Beatriz encarou a frase "não existem tantos 'se'" na tela e moveu o mouse sem expressão.
Arrastou o e-mail para a lixeira e selecionou: excluir permanentemente.
Algumas pessoas e algumas coisas deveriam ser tratadas como lixo eletrônico: descartadas de forma limpa e rápida.
O disco rígido de sua vida tinha uma memória valiosa, reservada para pessoas mais importantes.
Por exemplo, o aniversário de Lucas estava chegando.
O que dar de presente tornou-se o dilema do século.
Aquele homem, nas palavras de Beatriz, não precisava de nada, especialmente de bom senso.
Dias atrás, ela sondou discretamente: "Dr. Lucas, tem algo que você queira muito ultimamente, mas que não teve tempo de comprar?"
Lucas, sem levantar a cabeça de seu periódico médico, respondeu casualmente: "Tenho."
Beatriz brilhou os olhos: "O quê?"
"Um título oficial."
"..."
"O termo 'Sra. Fu' sempre parece que estou trabalhando para outra pessoa. Quando poderei ser promovida a 'Sra. Lucas' para que eu possa ter um status legítimo?"
Beatriz, inexpressiva, enfiou uma maçã na boca dele.
Declarações de amor assim bastavam ser ouvidas; não resolviam problemas práticos.
Foi apenas na limpeza de fim de semana que Beatriz encontrou um portfólio empoeirado no armário mais alto do escritório.
Ela pensou que fosse algo de seus tempos de estudante, mas, ao abrir, ficou paralisada.
Lá dentro não havia mapas anatômicos, mas página após página de desenhos de aviões.
Desde o caça Spitfire da Segunda Guerra Mundial até o moderno F-22 Raptor.
Cada linha era precisa e fluida, com os rebites e números de série da fuselagem claramente visíveis.
No canto inferior direito de cada folha, estavam anotados vários parâmetros de desempenho.
O papel estava amarelado, mas a paixão vertida na ponta da caneta parecia querer atravessar o papel.
Só então Beatriz se lembrou de algo que Lucas mencionara uma vez.
Seu sonho de juventude era pilotar caças, mas infelizmente o velho patriarca da família insistiu que ele seguisse seus passos na medicina, para curar o mundo.
Uma ideia se formou instantaneamente em sua mente.
No dia do aniversário de Lucas, logo ao amanhecer, ele foi arrancado da cama por Beatriz.
"O que foi? Assassinato do marido?"
Lucas estava sonolento, com o rosto cheio de ressentimento.
Beatriz, sem dar explicações, cobriu os olhos dele com um lenço, com um sorriso impossível de esconder em seu tom.
"Não fale bobagem, venha comigo. Hoje vou te dar um grande presente."
Lucas a seguiu, sem resistir, embora a língua não desse trégua.
"Primeiro, fique avisada: se a surpresa virar um susto, você lava a louça hoje."
O carro seguiu viagem e acabou parando em um terreno aberto.
Quando a venda foi removida, a luz forte do sol fez Lucas semicerrar os olhos instintivamente.
Quando sua visão focou novamente, ele ficou paralisado no lugar.
Diante dele, havia um pequeno avião particular SR22 de linhas fluidas, com a fuselagem branca brilhando sob a luz da manhã.
E abaixo da asa, Beatriz havia trocado por um traje de voo azul-profundo, que delineava sua postura ereta e cheia de espírito.
Ela fez uma saudação brincalhona, unindo os dedos junto à sobrancelha de forma pouco convencional.
"Relatório ao Sr. Lucas, sua piloto exclusiva, Beatriz, está pronta."
"Missão de hoje: levá-lo aos céus, realizar o sonho do céu azul. Por favor, dê as instruções!"
Lucas olhou para ela, depois para o avião atrás dela que parecia carregar todos os sonhos de sua juventude.
Ele de repente baixou a cabeça e riu, mas suas pálpebras ficaram vermelhas pouco a pouco.
Aquela mulher sempre conseguia atingir o ponto mais suave de seu coração da maneira mais inesperada.
Ele deu um passo à frente, puxou-a para seus braços e a beijou sem pedir licença.
Aquele beijo não continha lascívia, apenas uma emoção avassaladora e a alegria frenética de reencontrar o que parecia perdido.
Muito tempo depois, ele a soltou e encostou sua testa na dela.
"Beatriz, eu te amo."
Beatriz o abraçou de volta, "Eu sei. Agora, posso receber as instruções, meu passageiro?"
Lucas apertou o rosto dela, o sorriso em seus olhos quase transbordando.
"Às ordens, minha capitã."
Ele fez uma pausa e perguntou ao pé do ouvido dela, com uma voz que só os dois podiam ouvir.
"Mas tenho uma pergunta."
"Hum?"
"Pilotar um avião requer licença para trabalhar?"
Capítulo 23
O avião subiu suavemente aos céus.
Lucas virou a cabeça e observou Beatriz, concentrada no controle do painel.
A sensação era nova e absurda.
"Então, aquela minha pergunta sobre a licença?"
Ele ainda não conseguiu se conter e trouxe o assunto de volta.
Beatriz não desviou o olhar, apenas moveu os lábios: "Fique tranquilo, consegui há três meses. Teoria e prática, passei com nota máxima, não te envergonhei."
Havia um pequeno orgulho escondido no final de sua frase.
Lucas ergueu uma sobrancelha e não disse mais nada, mas os cantos de seus lábios não podiam deixar de subir.
As nuvens fervilhavam abaixo deles, a luz do sol penetrando pelas fendas.
"Como se sente, futuro piloto Lucas?"
Beatriz finalmente se permitiu virar a cabeça e piscar para ele.
Lucas estendeu a mão e segurou a mão dela que estava sobre a alavanca de comando; as pontas dos dedos dela estavam frias, mas a palma estava muito quente.
"Sinto..."
Ele fez uma pausa, seu olhar voltando da janela para os olhos sorridentes dela, "que as montanhas, rios e mares tornaram-se o seu fundo de cena."
O coração de Beatriz foi suavemente atingido por aquela declaração de amor não tão direta.
Por um momento, ela se lembrou de muito tempo atrás, quando também se sentava no banco do passageiro de outra pessoa, sobrevoando o mesmo mar de nuvens grandiosas.
Naquela época, ela era ingênua e achava que aquilo era todo o seu mundo.
Mais tarde, percebeu que era apenas uma prisão feita por ela mesma.
E agora, segurando a alavanca de comando, a pessoa ao seu lado a olhava, e o mundo em seus olhos era ela.
O avião entrou na estratosfera e Beatriz passou temporariamente o controle para o sistema de piloto automático.
Ela soltou o cinto de segurança e, com movimentos um tanto desajeitados, tirou uma caixa debaixo do assento.
Ao abrir, viu um pequeno bolo de creme, um pouco deformado por ter sido espremido.
"Dê um jeito nisso, quase foi considerado um objeto suspeito na segurança do aeroporto."
Ela entregou o garfo de plástico a ele, "Feliz aniversário, Dr. Lucas."
Lucas olhou para aquele bolo de aparência realmente pouco atraente, e depois para o suor fino que surgia na ponta do nariz dela por causa da tensão, e riu baixinho.
"Obrigado, minha capitã Beatriz."
Ele tirou um pedaço grande de creme, não comeu, mas o passou precisamente na ponta do nariz de Beatriz.
"Ei!"
"Retribuição."
Lucas disse com convicção, e só então, lentamente, levou uma pequena mordida do bolo à boca.
"Hmm, o sabor é bom, não é à toa que é um bolo que já foi aos céus."
Beatriz não sabia se ria ou chorava enquanto limpava o creme do nariz e o encarava, sem nenhum efeito real de intimidação.
"Faça um pedido."
Lucas fechou os olhos de forma séria e juntou as mãos.
Após alguns segundos, ele abriu os olhos, com um brilho incrível.
"O que pediu?"
"Espero," ele sussurrou ao ouvido dela, o hálito quente roçando na orelha, "que minha capitã exclusiva possa me dar uma 'abertura de porta' uma vez por ano, permitindo-me desfrutar de um serviço de voo VIP vitalício."
O coração de Beatriz amoleceu instantaneamente.
"Só essa ambição?"
"A ambição não está no tamanho, mas em se pode ser realizada."
Lucas olhou para ela, "Afinal, contanto que o serviço VIP ainda exista, meus dias bons serão longos."
Beatriz não aguentou mais, inclinou-se e beijou aquela boca tagarela.
Acima das nuvens, o sol estava perfeito.
O beijo nas nuvens congelou aquele aniversário.
E o tempo, nunca para.
Capítulo 24
Um ano depois, cerimônia de entrega do Prêmio Nobel.
Beatriz, como porta-voz principal do projeto de "Combinação de Transmissão de Sinal Nervoso com Dispositivo Auditivo Inteligente", estava no centro do palco mundial.
Sob os holofotes, ela vestia um vestido de corte perfeito, calma e confiante.
Na plateia, Lucas, de terno, estava sentado na primeira fila dos convidados, observando-a em silêncio.
No final do discurso, o olhar de Beatriz atravessou incontáveis flashes e pousou precisamente sobre ele.
"Por fim, quero agradecer ao meu marido, o Sr. Lucas."
Uma onda de risos amáveis percorreu a plateia.
"Ele," Beatriz também sorriu, com estrelas brilhantes no fundo dos olhos, "profissional e academicamente, é um cirurgião de ponta. Na vida cotidiana, é um sujeito bastante irritante."
Os risos no local aumentaram.
Lucas balançou a cabeça desamparado, mas a indulgência e o orgulho em seus olhos quase transbordavam.
"Mas ele me provou, com ações, que existe um tipo de ressonância que pode superar a audição. Ele não se tornou meus ouvidos,"
A voz de Beatriz fez uma pausa, cada palavra clara e poderosa.
"Ele se tornou o meu batimento cardíaco."
"Obrigada, Lucas."
Aplausos como trovões ressoaram.
Lucas levantou-se, não batendo palmas como os outros.