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《O Recomeço de Clarissa》Capítulo 4

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O tempo passou sem que ela se desse conta e a claridade do dia começou a dar lugar aos tons alaranjados do fim da tarde.

A iluminação fraca que entrava pela janela criava silhuetas longas no chão, enfatizando o isolamento dela naquela sala, ainda digerindo o peso de tudo o que havia escutado.

Sentindo o ambiente de casa sufocante e contaminado por aquela quebra de confiança, ela comprou uma passagem aérea de última hora e decidiu ir para a casa dos pais no interior.

Durante todo o trajeto, observando o movimento na estrada pela janela do veículo, seus pensamentos continuavam caóticos, com os trechos da conversa entre ele e a funcionária ecoando em sua mente.

Ela não conseguia visualizar como seriam os próximos meses e sentia um vazio enorme ao pensar no fim do seu casamento, lidando com o gosto amargo da traição.

Ao desembarcar na casa antiga e rever as ruas conhecidas, a visão da fachada e dos cômodos não trouxe o alívio que ela esperava.

Assim que cruzou a soleira da porta de entrada e antes mesmo que conseguisse explicar sua decisão de pedir o divórcio, a reação da sua mãe foi imediata e escandalosa.

— Separar? Enlouqueceu de vez? — A mulher arregalou os olhos, encarando a filha com desaprovação e elevando o tom de voz sem se importar.

Ela olhou para a mãe, sentindo o peso da incompreensão, e questionou com a voz cansada:

— Você não era a pessoa que mais batia na tecla de que eu não deveria ter me casado com ele?

Na memória dela, o período do noivado havia sido marcado por inúmeras tentativas da mãe de barrar a união.

— Isso foi em outra época! — A mãe dela gesticulou com as mãos, demonstrando impaciência. — Hoje ele mudou de patamar. Sua irmã está organizando o casamento com o rapaz da família mais rica da região e depende do apoio dele para fechar os contratos. Não inventa de arrumar problema logo agora!

A firmeza nas palavras da mãe deixava claro que, para ela, o casamento funcionava apenas como uma ferramenta de ascensão financeira para o restante da família.

O bem-estar de dela pareceria não ter peso algum naquela discussão.

— Mãe, ele está me traindo. Tem um caso com a própria secretária — desabafou ela, com a voz vacilante, esperando encontrar algum tipo de acolhimento ou indignação por parte da mãe.

Para sua surpresa, a mulher apenas deu de ombros, minimizando a situação com total naturalidade:

— E qual homem não dá suas escapadas? Ele carrega uma responsabilidade enorme na empresa, é normal que precise de uma válvula de escape de vez em quando.

Aquelas palavras funcionaram como um balde de água fria, eliminando qualquer expectativa de apoio familiar e deixando claro o pragmatismo frio da mãe.

— Em vez de ficar arrumando briga, você devia focar em segurar o seu lugar e dar um neto para ele. Com uma criança na jogada, a sua estabilidade estaria garantida!

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A mulher continuou falando sem parar, ignorando a palidez no rosto dela e o visível desgaste emocional na expressão da filha.

Ela ouvia o sermão em silêncio, sentindo como se estivesse isolada em um ambiente onde ninguém se importava com a sua dor ou se dispunha a defendê-la.

Sem forças para rebater os argumentos, ela desviou o olhar em direção à irmã mais nova que assistia a tudo do canto da sala, e perguntou em tom baixo:

— Você tem a mesma opinião?

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A jovem mordeu o lábio inferior, demonstrando um leve incômodo com a pergunta direta, mas sustentou a postura ao responder:

— Clarinha, eu já combinei tudo com o Arthur, e o Jonathan tinha prometido ajudar com os custos da nossa festa de casamento... Tenta relevar isso, afinal, ele não veio falar em separação com você.

A resposta da irmã ignorava completamente a quebra de confiança sofrida por Clarissa, focando apenas na preservação dos próprios interesses e benefícios financeiros que o cunhado trazia.

Clarissa encarou a jovem que ajudara a criar com uma sensação de distanciamento, com as palavras travadas na garganta pela decepção.

Era difícil processar que a menina que sempre recorria a ela em busca de proteção agora se mostrava tão indiferente ao seu sofrimento em troca de conveniências materiais.

A mãe das duas, irritada com a postura silenciosa de Clarissa, bateu o pé no chão e começou a criticá-la com mais agressividade:

— Eu sempre fui uma mulher prática, não sei como fui ter uma filha tão desligada da realidade como você! — Ela apontava o dedo em direção a Clarissa, como se a filha estivesse cometendo um erro imperdoável.

— Quando o Jonathan não tinha um tostão furado, você insistiu em ir para São Paulo passar aperto com ele. Agora que o rapaz venceu na vida e construiu um império, você quer abrir mão de tudo por puro orgulho?

As críticas da mãe funcionavam como golpes certeiros na autoestima de Clarissa, focando apenas no patrimônio atual de Jonathan e apagando todos os anos em que Clarissa abdicou de seus planos para apoiá-lo no início da carreira.

— Você acha que o mercado para recomeçar é fácil? Você já passou por uma perda gestacional tardia, seu histórico de saúde não é simples! Que outro homem com a condição do Jonathan vai querer assumir um compromisso sério com você nessas condições?

A mulher falava com os ânimos exaltados, soltando comentários duros sem medir o impacto psicológico na filha, cuja expressão ficava cada vez mais fragilizada.

Por fim, descarregando a irritação de vez, a mãe caminhou até o hall de entrada, pegou a bolsa de viagem de Clarissa e jogou-a na calçada sem a menor consideração.

Os pertences se espalharam pela calçada, criando uma cena humilhante na fachada da casa.

— Quem muda de casa perde o direito de ficar cobrando abrigo. Ficar voltando para cá por qualquer desentendimento não faz sentido nenhum!

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A mulher continuou berrando da porta.

— Pega as suas coisas, volta para São Paulo e resolve a sua situação com o seu marido! Foca em ter um filho homem com ele de uma vez e garante a sua posição para ninguém passar a sua frente! — A mãe permaneceu com las mãos na cintura, ditando as regras como se controlasse a vida da filha, ignorando os limites e a vontade de Clarissa.

Clarissa apenas observava a cena.

Naquele instante, ficou claro que ela era vista como uma estranha ali dentro, sem ninguém genuinamente interessado em sua integridade ou disposto a acolhê-la em um momento de crise.

Ela recolheu a bagagem pesada do chão e iniciou uma caminhada sem rumo pelas ruas do bairro sob o sol forte da tarde.

O calor intenso castigava o asfalto, tornando a caminhada ainda mais desgastante.

Mesmo sob o clima abafado, Clarissa sentia um vazio interno que a fazia estremecer, com o impacto das palavras da mãe reverberando em sua mente.

No meio do caminho, o celular vibrou com uma mensagem curta de Jonathan questionando o motivo de o apartamento estar vazio. Clarissa visualizou a notificação, mas não sentiu vontade de responder.

Pouco tempo depois, o aparelho começou a tocar insistentemente com uma chamada dele.

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— Clarinha, por que você não respondeu minhas mensagens? — A voz de Jonathan do outro lado da linha trazia um tom perceptível de preocupação.

— Decidi passar na casa da minha mãe, acabei não olhando o celular — Clarissa respondeu com a voz monocórdica, evidenciando o esgotamento físico e mental da viagem.

— Aconteceu alguma coisa por aí? — Jonathan insistiu, tentando demonstrar interesse na situação dela.

— Nada de grave, só senti saudades do interior e resolvi vir passar uns dias — Clarissa manteve a mesma neutralidade na resposta.

Jonathan percebeu que o tom de voz dela não era o habitual e adotou uma postura mais compreensiva:

— A sua mãe voltou a pegar no seu pé por causa de assuntos antigos?

— Sim... Tivemos uma conversa um pouco ríspida — Clarissa admitiu, lembrando-se das cobranças e sentindo um nó na garganta.

— Pega o próximo voo de volta para São Paulo, eu faço questão de ir te buscar no aeroporto — Jonathan sugeriu de imediato, sem rodeios. — Podemos ir direto àquele restaurante na cobertura que você sempre quis conhecer para um jantar especial.

Aquele estabelecimento era um desejo antigo de Clarissa, mas que sempre acabava ficando em segundo plano devido à rotina atribulada de Jonathan.

— Não fica remoendo as cobranças da sua família, você sabe que o nosso foco é o que construímos juntos aqui. O resto não deveria interferir na nossa rotina — as palavras dele foram ditas com suavidade e aparente cumplicidade, lembrando o companheiro de anos atrás.

A frase soava dolorosamente familiar para Clarissa.

Nos momentos mais complicados do início da carreira dele, Jonathan recorria exatamente ao mesmo discurso para mantê-la motivada.

Naquela época, ambos acreditavam piamente que a dedicação mútua bastaria para superar qualquer barreira.

Hoje, contudo, o peso daquelas palavras era outro.

Clarissa ouvia o marido e sentia as lágrimas escorrerem silenciosamente pelo rosto, sem conseguir conter a emoção.

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