O monitor ficou preto.
Ninguém falou.
Ninguém se moveu.
O silêncio dentro do abrigo parecia sufocante.
Daniel continuava olhando para a tela apagada.
Tentando entender.
Tentando respirar.
Tentando acreditar.
Mas não conseguia.
Porque uma única frase continuava ecoando dentro da sua cabeça.
Ela foi assassinada.
Não acidente.
Não azar.
Não destino.
Assassinada.
Ana segurava Sofia contra o peito.
A menina tremia.
Marcos permanecia ao lado dos monitores.
Arma em punho.
Mas Daniel mal percebia.
Sua mente estava em outro lugar.
Três anos atrás.
No hospital.
Naquela última noite.
Nas últimas palavras de Isabela.
Em tudo que ele não viu.
Em tudo que ele ignorou.
"Não."
A palavra saiu baixa.
Quase inaudível.
"Senhor?"
Marcos olhou para ele.
Daniel passou a mão pelo rosto.
"Não."
Agora mais forte.
Mais desesperado.
"Ela estava comigo."
Silêncio.
"Eu vi os relatórios."
Silêncio.
"Eu vi os médicos."
Silêncio.
"Eu vi o carro."
Mas enquanto falava...
já não tinha certeza.
Porque também viu Isabela chorando.
Viu Isabela pedindo ajuda.
Viu Isabela tentando conversar.
E falhou todas as vezes.
Ana observava em silêncio.
Sem interromper.
Porque sabia.
Sabia exatamente o que ele estava sentindo.
Culpa.
A pior de todas.
Daniel aproximou-se lentamente do monitor.
Como se Vítor ainda pudesse estar ali.
"Se ela foi assassinada..."
A voz falhou.
"...então eu deixei acontecer."
A sala inteira ficou imóvel.
Sofia levantou os olhos.
Pequena.
Confusa.
Assustada.
"Papai?"
Daniel imediatamente se ajoelhou.
Segurou o rosto da filha.
Tentando sorrir.
Falhando miseravelmente.
"Nada vai acontecer com você."
Mas naquele momento ele já não acreditava nem nas próprias palavras.
Porque percebeu algo terrível.
O alvo nunca foi ele.
Nunca foi sua fortuna.
Nunca foi a empresa.
Era Isabela.
Desde o começo.
Marcos quebrou o silêncio.
"Vítor pode estar mentindo."
Daniel levantou os olhos.
"Pode."
"Pode ser uma armadilha."
"Pode."
"Pode estar tentando nos dividir."
Daniel assentiu.
Mas havia um problema.
Mesmo mentindo...
Vítor conhecia detalhes demais.
Detalhes que ninguém deveria conhecer.
Detalhes que apenas Isabela saberia.
Ou alguém muito próximo dela.
A chuva continuava batendo acima deles.
Forte.
Violenta.
Como se o mundo inteiro estivesse desabando.
Ana falou pela primeira vez.
"Ela tinha medo."
Daniel fechou os olhos.
Outra vez aquela frase.
Outra vez aquela verdade.
"Ela estava aterrorizada."
Silêncio.
"E eu não percebi."
Ana não respondeu.
Porque não precisava.
A resposta já estava diante deles.
Durante três anos.
Todos os dias.
Daniel conviveu com o retrato da esposa.
Mas nunca encarou o próprio fracasso.
Até agora.
Marcos voltou para os monitores.
Tentando recuperar o sistema.
Tentando encontrar Vítor.
Tentando encontrar qualquer coisa.
Então uma imagem apareceu.
Por apenas alguns segundos.
Um corredor.
Vazio.
Escuro.
Depois desapareceu novamente.
Marcos praguejou.
"Alguém está dentro da rede."
Daniel virou imediatamente.
"Vítor?"
"Não sei."
Mas antes que pudesse terminar...
o sistema de comunicação voltou a chiar.
Estática.
Ruído.
Interferência.
E então a voz retornou.
Calma.
Controlada.
Perigosa.
"Daniel."
Sofia se encolheu.
Ana apertou a mão dela.
Marcos correu para o painel.
"Localize o sinal."
Mas Vítor apenas riu.
Baixo.
Como se já soubesse que era impossível.
"O tempo está acabando."
Daniel aproximou-se.
"O que você quer?"
Silêncio.
Então Vítor respondeu.
"A mesma coisa que Isabela queria."
A resposta fez Daniel congelar.
"A verdade."
Ninguém falou.
Vítor continuou.
"Você ainda acha que tudo isso é sobre dinheiro."
Silêncio.
"Acha que é sobre a empresa."
Silêncio.
"Acha que é sobre você."
A voz ficou mais baixa.
Mais séria.
"Mas nunca foi."
Daniel sentiu um arrepio.
"Então sobre quem?"
A resposta veio imediatamente.
"Sofia."
O mundo pareceu parar.
Ana levantou a cabeça.
Marcos ficou imóvel.
Daniel sentiu o coração falhar uma batida.
"Sofia?"
"Ela viu alguma coisa."
A menina agarrou Ana instantaneamente.
Vítor continuou.
"Uma coisa que não deveria lembrar."
Daniel ficou gelado.
"O que ela viu?"
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Então Vítor respondeu.
"Pergunte sobre o anel."
A transmissão falhou novamente.
Desapareceu.
Silêncio.
Absoluto.
Daniel virou lentamente.
Olhou para Sofia.
Sua filha parecia ainda menor agora.
Mais frágil.
Mais assustada.
Como se já soubesse a resposta.
"Sofia."
A voz dele ficou suave.
Cuidadosa.
"Você lembra de algum anel?"
A menina não respondeu.
Daniel esperou.
Ana também.
Marcos observava em silêncio.
Finalmente Sofia assentiu.
Devagar.
Os olhos cheios de lágrimas.
"Eu lembro."
Daniel sentiu o coração acelerar.
"Como era?"
A menina demorou alguns segundos.
Tentando encontrar as palavras.
Então respondeu.
"Parecia uma cobra."
Ninguém respirou.
"Uma cobra?"
Sofia assentiu.
"Prateada."
O sangue desapareceu do rosto de Daniel.
Porque ele conhecia aquele anel.
Conhecia muito bem.
Poucas pessoas no mundo tinham visto aquele anel.
Mais poucas ainda poderiam esquecê-lo.
Marcos percebeu imediatamente.
"O quê?"
Daniel não respondeu.
Não conseguia.
Porque uma memória tinha acabado de voltar.
Reuniões.
Jantares.
Eventos.
Um homem sorrindo.
Sempre usando aquele mesmo anel.
Sempre.
Marcos olhou para ele.
"Quem?"
Daniel finalmente respondeu.
"Elias."
O nome caiu como uma bomba.
Ana ficou imóvel.
"Não."
Daniel fechou os olhos.
Porque também não queria acreditar.
Mas sabia.
Sabia exatamente quem era.
Elias Valente.
Chefe jurídico do Grupo Monteiro.
Seu conselheiro mais próximo.
Seu amigo há mais de quinze anos.
O homem que esteve ao seu lado após a morte de Isabela.
O homem que organizou a investigação.
O homem que o ajudou durante o luto.
O homem que Sofia acabara de identificar.
"Não..."
Ana balançou a cabeça.
"Deve haver outro anel."
Mas Daniel já não tinha certeza de nada.
Apenas olhou para Sofia.
"O que ele estava fazendo?"
A menina respirou fundo.
Tentando lembrar.
"Ele estava discutindo com a mamãe."
Silêncio.
A temperatura da sala pareceu cair.
"Onde?"
"No jardim."
"Quando?"
"A noite antes do acidente."
Daniel sentiu o mundo girar.
A última noite.
Outra vez.
Sempre a última noite.
"O que eles diziam?"
Sofia franziu a testa.
Pensando.
"Eu não lembro."
Daniel aproximou-se.
"Está tudo bem."
A menina continuou.
"Mas mamãe estava chorando."
O peito dele se despedaçou novamente.
"Ela parecia triste."
Silêncio.
"Muito triste."
Ana passou a mão pelos cabelos de Sofia.
Tentando acalmá-la.
Mas a menina ainda não tinha terminado.
"E ele viu que eu estava olhando."
Daniel congelou.
"O que aconteceu depois?"
Sofia baixou os olhos.
Como se tivesse medo daquela lembrança.
"Ele sorriu."
A sala inteira ficou em silêncio.
Porque crianças não esquecem esse tipo de coisa.
Daniel sentiu um frio percorrer a espinha.
Lento.
Cruel.
Implacável.
Então Sofia falou algo que destruiu o que restava dele.
"Mamãe pediu para eu nunca contar."
Daniel ficou imóvel.
"O quê?"
As lágrimas escorreram pelo rosto da menina.
"Ela disse que você também correria perigo."
Silêncio.
Absoluto.
Pesado.
Insuportável.
Daniel fechou os olhos.
Porque finalmente entendeu.
Isabela não estava tentando proteger a si mesma.
Estava tentando proteger Sofia.
E ele.
Até o fim.
Mesmo assustada.
Mesmo sozinha.
Mesmo sem ajuda.
Marcos voltou-se para os monitores.
Tentando recuperar alguma imagem.
Qualquer imagem.
Então a tela piscou.
Uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
E uma nova câmera apareceu.
O corredor principal da Mansão Monteiro.
Vazio.
Silencioso.
Por alguns segundos.
Então alguém entrou no enquadramento.
Alto.
Elegante.
Calmo.
Como se não tivesse nada a esconder.
Daniel sentiu o sangue congelar.
Porque reconheceu imediatamente.
Elias Valente.
Parado diante da câmera.
O anel de cobra brilhando sob a luz vermelha do alarme.
E olhando diretamente para eles.