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《A Rainha na Gaiola》Capítulo 10

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Capítulo 10: O Sangue na Estufa

O silêncio que preenchia o escritório de Gabriel Vance na madrugada era o de um túmulo corporativo.

A luz azulada e fria da tela do computador de última geração cortava a penumbra do recinto, desenhando contornos nítidos e geométricos sobre o tampo de ébano polido e o piso de mármore escuro.

Isabella operava o teclado com uma precisão cirúrgica e robótica. Seus dedos longos deslizavam pelas teclas mecânicas de perfil baixo, garantindo que nenhum estalo sonoro quebrasse a estática opressiva da cobertura de luxo.

Os quatro primeiros dígitos que ela havia capturado através do reflexo no vidro da estufa — 0723 — abriram a primeira camada de proteção do terminal privado de seu marido.

Em seguida, as coordenadas de rede do diretório oculto denominado Nemesis, anotadas de forma desesperada pela falecida Victoria antes de sumir, rasgaram a barreira final do firewall de segurança.

A barra de carregamento do sistema piscou três vezes na tela fosca, emitindo pequenos flashes que iluminavam os olhos verde-âmbar de Isabella.

O arquivo criptografado finalmente abriu diante de suas pupilas dilatadas. O sistema revelou um diretório extenso de documentos escaneados, memorandos internos e relatórios confidenciais emitidos há exatamente dois anos.

O título da pasta principal era composto apenas por uma data numérica: a noite exata em que o pai de Isabella fora encontrado sem vida em sua antiga mesa de trabalho na holding da família Silva, com as janelas trancadas e uma carta de despedida ao lado.

Isabella inclinou o corpo para a frente, os nós de seus dedos ficando brancos enquanto ela forçava a leitura dos memorandos confidenciais trocados entre Gabriel Vance e Antony, o chefe da segurança particular.

Ali, sob a frieza burocrática dos timbres da Vance Enterprises, estava detalhada a engenharia reversa da ruína de sua família. Havia a transcrição exata das transferências bancárias destinadas a contas numeradas no exterior em nome do médico legista do condado.

Logo abaixo, um relatório técnico de segurança descrevia, com precisão militar, o uso de uma substância paralisante e indetectável, injetada entre os dedos do pé do pai de Isabella para não deixar vestígios ou perfurações visíveis na autópsia oficial.

"O cenário do suicídio por asfixia foi montado sem qualquer anomalia pela equipe de apoio de Antony", dizia a última linha do relatório técnico de encerramento de caso.

"A carta de despedida foi reproduzida digitalmente através de amostras coletadas dos antigos cadernos manuscritos do alvo. O ativo Silva foi liquidado sem ruídos no mercado."

O choque daquela leitura atingiu o peito de Isabella com a força de um soco de ferro, roubando-lhe todo o oxigênio de forma instantânea.

Uma lágrima pesada e quente de puro desespero escapou de seus olhos, cruzando a linha de sua bochecha e caindo direto sobre a tecla de espaço do terminal de ébano, deixando uma pequena marca úmida no plástico.

O mundo ao seu redor pareceu girar de cabeça para baixo na escuridão do escritório proibido; a dor insuportável de descobrir que dividia a cama, o teto, a intimidade e os lençóis com o assassino confesso de seu pai esmagou o que ainda restava de sua juventude e de sua sanidade.

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Ela apoiou os cotovelos no tampo de madeira, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas enquanto um choro silencioso e convulsivo sacudia seus ombros na penumbra.

O luxo ostensivo daquela cobertura em Manhattan, o bracelete de diamantes bruto no pulso esquerdo e o colar simples de pérolas que Gabriel havia fechado ao redor de seu pescoço transformaram-se em instrumentos de tortura visual.

Cada pedaço daquela fortaleza tecnológica fora financiado e erguido com o sangue de sua linhagem biológica.

O homem que prometera proteção contra a ruína financeira fora o responsável por disparar a primeira tempestade contra sua vida.

...

Gradualmente, o tremor de seus ombros cessou no escuro do escritório.

As lágrimas secaram na pele fria da face, deixando apenas rastros opacos sob a luz azul do monitor.

O desespero inicial recuou, abrindo espaço para um ódio gélido, cirúrgico, estruturado e irreversível que tomou conta de cada terminação nervosa de seu corpo.

A inocência de Isabella Silva morreu naqueles segundos de madrugada; no lugar da esposa dócil e submissa, nasceu a arquiteta de uma vingança pura e sem concessões.

Com as costas da mão direita, ela limpou a umidade da tela e do teclado com um movimento rápido e firme.

Isabella introduziu o pequeno dispositivo de armazenamento externo na porta traseira da CPU de Gabriel, os olhos fixos na lista de contratos de liquidação fraudulenta e nas confissões de dívida forçadas que destruíram seu pai.

Seus dedos digitaram os comandos de terminal necessários para iniciar o upload remoto dos dados interceptados para o servidor externo e criptografado que ela havia configurado fora dos limites da rede de Antony.

A transferência dos arquivos confidenciais começou a rodar em segundo plano, consumindo a banda da linha de fibra óptica oculta que ela descobrira no closet. 1%... 2%... O gancho para a destruição sistemática do fundo de investimentos The Noose estava em andamento na tela do computador.

Um ruído abafado e pesado vindo do quarto principal ao lado cortou a estática silenciosa do escritório.

Gabriel Vance moveu-se sobre o colchão king-size, o som de seu corpo mudando de posição entre as plumas ecoando pelo corredor de mármore Carrara.

Isabella recolheu as pernas de imediato, encolhendo-se na poltrona de couro preta enquanto monitorava a fresta de luz sob a porta de carvalho.

A fúria subiu por sua garganta como uma onda de calor sufocante e violenta, uma vontade primitiva e avassaladora de gritar, chorar e quebrar os lustres de cristal daquela prisão de luxo na Quinta Avenida.

Para conter o som do próprio ódio na madrugada silenciosa e não alertar os sensores de presença de Antony, Isabella levou a mão direita à boca e cravou os dentes com força extrema na carne do próprio lábio inferior.

A pressão aumentou de forma dolorosa até que o gosto ferroso, quente e espesso do sangue inundou sua língua, manchando seus dentes na penumbra do recinto.

Ela manteve a mordida severa, suportando a dor física lancinante para silenciar o grito de guerra que ameaçava explodir de seu peito contra o teto de gesso.

No quarto principal, a poucos metros de distância, o ressonar pesado, rítmico e calmo de Gabriel Vance voltou a dominar o ambiente da suíte master.

O assassino continuava a dormir com a tranquilidade daqueles que acreditam que a tecnologia e o dinheiro podem comprar o esquecimento perpétuo.

Isabella soltou o lábio inferior devagar, limpando a gota vermelha que escorria pelo queixo com a ponta do polegar esquerdo, enquanto a barra de carregamento do upload remoto na tela do monitor atingia os 10% de conclusão.

Ela fixou os olhos verde-âmbar no visor azulado, o semblante rígido, frio e inexpressivo banhado pelo sangue de sua promessa de destruição.

O jogo de máscaras social continuaria ao amanhecer na mesa de café, mas o tabuleiro de Gabriel Vance já estava condenado a arder a partir daquela noite no topo do mundo.

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