Apenas olhando de longe para a esposa no palco, levantou a mão e bateu suavemente no próprio peito esquerdo, na posição do coração.
Um código secreto que só eles dois entendiam.
Ele sabia que aquilo era apenas um começo.
O futuro deles era composto por estrelas e mares.
E sua capitã Beatriz já havia obtido a habilitação vitalícia para essa jornada infinita.
Após a agitação do Prêmio Nobel, a vida voltou à tranquilidade de outrora.
Em uma tarde de fim de semana, Beatriz estava arrumando pertences antigos no sótão.
A gaveta que ela não abria há muito tempo, contendo as cartas do país, foi aberta novamente.
Ela viu a carta de Zhao e a foto da lápide de Eduardo.
Por impulso, enviou um e-mail a Zhao.
【Aqueles diários, ainda existem?】
Zhao respondeu rapidamente.
【Existem sim, irmã Beatriz, a mãe do capitão Eduardo pediu todos de volta mais tarde.】
No e-mail, estava anexado o endereço atual da Sra. Ho.
Beatriz olhou para aquele endereço, em silêncio por muito tempo.
Lucas subiu ao sótão com café e a viu em transe.
"Quer ir ver?" ele perguntou.
Ele sempre conseguia ler seus pensamentos facilmente.
Beatriz não negou.
"Estou apenas curiosa."
Curiosa sobre o que aquele homem orgulhoso e arrogante escreveria em seus diários.
"Então vá." Lucas entregou-lhe o café, "Algumas coisas precisam de um desfecho, eu te acompanho."
Beatriz balançou a cabeça: "Não, eu vou sozinha."
Ela queria ir sozinha para colocar um ponto final real naquele capítulo de oito anos de juventude.
Dias depois, Beatriz voltou sozinha para a cidade de onde partira anos atrás.
Ela encontrou a antiga mansão da família Ho seguindo o endereço.
Quem abriu a porta foi a Sra. Ho.
Ao ver Beatriz, ela não pareceu surpresa, apenas a tristeza em seus olhos tornou-se mais densa.
"Você veio."
Ela convidou Beatriz para o escritório e tirou a pesada caixa das profundezas da estante.
"Estão todos aqui."
Beatriz não disse nada, apenas agachou-se e abriu a caixa.
Dentro, havia diários organizados um a um, de forma impecável.
Ela pegou um deles ao acaso e abriu na primeira página, datada do dia em que se conheceram.
A caligrafia era vibrante, cheia do entusiasmo de um jovem.
Capítulo 25
【Hoje chegou um novo aluno no departamento chamado Beatriz, fria e determinada, como uma pequena gata selvagem difícil de lidar. Interessante.】
As pontas dos dedos de Beatriz roçaram suavemente aquela linha de texto.
Era como se ela pudesse ver aquele jovem de camisa branca, encostado na quadra de basquete, erguendo as sobrancelhas e assobiando para ela.
Ela continuou folheando.
【Ela realmente se inscreveu na equipe de pré-resgate? Ela ficou louca? É tão perigoso, não pode ser, preciso ficar de olho nela.】
【Hoje no treinamento, ela caiu da parede de escalada e arranhou o braço, eu a repreendi e ela ainda ousou me encarar; à noite, trouxe remédio secretamente para ela, espero que ela não seja tão boba e que veja.】
【Ela ganhou a medalha Asas de Ouro, brilhando mais que as estrelas no palco; acho que estou começando a gostar dela.】
【Estamos juntos, ela disse que gosta da sensação de voar lado a lado comigo, eu também.】
【Nós nos casamos, eu juro que serei bom para ela para o resto da vida.】
O diário foi folheado página a página, registrando toda a doçura e as brigas, todas as glórias e feridas entre eles.
Até o dia em que ela perdeu a audição.
O diário daquele dia tinha apenas uma frase curta, mas a caligrafia parecia ter sido escrita com todas as suas forças.
【Eu quebrei as asas dela.】
A partir daquele dia, as entrelinhas dos diários começaram a ser preenchidas com luta, dor e autodesprezo.
【Aprendi a língua de sinais, queria ser seus ouvidos, mas o olhar que ela me lança já não tem brilho.】
【Helena voltou, com Sofia, ela disse que é minha filha, não sei o que fazer. Tenho medo que minha mãe me pressione, tenho medo de perder Beatriz.】
【Sou um canalha, usei o sacrifício do papai para pressioná-la, o olhar dela para mim é como se eu fosse um inimigo.】
【Ela foi embora, ela não me quer mais.】
【Vi as notícias sobre ela, ela está tão bem, tão brilhante, ela tem alguém melhor ao seu lado, estou realmente feliz por ela, mas por que meu coração dói tanto?】
A última página do diário parou na noite anterior à sua partida para a área do desastre.
【Beatriz, estou indo embora, para um lugar onde você já lutou, não tenho rosto para te ver, só posso te dizer dessa forma que te amo, sempre amei, se a vida pudesse recomeçar, certamente nunca mais soltaria suas mãos.】
【Desculpe, e desejo que você seja feliz.】
Beatriz fechou o diário, seus olhos já estavam úmidos.
Ela não chorou em voz alta, apenas deixou as lágrimas escorrerem silenciosamente.
Acontece que ele não deixou de amar.
Apenas que aquele amor estava envolto profundamente por seu orgulho, arrogância, covardia e estupidez, e acabou se distorcendo em uma lâmina afiada que a feriu.
A verdade tardia não a fez sentir alegria, apenas uma tristeza infinita.
Beatriz fechou o último diário e o colocou de volta na caixa de madeira pesada.
No momento em que fechou a tampa da caixa, ela se levantou, seus movimentos um pouco lentos, com as pernas dormentes por ter ficado muito tempo agachada.
Ela se virou para a Sra. Ho, que permanecia parada em silêncio, e curvou-se profunda e respeitosamente.
"Obrigada."
Esta reverência era um agradecimento pela sinceridade da senhora, por lhe ter permitido ver o outro lado da história que fora selada.
E também um agradecimento pela conclusão, permitindo que ela finalmente seguisse caminhos separados daquela juventude obstinada.
As lágrimas rolaram dos olhos da Sra. Ho; ela gesticulou, com a voz extremamente rouca.
"A quem deve agradecer sou eu."
"Obrigada por ter vindo, e em nome daquele canalha, obrigada por perdoá-lo."
Beatriz não respondeu se perdoava ou não.
Para alguém que já havia superado tudo, perdoar ou não já não tinha significado.
Ela apenas se endireitou e olhou calmamente para a idosa: "Tudo passou. Por favor, cuide-se."
Após dizer isso, ela se virou e saiu da mansão da família Ho sem hesitar.
No instante em que cruzou aquele portão, o sol da tarde de inverno caiu sobre sua cabeça, quente e suave.
Beatriz olhou para cima e semicerrou os olhos.
A melancolia que habitava o fundo de seu coração há anos parecia ter sido secada e evaporada sob o calor daquele sol acolhedor, dissipando-se sem deixar rastro.
A pedra pesada que pressionava seu peito há anos foi finalmente removida.
Uma leveza sem precedentes.
Ela não foi ao túmulo de Eduardo.
Lápides são memórias deixadas para os vivos, e ela já não precisava mais disso.
Beatriz foi diretamente para o aeroporto e reservou o voo mais próximo de volta a Zurique.
No saguão de embarque, ela ligou para Lucas.
A voz familiar e suave veio do outro lado da linha, roçando levemente o coração que ela acabara de limpar.
"Alô?"
Beatriz sentiu vontade de rir sem motivo, e o tom de sua voz ficou leve: "Dr. Lucas, a sopa de cogumelos que você cozinhou ainda está lá?"
A pessoa do outro lado hesitou um pouco, seguido por uma risada baixa, indulgente e desamparada.
"Não muito, ela disse que se você não voltar, ela mesma vai criar pernas e correr para o Hospital Universitário de Zurique, para procurar a professora Beatriz que desapareceu."
"Então ela terá que ser rápida, sua dona está prestes a embarcar."
Os cantos da boca de Beatriz se curvaram em um arco significativo.
"Hum, estou te esperando em casa."
Depois de desligar o telefone, Beatriz olhou para os aviões pousando e decolando lá fora, confirmando em seu coração com absoluta certeza.
No outro lado do mundo, havia uma pessoa, uma lâmpada e uma tigela de sopa de cogumelos que quase criaria pernas, esperando por ela.
Aquele era o seu verdadeiro destino.
Capítulo 26
Dezesseis horas depois, Zurique.
Beatriz mal abriu a porta de casa e foi calorosamente abraçada por um par de braços calorosos.
Lucas não perguntou nada, apenas a abraçou, seu queixo roçando suavemente o topo da cabeça dela.
Um momento depois, ele a soltou, pegou naturalmente a mala das mãos dela e tirou seu casaco.
"Terminou tudo o que tinha para fazer?"
"Sim." Beatriz assentiu.
"Que bom."
Ele pegou a mão dela, entrelaçando seus dedos, e a conduziu em direção à sala de jantar iluminada.
"Vamos comer, minha professora Beatriz, deve estar morrendo de fome, não é?"
Na mesa, a sopa de cogumelos branca e cremosa exalava um aroma rico.
Beatriz olhou para o homem do outro lado da mesa, ocupado servindo a sopa para ela.
Olhando para a luz suave refletida em seus olhos e para aquela gentileza e tolerância tácitas, algum lugar em seu coração tornou-se extraordinariamente suave.
Obrigada, Lucas.
Obrigada por, quando eu me via presa em uma ilha isolada, ter navegado até mim.
Obrigada por me mostrar que o amor pode ser um sol quente, em vez de uma chama abrasadora.