Acompanhada pela equipe de segurança do hotel e pelos policiais designados para a averiguação, Clarissa seguiu até o décimo quinto andar. O funcionário responsável bateu com firmeza na porta da suíte indicada.
Após alguns instantes, a porta foi aberta por Jonathan.
Ele vestia apenas um roupão de piquet branco, com a amarração frouxa que deixava parte do peito exposta.
— O que está acontecendo aqui?...
Ao deparar-se com os policiais e os funcionários do hotel no corredor, Jonathan travou no lugar, perdendo imediatamente a postura relaxada que exibia segundos antes.
— Recebemos uma solicitação de verificação de conduta no local, por favor, apresentem os documentos de identificação — o policial instruiu com firmeza, adotando o procedimento padrão.
Jonathan tentou articular alguma justificativa imediata, mas vacilou na escolha das palavras, demonstrando nervosismo.
Ele correu o olhar rapidamente para o interior do quarto, evidenciando o receio de que a situação saísse do controle, enquanto o suor começava a surgir em sua testa diante da gravidade da abordagem.
Clarissa manteve o passo firme e entrou no recinto logo atrás da equipe policial.
O cenário interno confirmava a pressa com que os dois haviam se acomodado ali.
Peças de roupa estavam espalhadas pelo trajeto entre o hall de entrada e a área da cama, sinalizando o desleixo com o ambiente.
No mesmo instante, Gabriela percebeu o grupo de pessoas no quarto e soltou uma exclamação de surpresa.
Ela se cobriu rapidamente com o lençol, exibindo um semblante assustado, e tentou intervir de forma estridente:
— Vocês estão cometendo um equívoco! Ele é meu marido! Nós temos uma relação legal e consensual!
O policial responsável olhou para Clarissa com uma fisionomia compreensiva, ciente da quebra de expectativa envolvida.
Jonathan fixou os olhos em Clarissa com uma fisionomia alarmada e tentou se defender de imediato:
— Clarinha, ela não é uma acompanhante, isso não é um flagrante de crime, ela trabalha comigo!
Contudo, as alegações dele soavam vazias diante do contexto do quarto, e a agitação dele apenas reforçava o sentimento de culpa.
O grupo foi conduzido ao distrito policial da região para a coleta dos depoimentos formais.
O ambiente da delegacia era burocrático e frio, com os funcionários registrando cada versão dos fatos conforme o protocolo padrão.
Após o término dos trâmites, Jonathan deixou a sala de audiências e localizou Clarissa aguardando no banco do saguão externo.
Ele caminhou apressado na direção dela, segurando-a pelos braços com insistência:
— Clarinha, o mal-entendido foi desfeito, eu preenchi toda a documentação necessária com o escrivão!
Ele agia como se o encerramento do boletim de ocorrência apagasse as consequências da escolha que fizera.
Clarissa sustentou o olhar dele com total serenidade e questionou em tom baixo:
— Ficou tudo registrado formalmente? O histórico da sua relação com a Gabriela?
A tranquilidade na expressão dela parecia incomodá-lo mais do que uma reação violenta.
— Sim, eu expliquei que ela é minha funcionária direta e que nós estávamos... — Jonathan interrompeu a própria fala no meio da frase.
Uma percepção repentina pareceu mudar a fisionomia dele, que passou a encará-la com um semblante de total incredulidade:
— Foi você quem acionou a viatura?
Clarissa permaneceu em silêncio por alguns segundos, esboçando apenas um vislumbre de sorriso distante antes de responder de forma direta:
— O registro foi necessário. Quando iniciarmos o processo judicial de partilha e divórcio, o documento oficial do distrito servirá como prova incontestável da quebra dos deveres do casamento por sua parte.
A clareza da estratégia dela desestabilizou a postura de Jonathan por completo.
— Clarissa! — ele elevou a voz, segurando-a pelos ombros com força enquanto expressava sua indignação. — Por que recorrer a esse tipo de exposição? Qual a necessidade de agir dessa forma comigo?
Clarissa preferiu manter o silêncio, permitindo que ele descarregasse a frustração sem oferecer réplica. Mentalmente, ela constatava a inversão de papéis promovida pelo marido.
Quem iniciara o processo de destruição daquela estabilidade fora ele; quem desconsiderara os sentimentos dela fora ele, e agora ele se colocava na posição de vítima da situação.
13
A saúde de Clarissa sempre foi delicada, especialmente no que dizia respeito à fertilidade, tornando a jornada para engravidar um caminho árduo.
Os dias após o casamento se transformavam em meses, mas o ventre dela continuava sem dar qualquer sinal de uma nova vida.
Após sete anos de união, a mãe de Jonathan começou a perder a paciência.
No começo, ela agia de forma sutil, insistindo com conversas mansas ao pé do ouvido de Clarissa, jogando indiretas de que já passava da hora de dar um herdeiro à família, comentando como os netos dos vizinhos já estavam crescendo e expressando o quanto desejava ver a própria casa cheia de crianças.
Contudo, o tempo passava e, vendo que a barriga de Clarissa não mudava, a postura da idosa mudou drasticamente, dando lugar a alfinetadas e deboches.
Toda vez que cruzava com Clarissa, soltava frases ácidas como: "Uma mulher que não consegue gerar um filho nunca vai ser completa de verdade", ou descia o olhar com desprezo em direção ao ventre dela, resmungando sobre a incerteza de um legado familiar.
Felizmente, Jonathan se manteve firme ao lado de Clarissa durante todo esse período.
Por amor a ela, ele barrou inúmeras vezes o temperamento explosivo da própria mãe.
Ele sempre segurava as mãos da esposa com força e garantia com total convicção:
— Mesmo se passarmos a vida inteira sem filhos, eu não me importo. Desde que estejamos juntos, o resto não tem o menor valor.
Naqueles dias, ele representava para Clarissa um verdadeiro porto seguro no meio da tempestade, trazendo um sopro de dignidade para aquela rotina massacrante.
No fundo, porém, ela sabia o quanto Jonathan valorizava a ideia da paternidade.
O brilho no olhar dele ao observar as crianças brincando nas praças ou o entusiasmo ao interagir com os filhos dos conhecidos deixavam essa vontade evidente.
Determinada a dar esse passo por ele e a consolidar de vez o seu espaço naquela família, Clarissa se submeteu a um verdadeiro calvário médico.
Ela buscou especialistas em todas as áreas e ingeriu uma quantidade absurda de substâncias.
Fossem os extratos fitoterápicos mais amargos ou os coquetéis de comprimidos e cápsulas da medicina tradicional, ela aceitava cada indicação sem hesitar, desde que houvesse uma chance de sucesso.
E todo aquele sacrifício acabou trazendo resultados.
Finalmente, Clarissa engravidou.
No instante em que soube do resultado positivo, Jonathan reagiu com o entusiasmo de um garoto.
Com o rosto iluminado, ele a envolveu em um abraço apertado e comemorou:
— O nosso bebê vai ser a criaturinha mais linda desse mundo, vamos chamá-lo de nosso Anjinho.
A perspectiva daquela nova fase parecia ter o poder de apagar qualquer desgaste do passado.
Contudo, o desenvolvimento da gestação foi tudo, menos tranquilo para Clarissa.
Ela vivenciou todos os desconfortos possíveis com intensidade máxima: no início, episódios severos de enjoo tornavam a alimentação um desafio e minavam suas energias completamente;
No segundo trimestre, uma inflamação aguda no nervo ciático limitava seus passos, transformando pequenas caminhadas em um teste de resistência;
Na reta final, a azia constante impedia o descanso noturno e o inchaço severo nos membros deformou suas extremidades, impedindo-a de calçar seus sapatos e transformando cada movimento em um fardo pesado.
Mesmo diante de tantos limites, ela resistia firmemente, focada apenas em garantir que a criança nascesse com total segurança.
No meio da gestação, o corpo de Clarissa começou a exibir as marcas daquela transformação, com linhas avermelhadas se espalhando de forma progressiva pelo abdômen e pelas pernas.
Ao encarar o próprio reflexo no espelho e notar a intensidade daquelas marcas na pele, Clarissa não conseguiu conter um sentimento de tristeza.
Ela soltou um suspiro baixo e comentou consigo mesma:
— Ficou horrível.
Jonathan ouviu o desabafo, aproximou-se imediatamente e a acolheu em seus braços, proibindo-a de alimentar pensamentos daquele tipo.
— Eu não acho feio de jeito nenhum — ele garantiu, buscando o olhar dela com ternura. — Essas marcas são a prova real de tudo o que você está enfrentando pelo nosso Anjinho, cada linha dessas carrega o amor que você já sente por ele.
Acolhida pelo carinho do marido, Clarissa encontrou forças para ignorar as mudanças estéticas, concentrando-se apenas na chegada saudável do bebê.
Porém, o destino costuma ser imprevisível.
Faltando muito pouco para completar o tempo regulamentar da gestação, toda aquela construção desmoronou em um piscar de olhos.
Naquele dia, ela compareceu à consulta de rotina como de costume, mas a fisionomia do médico mudou ao passar o aparelho pelo ventre dela, assumindo uma seriedade preocupante.
Em seguida, o profissional afastou o equipamento e comunicou a notícia com imenso pesar: os batimentos cardíacos do feto haviam cessado.
A revelação caiu sobre Clarissa como um impacto devastador, provocando uma vertigem imediata que pareceu apagar todas as cores do ambiente.
Em total estado de negação, ela implorou por novas checagens, argumentando que a máquina poderia estar com algum defeito técnico.
Contudo, após sucessivas avaliações, a realidade se impôs de forma idêntica.
Sem saídas, ela precisou passar pela internação para o procedimento de interrupção médica da gravidez.