Inculpada pela criança que salvou com a própria vida, tratada da forma mais cruel pelo homem que amou por tantos anos.
A dor física e o desespero emocional, como duas montanhas, a esmagavam completamente.
Eduardo a encarava com olhos injetados de sangue, sua voz cheia de decepção e ódio, como se cada palavra fosse espremida entre os dentes.
"Beatriz, eu achava que você era apenas teimosa, mas não imaginava que você não suportaria nem mesmo uma criança!"
"Se esses ouvidos só trouxeram tanta maldade para você, então não há necessidade de eles existirem!"
Capítulo 6
O coração de Beatriz apertou violentamente.
Mas Eduardo não lhe deu mais chance de falar; ele pegou Sofia no colo e se virou para ir embora.
Uma decisão de punição formal foi emitida rapidamente.
"Após investigação, a socorrista Beatriz, durante o período de treinamento no exterior, violou a disciplina e feriu intencionalmente uma criança, causando graves repercussões."
"Decisão: revogação de suas qualificações de voo de primeiro nível e de resgate de linha de frente, confisco de todas as medalhas de honra e suspensão preventiva."
Cada palavra era como uma faca, estraçalhando a carreira e a dignidade de Beatriz.
Eduardo entregou pessoalmente o documento a ela, com uma expressão tão fria como se estivesse processando um documento sem importância.
"Eu te dei uma chance, deixei você fazer a cirurgia, recuperar a audição."
Sua voz não era alta, mas carregava um peso de julgamento superior.
"Agora, eu também posso tirar suas asas."
Não era a primeira vez que ela passava por algo assim.
Um companheiro de equipe rico, que não gostava dela, tentou sabotá-la durante uma missão para expulsá-la da equipe de resgate.
Eduardo estava em missão no exterior na época, mas quando soube, voltou apressado para apoiá-la.
Sem perguntar quem estava certo ou errado, ele expulsou o homem da equipe e foi extremamente gentil com ela:
"Beatriz, você se assustou? Já consultou um psicólogo? Comigo aqui, ninguém ousa mexer com você."
Ele organizou de forma autoritária a equipe médica mais renomada para que ela fizesse todos os exames necessários.
Naquela época, Beatriz ria e chorava: "Eu estou bem, já fiz exames várias vezes."
Mas Eduardo se culpava com os olhos vermelhos: "Desculpe, eu não te protegi bem."
"Juro, enquanto eu estiver aqui, nunca deixarei ninguém te intimidar!"
Naquela época, como as palavras dele soavam bem?
Mas como eles chegaram ao ponto em que estão hoje?
Após dizer isso, ele se virou e saiu, trancando Beatriz no dormitório junto com a notificação que sentenciou sua carreira.
Pela janela, via-se o céu azul pelo qual ela lutou e suou sangue, mas agora aquele céu não tinha mais nada a ver com ela.
O pilar espiritual desmoronou naquele instante.
Beatriz sentou-se no chão, envolta pelo silêncio sepulcral.
Ela não sabia quanto tempo passou, até que a porta do dormitório foi aberta por alguém do lado de fora.
Quem entrou foi Lucas.
Ele olhou para a Beatriz definhada, com uma dor e uma raiva incontroláveis em seus olhos.
"Eduardo enlouqueceu."
Ele caminhou até ela e colocou dois documentos diante dela.
Um era o acordo de divórcio, o outro, um convite para um curso avançado no Centro de Pesquisa Otológica de elite do Hospital Universitário de Zurique.
"Beatriz, este lugar não merece você."
A voz de Lucas era gentil e firme, "Seu talento não deveria ser enterrado aqui."
"Venha comigo para Zurique, eu vou curar seus ouvidos e farei você se levantar novamente."
No abismo, uma luz brilhou.
Beatriz olhou para aquele convite e finalmente seus olhos ganharam um pouco de brilho.
Ela pegou a caneta e, sem hesitar, assinou seu nome no final do acordo de divórcio.
Beatriz.
O traço da caneta foi decisivo, sem qualquer hesitação.
Sob a proteção de Lucas, Beatriz deixou a base silenciosamente.
Ela não levou nada, exceto o uniforme de treino que teve todas as suas insígnias removidas.
Antes de embarcar, através da imensa janela de vidro do aeroporto, ela olhou pela última vez para o céu azul que amou com sua vida.
Então, ela ergueu a mão e removeu aquele implante coclear que lhe trouxe esperança e dor.
Desta vez, ela escolheu o silêncio por conta própria.
Ela se virou, subiu na rampa de embarque resolutamente e desapareceu completamente do mundo de Eduardo.
Capítulo 7
Eduardo voltou para o dormitório apenas depois de acalmar Helena, ainda carregando uma caixa de tortas de ovo.
Quando ele abriu a porta, já havia ensaiado a cena inúmeras vezes em sua mente.
Beatriz choraria, faria um escândalo ou usaria seu silêncio habitual para resistir.
Mas ao abrir a porta, ele encontrou apenas um silêncio total; o quarto estava vazio, e sobre a mesa havia um documento.
Ele se aproximou e, ao tocar o papel com a ponta dos dedos, percebeu que suas mãos não estavam firmes.
O acordo de divórcio.
Onde deveria estar a assinatura da segunda parte, repousavam silenciosamente os dois caracteres de Beatriz, com o último traço quase rasgando o papel.
Naquele instante, Eduardo sentiu como se tivesse tido uma parte do coração arrancada.
Um sentimento estranho de pânico o envolveu por completo pela primeira vez.
Pela primeira vez, as coisas saíram completamente de suas expectativas e controle.
"Onde está Beatriz?"
Ele saiu correndo do dormitório e agarrou um dos membros da equipe que passava, com a voz extremamente baixa.
O rapaz se assustou e balbuciou: "Não... não vi a irmã Beatriz, capitão..."
Eduardo o soltou e correu imediatamente para a sala de monitoramento, verificando cada quadro de todas as câmeras de saída.
Nada.
Não havia nada.
Ela simplesmente desapareceu no ar.
Ele usou sua autoridade de capitão para tentar rastrear os registros de saída de Beatriz, mas o resultado o deixou com um frio na espinha.
Todas as suas informações haviam sido completamente apagadas.
Junto com ela, Lucas também desapareceu.
Eduardo caminhava de um lado para o outro no escritório e varreu o copo de água da mesa para o chão.
O som do vidro quebrando não conseguia abafar sua agitação interna.
Ele não conseguia aceitar; como Beatriz pôde simplesmente ir embora?
Ele só queria que ela se curvasse e admitisse um erro, queria que ela entendesse que ele era quem ditava as regras naquela relação.
Ele não queria que ela fosse embora! Ele nunca quis que ela fosse embora!
Ele pegou seu telefone particular, pronto para usar uma rede de relacionamentos de nível superior para realizar um rastreamento em escala global.
No entanto, um dia, dois dias, até uma semana se passou... não houve notícia alguma.
Sua rede de inteligência e contatos, da qual ele tanto se orgulhava, tornou-se um monte de lixo na busca por Beatriz.
Eduardo sentou-se no chão, decadente, com garrafas de álcool vazias espalhadas ao redor.
Ele segurava firmemente o acordo de divórcio, com os olhos cheios de desespero.
"Beatriz... você realmente não me quer mais?"
Ele murmurou para si mesmo, virou um gole de bebida forte; o sabor picante queimou sua garganta, mas não era nada comparado ao dilaceramento em seu coração.
Ele sempre pensou que Beatriz não conseguiria viver sem ele, mas agora percebeu que o único que estava prestes a enlouquecer era ele mesmo.
Bem quando ele estava prestes a abrir a próxima garrafa, a porta do dormitório foi aberta gentilmente.
Helena espiou para dentro com timidez.
"Amor..." ela disse com a voz embargada, aproximando-se dele com a criança nos braços. "Não beba mais assim, dói meu coração ver você desse jeito."
Ao ver o estado de descontrole de Eduardo, um brilho de triunfo passou por seus olhos.
Sofia estava com o rosto vermelho de febre, encostada no ombro de Helena, choramingando.
"Papai... não me sinto bem..."
Helena acariciava as costas da filha enquanto tentava confortar Eduardo com um tom de voz compreensivo e gentil.
"Tigre, a irmã Bia só está passando por um momento difícil, não fique tão estressado."
"Ela te ama tanto; quando a raiva passar, ela certamente voltará."
"Veja a Sofia, está com febre alta e continua chamando por você, ela não pode ficar sem o pai..."
Ela usou a criança, usando essas palavras aparentemente benevolentes, para prender Eduardo firmemente no lugar.
Eduardo olhou para Sofia, que demonstrava tanta dependência dele, e depois para Helena, tão atenciosa e minuciosa.
A agitação e o pânico de não conseguir encontrar Beatriz diminuíram um pouco.
Um pensamento absurdo surgiu em sua mente.
Talvez fosse essa a vida que ele deveria ter?
Estável e tranquila, com uma filha adorável e uma mulher que o adorava e dependia dele para sempre.
Ele baixou lentamente a garrafa de bebida e pegou Sofia, que estava com febre, em seus braços.
Ele disse a si mesmo que Beatriz só estava fazendo birra.
Quando ela desse com a cara na porta lá fora, naturalmente voltaria para implorar por ele.
A partir daquele dia, Eduardo parou completamente as buscas por Beatriz.
Ele gastou a energia que usaria para encontrá-la cuidando de detalhes triviais de Helena e sua filha, mergulhando de bom grado na mentira que ele mesmo teceu.
Os dias se passaram.
Eduardo lentamente se acostumou com a ausência de Beatriz, e também com a presença de Helena e Sofia.