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《O Recomeço de Clarissa》Capítulo 3

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Ela se lembrava claramente de uma ocasião em que ele participava de um jantar de negócios crucial para a expansão da empresa, cercado por investidores importantes em um restaurante sofisticado.

Contudo, no momento em que o céu começou a fechar e os primeiros estrondos ecoaram ao longe, ele não pensou duas vezes.

Ignorando os olhares confusos dos parceiros comerciais, pediu desculpas brevemente e abandonou a reunião no meio do evento.

Ele dirigiu sob chuva forte apenas para chegar em casa o quanto antes, sabendo que ela precisava do seu apoio naquela noite barulhenta.

Naquela época, ele representava tudo o que ela associava à segurança e proteção.

Com o telefone junto ao ouvido, escutando as recomendações dele, ela sentiu uma ponta de incerteza vacilar em seu peito.

Ela começou a se questionar se não estaria exagerando nas suspeitas.

Talvez ele estivesse mesmo na empresa resolvendo um problema sério de última hora.

Afinal, a dedicação que ele demonstrou em tantas noites difíceis parecia real demais para evaporar assim, não parecia fazer sentido.

Enquanto lutava contra as próprias dúvidas, os faróis de um carro executivo conhecido cortaram a cortina de chuva e o veículo reduziu a velocidade na avenida.

O veículo parou com o pisca-alerta ligado, destacando-se na penumbra da rua.

Pouco depois, uma silhueta esguia saiu correndo pela portaria lateral do condomínio.

A garota corria de um jeito leve, quase saltitante sob o temporal.

O vestido curto balançava com o movimento, dando a ela um aspecto jovial e descontraído.

Ela alcançou o automóvel rapidamente, parando por um segundo ao lado do vidro do passageiro, como se estivesse combinando algo.

Em vez de abrir a porta da frente, ela deu a volta e puxou a maçaneta traseira, entrando com agilidade no banco de trás.

Passados alguns instantes, ele também saiu do carro.

Ele exibia uma expressão descontraída, sem a menor desconfiança de que, a poucos metros dali, ela assistia a tudo de dentro da loja de conveniência.

Ele caminhou direto para a porta traseira, abriu-a sem vacilar e entrou, fechando a porta em seguida.

Ela permaneceu estática atrás do vidro da loja, isolada pelo som dos pingos batendo na estrutura, fixando os olhos nos vidros escuros do carro.

Ela apenas observava, engolindo uma mistura de choque, humilhação e uma constatação dolorosa sobre a própria ingenuidade.

Depois de um tempo considerável, o veículo finalmente deu partida e sumiu na escuridão da avenida.

A garota não voltou a aparecer na calçada em nenhum momento.

Ela continuou ali, parada no mesmo lugar, congelada pelo cenário.

Qualquer vestígio de esperança ou dúvida que ela tentava alimentar havia sumido por completo.

A intuição dela estava certa desde o início: ele havia quebrado a confiança deles de forma definitiva.

E ela ainda tinha tentado arrumar desculpas para protegê-lo em seus próprios pensamentos.

6

Com as primeiras luzes da manhã entrando pelas frestas da janela, ele retornou para o apartamento demonstrando cansaço.

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Ele trazia um arranjo de rosas vermelhas bem vivas em uma das mãos, o colorido se destacando na claridade do início do dia, enquanto a outra carregava uma embalagem com uma refeição leve e quente comprada no caminho.

— Fiquei preocupado de você pular o café da manhã, então passei para pegar isso para você.

Ele deixou as flores e a embalagem sobre o balcão da cozinha, exibindo o mesmo semblante tranquilo de sempre.

Ela o observou, mantendo uma distância emocional que ele não soube decifrar, e limitou-se a perguntar:

— Não conseguiu dormir nada esta noite?

— O volume de relatórios para revisar estava absurdo, não deu tempo de fechar os olhos.

Ele levou a mão à têmpora, massageando o local para tentar aliviar a fisionomia exausta. Logo em seguida, emendou:

— Ainda preciso fazer aquela viagem de negócios hoje, vou arrumar a mala rápido para não perder o horário do aeroporto. Trate de comer e descanse um pouco, você está com cara de quem não dormiu bem.

Dito isso, ele se dirigiu ao closet para organizar os pertences.

Em poucos minutos, ele já cruzava a porta de saída com a bagagem, entrando no sedã executivo que o motorista da empresa já mantinha posicionado na entrada do prédio.

Assim que o silêncio voltou a reinar no apartamento, ela permaneceu imóvel por alguns instantes, encarando os presentes sobre a bancada sem sentir absolutamente nada.

Ela se levantou devagar e pegou o elevador em direção ao subsolo, onde o carro dele ficava estacionado na vaga privativa.

O objetivo era resgatar o dispositivo de áudio que havia ocultado no veículo na noite anterior.

Após recuperar o pequeno gravador sem dificuldades, ela iniciou o caminho de volta para o elevador.

Ao passar pelas lixeiras da garagem, ela interrompeu o passo, olhou para o maço de rosas que havia descido trazendo consigo e, com um movimento firme, jogou-o direto na lixeira de descarte.

O arranjo despencou entre os resíduos, perdendo toda a pose luxuosa que tinha minutos atrás. Uma funcionária da limpeza que iniciava o turno viu a cena e recolheu o maço de flores, chamando-a antes que ela entrasse no elevador:

— Moça, um arranjo tão bonito desses indo para o lixo? Tem certeza?

Ela parou, olhou para trás por cima do ombro e deu um sorriso forçado para a funcionária:

— Tenho sim. Não serve mais.

As rosas não tinham mais espaço ali.

E ele também não teria mais.

7

Ela entrou no apartamento e o vazio do lugar parecia quase palpável.

Ela se acomodou no canto do sofá, segurando firme o pequeno gravador que havia acabado de recuperar do veículo.

Puxou o ar com força e pressionou o botão para reproduzir o áudio.

Imediatamente, os arquivos de som começaram a rodar e a voz dele preencheu o ambiente silencioso.

"Me espera perto da entrada lateral do condomínio."

O tom dele demonstrava pressa.

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"Nossa, você veio mesmo me ver?" A voz da garota logo emendou, carregada de uma satisfação óbvia.

Ele havia deixado o sistema de som do carro conectado, então o diálogo dos dois ficou registrado de forma nítida.

Dava para ouvir o riso abafado dele antes de responder em tom brando:

— Já estou chegando.

"Você não tinha dito que ia passar a noite com a patroa por causa do aniversário de casamento? O que mudou?" A garota questionou com uma ponta de curiosidade, mas sem esconder a animação.

"Fiquei com saudades."

Aquelas três palavras funcionaram como um golpe seco no peito dela.

O aniversário de casamento deles, uma data que deveria ser reservada para a história que construíram juntos, havia sido descartada para que ele pudesse alimentar o ego de outra pessoa.

A garota reacted com ainda mais empolgação:

"Pode vir sem correr! Vou aproveitar para retocar a maquiagem!"

"Tudo bem. Comprei aquele conjunto de lingerie que você queria, usa o modelo roxo hoje."

Ele mantinha a mesma postura atenciosa que custava ter em casa, uma generosidade que agora soava completamente repulsiva.

Algum tempo depois, o áudio registrou o ruído de batidas no vidro do carro, seguido pela instrução dele:

"Entra pelo banco de trás."

A garota obedeceu, mas reclamou logo em seguida:

"Que chato, nunca posso sentar no banco do passageiro."

Ele cortou o assunto:

— Há fiscalização severa na região da avenida, é melhor não arriscar.

— Hum, Clarissa! — a garota ironizou, arrastando as sílabas do nome dela com deboche.

— Gabriela — ele pronunciou o nome completo da secretária com a voz visivelmente mais séria, estabelecendo um limite.

— Desculpa, chefe... Não foi por mal. Pode me dar um castigo se quiser — ela mudou o tom rapidamente, adotando uma postura submissa para reverter o descontentamento dele.

— Então tira a roupa — ele sugeriu com total frieza, enquanto o som de um acendedor de cigarros indicava que ele havia relaxado no banco.

— O quê? Como assim? — a voz dela vacilou, pega de surpresa pela resposta direta.

— Ué, não foi você que pediu para ser castigada?

O tom dele permanecia descompromissado e firme.

— Você não vale nada — ela murmurou em tom de brincadeira.

Na sequência, o clique metálico do cinto de segurança sendo liberado ecoou no registro.

Sons de respiração ofegante começaram a se misturar no ambiente do carro.

No meio da intimidade, ela sussurrou com uma voz que misturava carência e cobrança:

— Você me ama de verdade?

Dava para notar o tom de satisfação na resposta dele ao passar a mão pelos cabelos dela:

— Se eu não gostasse de você, acha que eu sairia de casa no meio da madrugada para te procurar?

ela respondeu com a voz embargada pela emoção:

— Eu também te amo.

8

Ela permanecia sentada na sala de estar, imersa naquela atmosfera cinzenta, enquanto o áudio do dispositivo continuava rodando em looping.

Cada frase escutada parecia uma agulha perfurando o que restava da sua consideração por aquela história, destruindo qualquer possibilidade de reconciliação.

A bateria do aparelho acabou descarregando, silenciando a gravação de vez, mas ela continuou pressionando o botão de liga e desliga de forma automática.

O clique seco do botão quebrava o silêncio da sala de tempos em tempos, refletindo o estado de dormência em que ela se encontrava. Sua expressão não mudava, os olhos focados em um ponto fixo na parede, como se estivesse desconectada do próprio corpo.

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