Capítulo 9: Jogo de Máscaras
O reflexo das luzes halógenas sobre o vidro blindado das vitrines criava um ambiente quase cirúrgico.
A joalheria da Quinta Avenida havia sido mantida aberta exclusivamente para eles após o fechamento do comércio, um capricho que Gabriel Vance pagava com um aceno de cabeça e alguns dígitos na conta do gerente.
O silêncio do estabelecimento vazio era quebrado apenas pelo som dos passos de Gabriel contra o tapete de veludo denso. Isabella caminhava meio passo atrás, os braços colados ao corpo, os olhos verde-âmbar fixos nos sapatos de couro dele.
Gabriel parou diante do balcão central, onde o funcionário da loja exibia bandejas de veludo negro cobertas por diamantes brutos, safiras imperiais e esmeraldas colombianas que valiam mais do que a antiga holding da família Silva.
"Escolha, Bella", Gabriel quebrou a calmaria, a voz barítona ecoando no espaço amplo. "O que você quiser. Considere um prêmio pela sua... adaptabilidade."
Isabella não moveu um músculo da face de imediato. Ela sentiu o peso do olhar azul-glacial do marido rastreando cada milímetro de suas pupilas, buscando o menor brilho de ganância, a menor hesitação que confirmasse a suspeita dele.
A energia entre os dois havia mudado desde a noite anterior; Gabriel farejava o perigo com o instinto de quem construiu um império sobre a ruína alheia. Aquilo não era um presente. Era uma emboscada psicológica montada para medir o tamanho da ambição de sua prisioneira.
"São todas... peças muito imponentes, Gabriel", ela limitou-se a dizer, mantendo o tom de voz manso, o semblante esculpido na mais pura inocência doméstica.
"Eu não perguntei sobre a imponência delas, minha querida", ele deu um passo lateral, encurtando a distância até que o calor de seu corpo a pressionasse contra o balcão.
"Quero saber o que atrai você. Os diamantes? As esmeraldas? O que preenche o vazio que seu pai deixou?"
A provocação foi cirúrgica, um estilete direcionado ao orgulho dela. Isabella forçou os nós de seus dedos a relaxarem sobre o vidro da vitrine.
Se ela escolhesse as pedras mais caras, Gabriel saberia que ela cobiçava o poder financeiro; se ela demonstrasse interesse excessivo pelos fechos ou pela segurança das peças, ele desconfiaria de sua recente infiltração no escritório. Ela precisava recuar no tabuleiro.
Com uma lentidão calculada, Isabella ignorou as bandejas de brilhantes e apontou para o canto inferior da última gaveta de camurça, onde repousava um colar simples de pérolas naturais, sem adornos de ouro ou detalhes extravagantes.
"Aquele", ela sussurrou, olhando-o nos olhos com uma serenidade inabalável.
Gabriel franziu o cenho milimetricamente, a desconfiança natural de sua linhagem tensionando os cantos de sua boca.
"Pérolas, Bella?", ele pegou a peça, segurando o fio texturizado entre os dedos enluvados de couro preto. "Qualquer mulher em Manhattan mataria pelo colar de safiras ao lado. Por que escolher o mais simples?"
"As safiras exigem uma atenção que não combina com a minha rotina na cobertura", ela respondeu de pronto, de forma fluida e natural, entregando a ele a narrativa de futilidade e quebra emocional que ele tanto saboreava.
"As pérolas são... silenciosas. Elas não competem com o ambiente."
Gabriel manteve as pupilas fixas nas dela por três segundos intermináveis. O silêncio na joalheria tornou-se claustrofóbico, um cabo de guerra invisível onde a menor contração muscular de Isabella significaria o fim de seu plano.
...
Gradualmente, a rigidez nos ombros de Gabriel cedeu. A vaidade e o orgulho do bilionário retomaram o controle, engolindo a paranoia técnica que o guiara até ali.
Ele soltou uma risada baixa, desprovida de humor real, satisfeito ao ver que sua "boneca" continuava sendo a criatura frágil, quebrada e previsível que ele comprou nos despojos do mercado financeiro.
O prazer de tê-la desarmado por completo correu pelas veias de Isabella, enquanto ela assistia à restauração da falsa sensação de segurança do inimigo.
"Você tem razão, minha doce Bella", Gabriel murmurou, contornando o corpo dela e posicionando-se às suas costas diante do espelho oval do balcão.
"O excesso de brilho só serve para quem precisa implorar por atenção. Você só precisa pertencer a mim."
O gancho de sua atuação operou o milagre necessário: ao acreditar que a esposa não possuía ambições intelectuais ou financeiras, Gabriel relaxaria os protocolos de vigilância sobre as chaves físicas e os logs de acesso do escritório no andar inferior, considerando-a inofensiva demais para representar uma ameaça ao sistema.
Ele ergueu o colar de pérolas, os dedos longos aproximando o metal do pescoço alva de Isabella.
A textura fria das esferas tocou a pele dela, provocando um arrepio involuntário que ela disfarçou inclinando a cabeça ligeiramente para trás.
Gabriel aproximou o rosto de sua bochecha, o hálito quente de sua colônia amadeirada invadindo o espaço entre os dois.
Com um clique metálico e seco, ele fechou o fecho de platina na nuca de Isabella.
"Deliciosamente previsível", ele sussurrou perto do ouvido dela, os olhos azul-glacial fixos no espelho, admirando a simetria de sua nova aquisição decorativa. "Exatamente como eu planejei que você fosse."
"Obrigada, Gabriel", ela limitou-se a dizer para o reflexo dele, mantendo o sorriso dócil enquanto sentia o peso das pérolas contra a garganta, como uma nova coleira de luxo cujos nós ela aprenderia a desatar no escuro da próxima madrugada.