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《O Recomeço de Clarissa》Capítulo 7

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Aquele processo de retirada do feto trouxe para Clarissa todas as dores e reações físicas de um parto real.

Com o agravante de que, diante do vazio da perda, o desgaste pessoal se tornou incomensurável.

Imobilizada na maca do centro cirúrgico, seus pensamentos seguiam direções caóticas.

Ela chegou a alimentar a ilusão de que tudo não passava de uma falha dos exames e que, ao nascer, o bebê respiraria normalmente, trazendo o final feliz que ela tanto desenhara.

Mas aquilo era apenas o reflexo do desespero absoluto; a realidade continuava fria, obrigando-a a digerir o luto em total isolamento.

Após enfrentar aquele período traumático no hospital, Clarissa foi tomada por uma apatia profunda, escolhendo o silêncio absoluto.

Durante todo o período de repouso pós-parto, ela permaneceu estática na cama, encarando a superfície do teto sem pronunciar uma palavra, indiferente ao movimento ao seu redor.

Jonathan, por sua vez, dedicou-se integralmente aos cuidados com a esposa.

Ele iniciava o dia cedo, selecionando os melhores mantimentos nos mercados locais para preparar caldos nutritivos na cozinha do apartamento.

Cada refeição servida carregava o empenho dele em acelerar a recuperação física de Clarissa, tentando aliviar o sofrimento dela através daquela presença constante.

Finalmente, após semanas daquela rotina de dedicação, Clarissa pareceu encontrar forças para romper o isolamento.

Ela ensaiou os primeiros movimentos e conseguiu quebrar o silêncio.

Naquele instante, a dor guardada e o desejo de superação transbordaram de uma só vez.

Ela buscou o amparo de Jonathan com desespero, segurando-o pelos braços com os ombros trêmulos e deixando as lágrimas caírem sem controle, enquanto pedia:

— Jonathan, por favor, vamos tentar ter outro filho.

Na mente fragilizada de Clarissa, aquela parecia ser a única rota viável para escapar do abismo emocional em que se encontrava.

Ela acreditava piamente que gerar uma nova vida traria o preenchimento necessário para aquele vazio imenso, devolvendo algum propósito para a sua rotina.

Jonathan ouviu o apelo, mas não respondeu de imediato.

Ele desceu os olhos lentamente e tocou com delicadeza a textura irregular das cicatrizes no abdômen dela.

Aquelas marcas funcionavam como testemunhas silenciosas do preço alto que o corpo dela já havia pago naquela jornada.

Após uma pausa longa, ele ergueu o rosto, encarando o semblante fragilizado da esposa com uma suavidade firme:

— Clarinha, o impacto desse último processo foi muito severo para a sua saúde. Precisamos focar na sua total recuperação antes de planejarmos qualquer nova tentativa.

Naquele momento, Clarissa enxergou a resposta dele como um gesto de puro altruísmo e cuidado, acreditando que ele abria mão dos próprios desejos em nome do bem-estar dela.

Sentiu uma imensa gratidão pela sensibilidade demonstrada pelo companheiro.

Ela mal desconfiava que, enquanto tentava sobreviver ao luto e buscava motivos para continuar, Jonathan já mantinha um envolvimento paralelo fora do casamento.

Toda aquela atenção e os cuidados na rotina do lar funcionavam também como uma cortina de fumaça, uma estratégia para camuflar a deslealdade dos seus atos.

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E ela continuava alheia ao cenário, depositando total confiança nos discursos dele. Uma constatação dolorosa.

Do lado de fora do ambiente, Gabriela exibia os olhos vermelhos e a fisionomia desgastada pelo choro recente.

Limpando o rosto com as mãos, ela deu passos lentos até a saída da sala de audiências.

Ela evitava olhar na direção de Clarissa, mantendo o foco fixo em Jonathan, com uma expressão que misturava fragilidade e dependência.

— Jonathan, eu quero ir embora daqui.

A voz de Gabriela saiu trêmula, reforçando o papel de vítima na situação.

Jonathan permaneceu imóvel ao lado de Clarissa, sinalizando qual era o seu posicionamento ali, e ignorou completamente o apelo da funcionária, tratando-a como se fosse uma completa desconhecida.

Gabriela pareceu paralisar por um segundo diante do desprezo, deixando transparecer o choque e a rejeição.

Mesmo assim, ela tentou uma última investida:

— Chamei um carro por aplicativo, você não quer me acompanhar até o apartamento? Estou assustada com tudo isso.

Jonathan apenas franziu a testa, demonstrando total impaciência com a insistência, e respondeu em tom seco:

— Siga o seu caminho por conta própria, não tenho nenhuma obrigação com a sua rotina. Meu compromisso é acompanhar a Clarissa até a nossa casa.

A resposta curta funcionou como um choque de realidade para Gabriela, minando qualquer expectativa de apoio e desestabilizando o que restava do seu controle emocional.

O olhar dela mudou rapidamente ao se direcionar para Clarissa, carregado de ressentimento.

— Gabriela, mude essa postura agora mesmo — Jonathan interveio com firmeza, subindo o tom para evitar que a funcionária iniciasse um novo confronto ali dentro e complicasse ainda mais a situação.

— Sinto muito, eu...

Gabriela recuou diante da rispidez dele, segurando o choro com dificuldade enquanto justificava com a voz trêmula:

— Foi uma reação impensada, perdi o controle pela pressão do momento, me desculpe.

Nesse meio tempo, o veículo solicitado parou na calçada.

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Gabriela aproveitou a chegada do transporte para cortar o assunto, virando as costas e entrando no carro com pressa.

A saída apressada deixava evidente o constrangimento e o impacto da rejeição sofrida.

O fechamento da porta pareceu isolar a frustração dela no interior do veículo, deixando apenas Jonathan e Clarissa na calçada do distrito policial.

— Clarinha, eu dou a minha palavra de que qualquer canal de comunicação com ela está encerrado a partir de agora.

Jonathan buscou o olhar dela com uma fisionomia séria, tentando resgatar algum voto de confiança.

— Eu juro pela nossa história que o meu foco é única e exclusivamente você.

Ele segurou a mão dela aplicando uma pressão firme, tentando demonstrar convicção através do contato físico, e passou o trajeto de retorno repetindo as mesmas promessas, na tentativa de fazer com que Clarissa aceitasse o arrependimento como legítimo.

Clarissa mantinha o corpo relaxado no banco do passageiro, escutando o monólogo do marido enquanto as memórias do dia do casamento ressurgiam em sua mente.

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Naquela data, sob as luzes do altar e diante de todos os convidados, a atmosfera era de total celebração.

O celebrante conduziu os votos formais com clareza:

"Você promete ser fiel, amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, por todos os dias da sua vida?"

Jonathan, que na época ainda iniciava sua trajetória profissional e não escondia o nervosismo diante da formalidade da transição, respondeu sem hesitação:

"Com certeza, eu prometo!"

Antes mesmo que a cerimônia seguisse para a troca das alianças, ele sentiu a necessidade de quebrar o protocolo e emendou em tom firme:

— Meu compromisso com você é eterno, Clarissa!

O gesto espontâneo provocou um sorriso genuíno nela, tocada pela intensidade do momento.

Os familiares e amigos presentes reagiram com descontração à quebra de formalidade, celebrando a cumplicidade evidente daquele início.

Analisando o cenário atual, Clarissa constatava mentalmente que a eternidade prometida por ele tivera a validade exata de sete anos.

As juras solenes de outrora perderam toda a sustentação diante das conveniências e fraquezas do parceiro.

No passado, a escolha de Clarissa por Jonathan era vista pelos conhecidos como um acerto estratégico, considerando o potencial de crescimento dele.

Para quem observava de fora, a evolução patrimonial dele justificava a dedicação dela em manter o relacionamento ativo.

Clarissa chegou a sentir orgulho daquela trajetória compartilhada, acreditando que a resistência mútua diante das dificuldades iniciais havia blindado o sentimento dos dois.

Hoje, contudo, a clareza era outra: ela percebia que a união resistira apenas enquanto o foco estava voltado para superar as barreiras financeiras cotidianas.

No momento em que o conforto se estabeleceu e as facilidades surgiram, a estrutura do casamento ruiu com extrema facilidade, revelando uma fragilidade assustadora.

Clarissa virou o rosto na direção de Jonathan e determinou com a voz fria:

— Faça a redação de um termo de confissão de infidelidade.

O tom não deixava margem para discussões.

Jonathan obedeceu imediatamente, pegando papel e caneta para redigir o texto conforme solicitado.

Ao concluir o registro, ele ergueu os olhos com um semblante humilde, avaliando as reações dela:

— Se preferir, posso fazer a leitura do documento de joelhos diante de você.

Aposta dele indicava que aceitaria qualquer imposição para evitar o rompimento definitivo.

Clarissa limitou-se a recolher a folha de papel das mãos dele e caminhou direto para o escritório da residência.

Ela acionou o cofre de segurança e guardou o termo junto aos outros documentos civis, respondendo em tom neutro ao retornar:

— Desnecessário o teatro. Minha única intenção é garantir um elemento material robusto de culpa em caso de litígio judicial de partilha.

O pragmatismo dela provocou uma reação imediata de orgulho ferido em Jonathan.

Ele cerrou os dentes, encarando-a com uma fisionomia indignada:

— Clarissa, você está ultrapassando os limites do respeito comigo. Ninguém nunca me tratou dessa forma.

— Você colhe exatamente o cenário que plantou — ela rebateu sem alterar a voz.

O olhar dela transmitia uma mistura de repulsa e desinteresse que pareceu desestabilizar Jonathan por completo, apagando a imagem do homem que ela admirara.

Tomado pela frustração de não conseguir controlar a situação, Jonathan ergueu o braço de forma ríspida.

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