Ele soltou uma risada curta, lembrando da trapalhada com um tom de leveza que pareceu ignorar a gravidade da situação atual.
Ela observou aquela encenação com um distanciamento frio sob a aparência dócil.
Ela tinha clareza de que todos aqueles planos representavam apenas uma tentativa desesperada dele de manter o controle sobre a situação.
Sua postura em relação ao casamento continuava firme e sem espaço para retornos.
A rotina incluiu trajetos diários compartilhados nos vagões lotados do metrô nos horários de pico.
O espaço era disputado centímetro por centímetro, exigindo atenção para não perder o contato no meio do fluxo de passageiros.
Ele mantinha os dedos firmes ao redor da mão dela durante todo o percurso.
Em uma manhã específica, a superlotação gerou um desentendimento ríspido entre dois usuários por causa de espaço na plataforma, evoluindo rapidamente para agressão física.
Ela estava posicionada bem próxima ao foco do conflito e, antes que pudesse recuar, ele utilizou o próprio corpo como escudo para protegê-la do tumulto.
Ela sentiu o impacto forte de um dos envolvidos contra as costas do marido no meio da confusão. Ele manteve a posição apesar do baque, estabilizando os pés no chão para garantir a segurança dela até que o vagão fechasse as portas.
Assim que o trem iniciou o movimento, ele a conduziu para um canto mais calmo.
Ao chegarem em casa no fim do dia, ela notou uma marca roxa extensa na região atingida.
Sentindo-se culpada pelo ferimento dele, ouviu o parceiro desdenhar do incômodo com um sorriso calmo:
— O impacto foi pequeno perto do alívio de ver que você saiu sem nenhum arranhão, eu não me perdoaria se algo acontecesse com você sob a minha responsabilidade.
17
Naquela época, eles moravam em uma kitnet que custava apenas quinhentos reais por mês.
O lugar tinha uns míseros dez metros quadrados, onde mal cabiam uma cama, um guarda-roupa e uma escrivaninha, além de um banheiro tão apertado que era difícil até de se virar lá dentro.
Não havia ar-condicionado e, se ligassem ao menos um ventilador, a fiação frágil caía na mesma hora.
Nos dias de calor mais intenso, a única saída era ir ao banheiro de meia em meia hora para tomar um banho frio, tentando baixar a temperatura do corpo de alguma forma.
Apesar de a vida ser muito dura, eles eram felizes.
Aquele espaço minúsculo de dez metros quadrados não conseguia sufocar o desejo que tinham pelo futuro, eles seguravam seus sonhos, apoiavam-se um no outro e acreditavam que um dia alcançariam uma vida melhor.
No entanto, o tempo passou, e hoje eles moravam em um apartamento na Vila Nova Conceição que custava uma fortuna por metro quadrado, parecendo ter tudo o que sempre idealizaram, mas, na realidade, viviam de aparências, e cada dia juntos se arrastava como se fosse um ano.
Aquele afeto profundo de antes e a cumplicidade de quem enfrentou a lama desapareceram diante da rotina desgastante e das tentações da vaidade, restando apenas um vazio amargo.
Duas semanas se passaram daquela forma, em uma calmaria que escondia a gravidade da situação.
Ele levou a parceira ao hospital, e as paredes brancas, o odor de antisséptico e a movimentação constante dos funcionários criavam um clima pesado no ambiente.
Eles aguardavam em silêncio na recepção pelo resultado do exame de sangue.
A fisionomia dele revelava uma mistura de ansiedade e expectativa, ele buscava o olhar dela com frequência, carregando sentimentos conflitantes que iam do arrependimento pelos erros cometidos ao entusiasmo por um recomeço.
Finalmente, o relatório médico foi entregue.
No instante em que o profissional confirmou a gestação, ele reagiu como se recebesse um choque de energia, tomado por uma euforia que não conseguia controlar.
— Clarinha! Até o destino decidiu me dar uma nova chance.
A voz dele falou pela emoção e seus olhos se encheram de lágrimas.
O olhar dele, sempre firme, entregou-se à fragilidade, e uma lágrima correu pelo seu rosto, caindo no piso claro da recepção.
— Estava escrito que teríamos outro fruto da nossa união.
Ele repetia para si mesmo, enxergando aquela gestação como uma intervenção divina para salvar o relacionamento, o elemento que faltava para unir os pedaços da história deles.
Enquanto isso, no corredor extenso do hospital, o fluxo de pessoas continuava normal.
Pacientes caminhavam apressados para as consultas e acompanhantes davam passos lentos ao lado de familiares.
Várias pessoas observavam a cena ao passarem pelos dois com fisionomias curiosas.
Diante de todos, ele agia como qualquer futuro pai tomado pelo entusiasmo, exibindo um sorriso largo e com as mãos trêmulas pelo impacto da notícia, ansioso para dar início àquela nova fase.
Ela, contudo, permaneceu estática.
Seu olhar transmitia apenas frieza e distanciamento, mostrando que a novidade não alterava seus sentimentos.
No fundo da sua mente, as feridas causadas pela deslealdade dele eram profundas demais, e a confirmação da gravidez não tinha o poder de apagar o passado ou devolver a confiança perdida.
Ela se sentia como uma espectadora alheia à situação, observando o teatro dele sem se envolver.
A partir daquele diagnóstico, ele mudou completamente de postura, desdobrando-se em atenções com ela, tentando resgatar o carinho dos primeiros anos.
Ele cumpriu o que prometera e cortou de forma definitiva qualquer interação com a outra, eliminando os canais de contato.
A funcionária, no entanto, não aceitou o descarte com facilidade.
Impossibilitada de falar com ele, ela conseguiu o número particular de Clarissa por meio de conhecidos e enviou uma solicitação de contato.
Assim que ela aceitou a conexão, a jovem descarregou uma série de arquivos de uma só vez.
Eram capturas de tela dos diálogos com o empresário, repletos de termos íntimos e provocações que agrediam a visão de Clarissa;
Havia também registros fotográficos dos mimos oferecidos por ele, desde bolsas de grife a acessórios caros, escancarando a dedicação que ele demonstrava fora de casa.
No final do envio, a jovem acrescentou um texto carregado de ressentimento:
"Desejo que essa gestação termine da pior forma para você e para o bebê!"
A agressividade da mensagem era evidente, transmitindo uma energia pesada.
Porém, aquela praga não teria o efeito desejado.
Porque ela já havia tomado uma decisão interna sobre o rumo daquela situação.
18
Depois de suportar tantas quebras de confiança e abusos, Clarissa sentia apenas desinteresse e repulsa diante do casamento, dele e da própria perspectiva de dar andamento àquela gestação.
Dessa forma, aproveitando um momento em que ele reduziu a vigilância, ela se dirigiu secretamente a uma clínica especializada para agendar a interrupção da gravidez.
No consultório, o especialista adotou uma postura séria ao confirmar a intenção dela.
Ciente do histórico clínico de Clarissa, que já apresentava uma estrutura uterina fragilizada, baixa taxa de fertilidade e o desgaste de uma perda gestacional tardia anterior, o médico fez um alerta severo:
— Se prosseguirmos com esse procedimento nas suas condições atuais, existe um risco real de infertilidade permanente. Caso mude de ideia no futuro, as chances de uma nova gestação serão praticamente nulas.
O profissional insistiu no aviso, pedindo que ela avaliasse as consequências com cautela.
Clarissa hesitou por apenas um segundo, mas manteve o tom firme ao responder:
— Agradeço a orientação, doutor, mas a minha decisão está tomada.
A determinação dela era absoluta, convicta de que expor uma criança a um ambiente familiar destruído e sustentado por aparências seria um erro muito maior do que arcar com as limitações do próprio corpo.
Toda vez que a lembrança do primeiro filho surgia na mente, ela sentia um aperto no peito.
A perda daquela criança funcionou como um divisor de águas em sua vida, retirando a venda dos seus olhos e permitindo enxergar a real face do homem com quem compartilhava a rotina.
Alheio a tudo isso, ele vivia em função da expectativa da paternidade.
Ele resgatou os pertences de bebê que estavam guardados no depósito da garagem e passou a higienizar cada item com dedicação no apartamento.
As roupas pequenas e os acessórios ganhavam um aspecto renovado sob o cuidado dele, que parecia ansioso pelo nascimento.
No meio da tarefa, uma ideia pareceu animá-lo.
Ele ergueu a fisionomia na direção dela, propondo com entusiasmo:
— Clarinha, vou solicitar alguns dias de licença na empresa para viajarmos juntos para Gramado.
Gramado era o destino que ela sempre mencionava com carinho, lembrando os passeios da época de estudante.
Ela nutria um afeto especial pelo clima e pelas paisagens daquela região serrana.
No início do relacionamento, ela insistia para que fizessem esse trajeto juntos, desejando apresentar os locais que conhecia e desfrutar do ambiente charmoso da cidade.
Contudo, naquela fase, ele estava totalmente focado em expandir os negócios e não encontrava espaço na agenda para viagens de lazer.
Mais tarde, com a situação financeira resolvida, a rotina dele passou a ser ditada por jantares corporativos e reuniões com investidores, adiando o plano sucessivas vezes.
Na sequência, veio o período delicado da gestação anterior, que exigiu repouso absoluto e suspendeu qualquer deslocamento.
A viagem acabou virando um plano distante.
Agora, tomado pelo impulso de agradar, ele largou as caixas organizadoras no chão e acessou os aplicativos de viagem no celular para verificar os horários dos voos.