Seu tom carregava uma provocação não muito séria, mas seu olhar pousou sobre a foto da lápide, seus olhos escurecendo.
Beatriz não olhou para trás, aproveitando para apoiar todo o seu peso sobre ele.
"Não são fãs," ela disse casualmente, "é alguém do passado."
Ela desligou o telefone, dobrou o papel da carta, abriu a gaveta no canto mais distante da mesa e jogou-a lá dentro.
Naquela gaveta estavam o celular antigo que ela deveria ter jogado fora ao retornar ao país, a cópia do certificado da medalha Asas de Ouro e algumas coisas que deveriam ter sido limpas há muito tempo.
Ela não a abria há muito tempo.
Com um estrondo, a gaveta se fechou, isolando todos os ecos do passado.
Beatriz se virou, pendurou os braços no pescoço de Lucas e olhou para cima.
"Dr. Lucas, de repente percebi um problema muito sério."
"Hum?" Lucas ergueu as sobrancelhas, cooperando com a encenação dela.
"Amanhã vou ouvir 'Turandot', e parece que não tenho um vestido que combine com um especialista-chefe em neurocirurgia de Zurique."
Ela franziu o nariz com angústia: "O que eu faço se te fizer passar vergonha?"
Lucas riu com a aparência dela.
Ele tocou a ponta do nariz dela com o dedo, e a adoração em seus olhos quase transbordou.
"Bobagem, mesmo que minha esposa fosse usando um saco, ainda seria a mais brilhante do lugar."
Ele se aproximou do ouvido dela e baixou a voz, o hálito quente fazendo cócegas na orelha dela.
"No entanto, pessoalmente, ainda recomendo aquele vestido estrelado que você usou em Viena."
"Por quê?"
Beatriz estava um pouco curiosa.
O canto da boca de Lucas se curvou em um arco significativo.
"Porque tenho memórias muito específicas e inesquecíveis daquele vestido."
O rosto de Beatriz corou instantaneamente.
Ela certamente se lembrava.
Naquela noite, na suíte do hotel em Viena, o destino final daquele vestido não podia ser considerado decente.
Ela estendeu a mão e deu um tapinha nele, com uma força leve que parecia uma carícia.
Lucas aproveitou para segurar a mão dela, puxando-a para mais perto.
Ele baixou a cabeça e olhou nos olhos dela, onde não havia vestígios de escuridão, apenas o sorriso tímido que ele provocara.
Ele sabia o que estava escrito naquela carta, e sabia que aquelas coisas não poderiam mais abalá-la nem um pouco.
O Eduardo do passado disse que queria guardar o silêncio para ela, ferindo-a no processo.
E ele, com tudo o que aprendera em sua vida, recuperou o mundo inteiro para ela com suas próprias mãos.
O que era mais importante, ela sabia melhor do que ninguém.
Beatriz de repente ficou nas pontas dos pés e deu um beijo nos lábios dele.
"Lucas."
"Hum?"
Ela olhou nos olhos dele, palavra por palavra, extremamente clara.
"Obrigada por me dar a chance de ouvir novamente."
Capítulo 21
Mas, inesperadamente, alguns dias depois, Beatriz encontrou um convidado inesperado na entrada do centro de pesquisa.
A mãe de Eduardo, a Sra. Ho.
Não se viam há poucos anos, mas aquela senhora outrora elegante e luxuosa parecia ter tido seu espírito drenado.
Vestida com roupas simples e desgastadas, os cabelos brancos em suas têmporas pareciam particularmente gritantes.
Ao ver Beatriz, emoções agitavam-se em seus olhos turvos, restando apenas um cinza desolado no final.
"Beatriz."
A voz estava rouca, como se tivesse sido lixada por papel abrasivo.
Beatriz parou, seu olhar pousando calmamente sobre ela.
"Sra. Ho."
Uma forma de tratamento que traçou todos os limites.
Para esta figura mais velha, que no passado usara todos os tipos de métodos para insinuar que ela não era digna de seu filho "escolhido pelo céu", Beatriz agora sentia que até o ódio era supérfluo.
A Sra. Ho claramente não esperava por essa reação, e todas as palavras que ela tinha preparado ficaram presas em sua garganta.
Ela ficou atordoada por um momento antes de apressadamente tirar uma caixa de veludo azul-escuro da bolsa e estendê-la.
"Isto é o que Eduardo deixou; ele me pediu antes de partir para te entregar, caso ele não voltasse."
As mãos de Beatriz estavam nos bolsos do jaleco branco, e ela não a pegou.
"Acho que o capitão Eduardo não tem mais nada que precise deixar para mim especificamente."
Seu tom era leve, como se estivesse declarando um fato irrelevante para ela mesma.
A mão da Sra. Ho ficou suspensa no ar, e o constrangimento em seu rosto a fazia parecer ainda mais velha.
"Eu sei que nossa família Ho te deve desculpas, Eduardo era um canalha!"
A voz da idosa subiu repentinamente e depois enfraqueceu rapidamente, com choro.
"Depois que ele partiu, organizei seus pertences e li seus diários, só então soube que, por você, ele já havia se submetido a uma vasectomia escondido de todos."
"A culpa é toda minha, fui eu quem ficava murmurando em seus ouvidos todos os dias que a família Ho não podia ficar sem herdeiros, pressionando-o com dever filial, o que o forçou a ter pensamentos tortos, querendo encontrar uma mulher para ser barriga de aluguel e ter um filho para me satisfazer."
"Ele achou que assim poderia resolver ambos os lados, calar minha boca e te proteger; ele era tolo! O resultado foi um passo errado atrás do outro, arrastando vocês dois e a si mesmo para o abismo!"
A idosa soluçava incontrolavelmente ao terminar de falar, tremendo por inteiro.
"Beatriz, imploro, por favor, aceite, considere como o último desejo dele."
Beatriz olhou em silêncio para a idosa de cabelos brancos da noite para o dia.
Toda a obstrução e amargura de outrora, diante do arrependimento dilacerante de uma mãe neste momento, pareciam insignificantes.
Discutir o certo e o errado não tinha sentido.
Ela estendeu a mão e pegou a caixa gelada.
"Sra. Ho, meus pêsames."
Depois de dizer isso, ela se virou e foi embora, sem olhar para trás nem uma única vez.
Ao chegar em casa, as luzes do hall acenderam automaticamente.
Lucas estava de avental, saindo da cozinha com uma xícara de café recém-moído, e ergueu as sobrancelhas ao ver a caixa em suas mãos.
"Espólio?"
Beatriz entregou a caixa para ele: "Espólio de um ex-namorado, Dr. Lucas, tem interesse em abrir este presente comigo?"
Lucas riu com o tom indiferente dela e entregou-lhe o café para aquecê-la.
Ele mesmo pegou a caixa, foi para a sala e a abriu na frente dela.
Não havia joias, não havia cheques lá dentro.
Apenas um anel feito à mão a partir de uma cápsula de bala, com um design grosseiro que até machucava o dedo ao ser usado.
Dentro do anel, estavam gravadas duas letras: F J.
Sob ele, havia um papel amarelado com a caligrafia afiada de Eduardo.
"Bia, feliz casamento, desta vez sou eu quem vou te proteger."
A data da inscrição era o aniversário de um ano de casamento deles.
O mesmo aniversário em que ele faltou ao compromisso por causa de uma missão, e ela esperou sozinha a noite toda.
Acontece que ele não tinha esquecido, mas a proteção tardou demais.
Demorou tanto que o destinatário já havia mudado de endereço, assinando uma vida completamente diferente.
Beatriz ainda não tinha tido tempo de sentir qualquer emoção profunda, quando Lucas já havia pegado o anel, examinando-o contra a luz por dois segundos.
"O artesanato é bom, o conceito de design é falho."
Ele deu seu veredito de oito caracteres e, com um movimento da mão, o anel que carregava um afeto tardio caiu precisamente na lareira em chamas.
"Um produto semiacabado com falhas não merece ser colecionado."
Lucas bateu palmas, como se estivesse jogando fora lixo.
Ele puxou a mão de Beatriz, desviando seu olhar daquela chama e focando-o de volta em si mesmo.
Ele ergueu as mãos que estavam juntas, e sob a luz do sol, as alianças nos dedos anelares de ambos refletiam um brilho quente.
"Isto sim é um produto acabado."
Beatriz olhou para ele, para si mesma refletida claramente em seus olhos, e finalmente não pôde mais se segurar, soltando uma risada.
Que queimasse, então.
Lucas observou o sorriso dela com satisfação e estendeu a mão para bagunçar seu cabelo.
"Muito bem, eventos passados queimados, agora, Sra. Fu, não acha que deveria considerar o que quer jantar esta noite?"
Capítulo 22
Sobre o destino final de Helena, foi Zhao quem mencionou em um e-mail.
O assunto do e-mail era direto: "O mal recebeu o que merecia! Que alívio!".
Ao abrir, deparei-me com o tom habitual e barulhento de Zhao.
"Irmã Beatriz, aquela mulher de sobrenome Xia está acabada. Falsificação de provas, denunciação caluniosa, crimes acumulados; foi condenada a dez anos! Todos os títulos honoríficos foram cassados! Limpo e direto!"
"O ex-marido dela também é um homem duro; assim que pegou a sentença, ele imediatamente se distanciou, pegou a filha e fugiu. Ouvi dizer que se mudaram na calada da noite, ninguém consegue contato. É o famoso 'quando a parede cai, todos empurram', bem feito para ela!"
No final do e-mail, o tom de Zhao tornou-se mais grave.
"O pessoal da equipe comenta que, se o capitão Eduardo ainda estivesse aqui... ah, esqueça, não existem tantos 'se'."