando a situação como uma escolha de catálogo.
— Não veja isso como uma afronta, o mercado de pretendentes para um homem na posição do Jonathan hoje é extremamente competitivo, você precisa ter clareza disso — Dona Helena continuou, tentando diminuir a importância de Clarissa na estrutura do casamento.
— Recentemente, em um evento social da elite, conversei com uma jovem de excelente família que me garantiu o seguinte: "Se o seu filho assinar o divórcio, assumo o compromisso imediatamente e faço questão de gerar três herdeiros homens para dar continuidade ao sobrenome de vocês!"
A menção ao episódio servia apenas como forma de coerção psicológica.
— Estou pontuando esse cenário apenas para que você compreenda as engrenagens do meio em que vive, não que eu deseje o fim da união de vocês de forma imediata.
Ela continuava com as justificativas arrogantes, e ela permitiu que a idosa concluísse o raciocínio sem interrupções antes de responder de forma direta.
— A identificação do sexo não será necessária, pois o procedimento de retirada já foi executado por recomendação médica.
— Aproveito para informá-la de que o vínculo matrimonial com o seu filho deixa de existir a partir de hoje.
Ela cortou a ligação imediatamente, recusando-se a dar espaço para qualquer reação ou comentário adicional por parte da mulher.
O foco dela estava voltado exclusivamente em encerrar aquele ciclo de humilhações e reestruturar a própria vida longe dali.
Em poucos minutos, o celular foi inundado por notificações sequenciais de mensagens dele, seguidas por chamadas insistentes que faziam o aparelho vibrar sem parar.
Ela ignorou os alertas, mantendo o telefone em silêncio sobre o balcão enquanto concentrava suas energias em organizar seus pertences pessoais nas malas dentro do apartamento.
20
Olhando em volta, ela constatou o volume impressionante de objetos acumulados ao longo dos anos.
A aquisição daquele imóvel de alto padrão havia apagado o receio dos tempos de kitnet, quando a possibilidade de uma mudança repentina impunha um limite drástico no consumo de bens duráveis.
Na época da mudança, a sensação de estabilidade gerou a ilusão de que permaneceriam naquele endereço por toda a vida.
Por conta disso, toda escolha de decoração ou utensílio doméstico era feita pensando em agregar valor à rotina do casal ou em preparar o ambiente para a chegada dos futuros filhos.
Os jogos de louça importados serviam para os momentos de confraternização ao redor da mesa;
As almofadas de tecidos nobres garantiam o aconchego nos momentos de descanso na sala;
E as peças do enxoval infantil guardadas no armário representavam a expectativa frustrada de um recomeço familiar.
Hoje, toda aquela materialidade trazia apenas o peso da desilusão.
Encarar aqueles objetos trazia uma sensação de melancolia profunda, restando apenas a tarefa burocrática de embalar os pertences e deixar em definitivo o local que foi cenário de tantas quebras de expectativa.
O sinal sonoro da fechadura digital começou a emitir bipes repetidos de erro no hall de entrada, quebrando o silêncio pesado da sala.
Jonathan tentava acionar o mecanismo com movimentos desajeitados e, pela pressa e pelo nervosismo evidente, errou a combinação numérica duas vezes antes de conseguir destravar a porta.
Ao entrar no apartamento, he caminhou a passos largos na direção de Clarissa com uma fisionomia transtornada, exigindo explicações em tom alterado:
— Clarissa, que história é essa de ir falar em separação com a minha mãe?
— A informação chegou rápido até você, não é? — Clarissa respondeu sem alterar a expressão facial, recolhendo os laudos da internação médica e estendendo os papéis diante dele.
— Minha intenção era formalizar o comunicado assim que você retornasse da empresa, mas a intromissão da sua mãe antecipou o assunto.
O tom de voz dela era desprovido de qualquer traço de emoção, como se tratasse de um tema trivial da rotina corporativa: