14
Aquele processo de retirada do feto trouxe para Clarissa todas as dores e reações físicas de um parto real.
Com o agravante de que, diante do vazio da perda, o desgaste pessoal se tornou incomensurável.
Imobilizada na maca do centro cirúrgico, seus pensamentos seguiam direções caóticas.
Ela chegou a alimentar a ilusão de que tudo não passava de uma falha dos exames e que, ao nascer, o bebê respiraria normalmente, trazendo o final feliz que ela tanto desenhara.
Mas aquilo era apenas o reflexo do desespero absoluto; a realidade continuava fria, obrigando-a a digerir o luto em total isolamento.
Após enfrentar aquele período traumático no hospital, Clarissa foi tomada por uma apatia profunda, escolhendo o silêncio absoluto.
Durante todo o período de repouso pós-parto, ela permaneceu estática na cama, encarando a superfície do teto sem pronunciar uma palavra, indiferente ao movimento ao seu redor.
Jonathan, por sua vez, dedicou-se integralmente aos cuidados com a esposa.
Ele iniciava o dia cedo, selecionando os melhores mantimentos nos mercados locais para preparar caldos nutritivos na cozinha do apartamento.
Cada refeição servida carregava o empenho dele em acelerar a recuperação física de Clarissa, tentando aliviar o sofrimento dela através daquela presença constante.
Finalmente, após semanas daquela rotina de dedicação, Clarissa pareceu encontrar forças para romper o isolamento.
Ela ensaiou os primeiros movimentos e conseguiu quebrar o silêncio.
Naquele instante, a dor guardada e o desejo de superação transbordaram de uma só vez.
Ela buscou o amparo de Jonathan com desespero, segurando-o pelos braços com os ombros trêmulos e deixando as lágrimas caírem sem controle, enquanto pedia:
— Jonathan, por favor, vamos tentar ter outro filho.
Na mente fragilizada de Clarissa, aquela parecia ser a única rota viável para escapar do abismo emocional em que se encontrava.
Ela acreditava piamente que gerar uma nova vida traria o preenchimento necessário para aquele vazio imenso, devolvendo algum propósito para a sua rotina.
Jonathan ouviu o apelo, mas não respondeu de imediato.
Ele desceu os olhos lentamente e tocou com delicadeza a textura irregular das cicatrizes no abdômen dela.
Aquelas marcas funcionavam como testemunhas silenciosas do preço alto que o corpo dela já havia pago naquela jornada.
Após uma pausa longa, ele ergueu o rosto, encarando o semblante fragilizado da esposa com uma suavidade firme:
— Clarinha, o impacto desse último processo foi muito severo para a sua saúde. Precisamos focar na sua total recuperação antes de planejarmos qualquer nova tentativa.
Naquele momento, Clarissa enxergou a resposta dele como um gesto de puro altruísmo e cuidado, acreditando que ele abria mão dos próprios desejos em nome do bem-estar dela.
Sentiu uma imensa gratidão pela sensibilidade demonstrada pelo companheiro.
Ela mal desconfiava que, enquanto tentava sobreviver ao luto e buscava motivos para continuar, Jonathan já mantinha um envolvimento paralelo fora do casamento.
Toda aquela atenção e os cuidados na rotina do lar funcionavam também como uma cortina de fumaça, uma estratégia para camuflar a deslealdade dos seus atos.
E ela continuava alheia ao cenário, depositando total confiança nos discursos dele. Uma constatação dolorosa.
Do lado de fora do ambiente, Gabriela exibia os olhos vermelhos e a fisionomia desgastada pelo choro recente.
Limpando o rosto com as mãos, ela deu passos lentos até a saída da sala de audiências.
Ela evitava olhar na direção de Clarissa, mantendo o foco fixo em Jonathan, com uma expressão que misturava fragilidade e dependência.
— Jonathan, eu quero ir embora daqui.
A voz de Gabriela saiu trêmula, reforçando o papel de vítima na situação.
Jonathan permaneceu imóvel ao lado de Clarissa, sinalizando qual era o seu posicionamento ali, e ignorou completamente o apelo da funcionária, tratando-a como se fosse uma completa desconhecida.
Gabriela pareceu paralisar por um segundo diante do desprezo, deixando transparecer o choque e a rejeição.
Mesmo assim, ela tentou uma última investida:
— Chamei um carro por aplicativo, você não quer me acompanhar até o apartamento? Estou assustada com tudo isso.
Jonathan apenas franziu a testa, demonstrando total impaciência com a insistência, e respondeu em tom seco:
— Siga o seu caminho por conta própria, não tenho nenhuma obrigação com a sua rotina. Meu compromisso é acompanhar a Clarissa até a nossa casa.
A resposta curta funcionou como um choque de realidade para Gabriela, minando qualquer expectativa de apoio e desestabilizando o que restava do seu controle emocional.
O olhar dela mudou rapidamente ao se direcionar para Clarissa, carregado de ressentimento.
— Gabriela, mude essa postura agora mesmo — Jonathan interveio com firmeza, subindo o tom para evitar que a funcionária iniciasse um novo confronto ali dentro e complicasse ainda mais a situação.
— Sinto muito, eu...
Gabriela recuou diante da rispidez dele, segurando o choro com dificuldade enquanto justificava com a voz trêmula:
— Foi uma reação impensada, perdi o controle pela pressão do momento, me desculpe.
Nesse meio tempo, o veículo solicitado parou na calçada.
15
Gabriela aproveitou a chegada do transporte para cortar o assunto, virando as costas e entrando no carro com pressa.
A saída apressada deixava evidente o constrangimento e o impacto da rejeição sofrida.
O fechamento da porta pareceu isolar a frustração dela no interior do veículo, deixando apenas Jonathan e Clarissa na calçada do distrito policial.
— Clarinha, eu dou a minha palavra de que qualquer canal de comunicação com ela está encerrado a partir de agora.
Jonathan buscou o olhar dela com uma fisionomia séria, tentando resgatar algum voto de confiança.
— Eu juro pela nossa história que o meu foco é única e exclusivamente você.
Ele segurou a mão dela aplicando uma pressão firme, tentando demonstrar convicção através do contato físico, e passou o trajeto de retorno repetindo as mesmas promessas, na tentativa de fazer com que Clarissa aceitasse o arrependimento como legítimo.
Clarissa mantinha o corpo relaxado no banco do passageiro, escutando o monólogo do marido enquanto as memórias do dia do casamento ressurgiam em sua mente.
Naquela data, sob as luzes do altar e diante de todos os convidados, a atmosfera era de total celebração.
O celebrante conduziu os votos formais com clareza:
"Você promete ser fiel, amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, por todos os dias da sua vida?"
Jonathan, que na época ainda iniciava sua trajetória profissional e não escondia o nervosismo diante da formalidade da transição, respondeu sem hesitação:
"Com certeza, eu prometo!"
Antes mesmo que a cerimônia seguisse para a troca das alianças, ele sentiu a necessidade de quebrar o protocolo e emendou em tom firme:
— Meu compromisso com você é eterno, Clarissa!
O gesto espontâneo provocou um sorriso genuíno nela, tocada pela intensidade do momento.
Os familiares e amigos presentes reagiram com descontração à quebra de formalidade, celebrando a cumplicidade evidente daquele início.
Analisando o cenário atual, Clarissa constatava mentalmente que a eternidade prometida por ele tivera a validade exata de sete anos.
As juras solenes de outrora perderam toda a sustentação diante das conveniências e fraquezas do parceiro.
No passado, a escolha de Clarissa por Jonathan era vista pelos conhecidos como um acerto estratégico, considerando o potencial de crescimento dele.
Para quem observava de fora, a evolução patrimonial dele justificava a dedicação dela em manter o relacionamento ativo.
Clarissa chegou a sentir orgulho daquela trajetória compartilhada, acreditando que a resistência mútua diante das dificuldades iniciais havia blindado o sentimento dos dois.
Hoje, contudo, a clareza era outra: ela percebia que a união resistira apenas enquanto o foco estava voltado para superar as barreiras financeiras cotidianas.
No momento em que o conforto se estabeleceu e as facilidades surgiram, a estrutura do casamento ruiu com extrema facilidade, revelando uma fragilidade assustadora.
Clarissa virou o rosto na direção de Jonathan e determinou com a voz fria:
— Faça a redação de um termo de confissão de infidelidade.
O tom não deixava margem para discussões.
Jonathan obedeceu imediatamente, pegando papel e caneta para redigir o texto conforme solicitado.
Ao concluir o registro, ele ergueu os olhos com um semblante humilde, avaliando as reações dela:
— Se preferir, posso fazer a leitura do documento de joelhos diante de você.
Aposta dele indicava que aceitaria qualquer imposição para evitar o rompimento definitivo.
Clarissa limitou-se a recolher a folha de papel das mãos dele e caminhou direto para o escritório da residência.
Ela acionou o cofre de segurança e guardou o termo junto aos outros documentos civis, respondendo em tom neutro ao retornar:
— Desnecessário o teatro. Minha única intenção é garantir um elemento material robusto de culpa em caso de litígio judicial de partilha.
O pragmatismo dela provocou uma reação imediata de orgulho ferido em Jonathan.
Ele cerrou os dentes, encarando-a com uma fisionomia indignada:
— Clarissa, você está ultrapassando os limites do respeito comigo. Ninguém nunca me tratou dessa forma.
— Você colhe exatamente o cenário que plantou — ela rebateu sem alterar a voz.
O olhar dela transmitia uma mistura de repulsa e desinteresse que pareceu desestabilizar Jonathan por completo, apagando a imagem do homem que ela admirara.
Tomado pela frustração de não conseguir controlar a situação, Jonathan ergueu o braço de forma ríspida.