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《O Recomeço de Clarissa》Capítulo 2

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O corpo de Jonathan enrigidilhou na mesma hora.

— Clarinha, na verdade, nós poderiamos avaliar a fertilização in vitro. Dei uma pesquisada e o procedimento garante que o embrião venha forte e saudável, além de podermos programar o momento ideal.

O interior de Clarissa foi tomado por uma sensação gélida. Embora já previsse esse tipo de saída por parte de Jonathan, ver o cenário se confirmar trouxe uma onda de desapontamento que quase a sufocou.

Para evitar a intimidade com ela, ele preferia sugerir que ela se submetesse a um processo desgastante e cheio de incertezas médicas.

Afinal, a intimidade deveria ser o pilar mais básico entre um casal, o reflexo do afeto mútuo. Para Jonathan, no entanto, havia se tornado um obstáculo a ser evitado a qualquer custo.

Ele achava melhor vê-la enfrentar o desconforto físico e o desgaste emocional de um tratamento clínico a ter que tocá-la novamente como esposa.

— Tudo bem. Podemos ver isso depois — Clarissa respondeu com uma calmaria assustadora. — Jonathan, me deu vontade de comer aquela massa com ervas que você faz, consegue preparar para mim?

Assim que Jonathan desceu para a cozinha, Clarissa caminhou em silêncio até a garagem do subsolo.

Ela se aproximou do veículo dele e, certificando-se de que o espaço estava deserto, abriu a porta com agilidade e escondeu um gravador digital que já havia deixado pronto no interior do carro.

A madrugada avançou em silêncio e Jonathan adormeceu segurando Clarissa junto ao peito.

Passado algum tempo, Clarissa mudou de posição devagar, minimizando qualquer ruído para não despertá-lo.

Aproveitando o movimento, ela retirou a própria mão do aperto dele sem deixar transparecer.

Ficou ali deitada de costas para ele, de olhos fechados, mas com os pensamentos tão acelerados que o sono se tornou impossível.

Não soube quanto tempo se passou até que, no meio do silêncio absoluto do quarto, o toque do celular dele quebrou a paz. Em menos de um segundo, ele cortou a ligação, numa rapidez que denunciava o medo de acordar alguém.

— Clarinha...

Ele chamou bem baixo, com a voz carregada de cautela.

Clarissa manteve as pálpebras cerradas, sem emitir som, simulando estar em um sono pesado.

Ao perceber que ela não se movia, Jonathan deu um leve toque em seu ombro e justificou em tom de desculpa:

— Surgiu uma emergência na empresa, preciso dar um pulo lá. Se tudo correr bem, volto antes do amanhecer.

Clarissa resmungou uma resposta qualquer entre dentes, fingindo capotar de sono logo em seguida.

Jonathan inclinou-se para dar um beijo rápido em sua testa, vestiu as roupas depressa e deixou o cômodo com passos leves.

Com o clique suave da porta se fechando, o quarto retornou ao isolamento completo.

E Clarissa, no meio daquela calmaria, perdeu o resto de sono que lhe restava.

Ela se trocou rapidamente, desceu o prédio e deu sinal para um táxi na avenida.

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O veículo encostou e o motorista abaixou o vidro, solícito:

— Boa noite, moça. Para onde vamos?

Clarissa respondeu sem pestanejar:

— Para os Jardins.

Aquele era o endereço que constava no aplicativo de compras do marido, o lugar onde residia a tal Gabriela.

Acomodada no banco traseiro do táxi, ela sentia o peito pesado, combinando com o borrão das luzes da cidade que passavam pela janela.

Puxou o ar para tentar se centrar e acessou a aba de buscas de uma rede social de vídeos.

Com firmeza nos dedos, digitou o nome de usuário que havia memorizado e que agora funcionava como um espinho cravado em sua mente.

Assim que a página carregou, o perfil da garota surgiu na tela.

A visão de Clarissa chegou a embaçar por um instante ao lembrar das atitudes recentes de Jonathan.

4

Há poucas semanas, Jonathan havia alterado sua frase de status no perfil para uma combinação poética de palavras que remetiam à natureza e pureza.

Na época, ele a olhou nos olhos com uma postura romântica e disse:

— Usei essas palavras porque combinam com a essência do seu nome, Clarissa. É o nosso pequeno segredo romântico.

Ele parecia de fato o homem mais apaixonado do mundo ao dizer aquilo.

Contudo, agora a cortina havia caído.

Aquele romantismo todo era apenas mais uma engrenagem da sua rede de mentiras.

As escolhas de Jonathan eram referências diretas a piadas internas que ele compartilhava com a secretária.

A constatação trouxe um frio no estômago, as lágrimas ameaçaram cair, mas Clarissa segurou o choro.

A funcionária demonstrava ser o tipo de pessoa que expunha cada detalhe da rotina na internet: desde sacolas de compras de grife até registros de viagens, encontros com amigas e sessões de jogos virtuais, com atualizações constantes ao longo do dia.

Clarissa correu a tela de forma mecânica e abriu o print de uma tela de encerramento de uma partida online.

Os dados estatísticos do jogo estavam visíveis e o codinome de usuário usado pela garota saltou aos olhos.

Ao ler aquele codinome, uma memória de meses atrás ressurgiu na mente de Clarissa.

Naquela ocasião, Clarissa havia pedido para Jonathan incluí-la em uma partida online com seus conhecidos e, ao entrarem na sala, aquela mesma usuária estava no grupo.

Durante o jogo, Clarissa notou um comportamento estranho.

A personagem que ela controlava recebia ataques constantes das criaturas do jogo e sua barra de vida caía rápido, mas a jogadora responsável por curar e dar suporte ao grupo não se movia para ajudá-la.

Ao término da rodada, Clarissa checou o relatório e viu que não havia recebido um único ponto de restauração daquela jogadora, nem mesmo os efeitos colaterais de cura em área haviam chegado até ela.

Achando a situação bizarra e sentindo-se excluída, Clarissa digitou no canal de texto de forma educada:

"A suporte esqueceu de curar aqui?"

Ela aguardou o retorno e, após um minuto de silêncio, veio a resposta na tela:

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"Foi mal, comprei essa conta faz pouco tempo e ainda estou pegando o jeito."

Clarissa não engoliu muito bem a justificativa, mas relevou achando que se tratava apenas de alguém inexperiente.

Mais tarde, ao questionar Jonathan sobre a partida, ele desdenhou com naturalidade:

— É só uma novata que não sabe o que está fazendo, na próxima a gente joga sem ela.

Olhando agora para trás, nada daquilo tinha sido por acaso.

Ela havia sido feita de plateia para o flerte dos dois o tempo todo.

Uma decepção profunda tomou conta dela, toda a confiança depositada em Jonathan e a cumplicidade que acreditava existir haviam desmoronado, deixando apenas o gosto amargo da traição.

O taxista, talvez percebendo o silêncio tenso da passageira, pisou um pouco mais no acelerador.

Quando o veículo finalmente parou nos arredores do condomínio, Clarissa olhou em volta e constatou que o carro de Jonathan ainda não havia chegado.

Assim que pisou na calçada, o céu que já estava carregado escureceu de vez. Nuvens pesadas começaram a avançar rapidamente, cobrindo o horizonte como uma cortina escura de tempestade.

Trovões ecoaram de forma abafada, aumentando a sensação de sufocamento do ambiente.

Antes mesmo que conseguissem se abrigar, pingos grossos de chuva começaram a despencar com força, machucando a pele.

Clarissa correu em direção à calçada e avistou uma loja de conveniência vinte e quatro horas aberta, entrando depressa para se proteger.

Mal cruzou a porta de vidro, fugindo do barulho da tempestade, o celular começou a vibrar em sua mão.

Ao olhar o visor, o nome de Jonathan brilhava na tela.

5

Ela hesitou por um segundo antes de deslizar o dedo para atender, ouvindo a voz familiar dele do outro lado da linha:

— Clarinha, você acordou?

— Como você sabia? — ela limitou-se a responder.

O tom dele continuava brando, transmitindo uma falsa sensação de zelo:

— Imaginei que o barulho dos trovões ia acabar te assustando. Antes de sair, dei uma olhada na previsão do tempo e tirei todos os eletrônicos das tomadas, com exceção da geladeira. Não precisa ficar com medo, pode voltar a dormir tranquila.

Ouvindo aquelas palavras supostamente protetoras, ela sentiu um calafrio.

Houve um tempo em que um detalhe desses a faria se sentir a mulher mais sortuda do mundo por ter um companheiro tão atencioso. Mas agora, sabendo o que ocorria nos bastidores, aquela encenação parecia grotesca e vazia.

Aquele "cuidado" funcionava como uma lâmina afiada, reabrindo a ferida no seu peito破碎

Um trauma de infância ligado a um incêndio provocado por um curto-circuito durante uma tempestade havia deixado marcas profundas na memória dela.

O clarão dos raios, o pânico daquele dia, as chamas devoradoras e o desespero no rosto dos familiares viraram um pesadelo recorrente em sua vida.

Desde então, noites de temporal sempre despertavam uma ansiedade difícil de controlar, uma sombra do passado que ela não conseguia dissipar de forma alguma.

E ele, nos primeiros anos de relacionamento, realmente fora o porto seguro dela nesses momentos.

Sempre que o tempo virava, ele fazia o possível para adiar seus compromissos e ficar ao lado dela.

Ele segurava sua mão com força, usando palavras calmas para acalmá-la, repetindo que ela estava segura enquanto ele estivesse ali.

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