O corredor ficou imóvel.
Não por causa de Ana.
Não por causa do perfume.
Mas por causa do que aquilo significava.
Daniel Monteiro não conseguia tirar os olhos dela.
Jasmim.
Agora ele sentia claramente.
Fraco.
Quase desaparecendo.
Mas ainda ali.
O mesmo perfume que Isabela usava havia anos.
O mesmo perfume que permanecia nos lençóis.
Nas roupas.
Nos abraços.
Nas lembranças.
Durante três anos, aquele cheiro perseguiu Daniel por toda a Mansão Monteiro.
E agora...
ele vinha da empregada.
"Como?"
Sua voz saiu baixa.
Perigosa.
Ana abaixou os olhos.
Não respondeu.
"Como você conseguiu esse perfume?"
Silêncio.
Sofia continuava segurando sua mão.
Como se tivesse medo de que alguém a levasse embora.
Daniel repetiu:
"Ana."
Ela fechou os olhos.
Por um segundo.
Apenas um segundo.
Mas foi suficiente.
Porque Daniel percebeu.
Ela estava escondendo alguma coisa.
Algo grande.
Algo antigo.
Algo relacionado a Isabela.
"Foi ela quem me deu."
O mundo pareceu parar.
Daniel piscou.
Uma vez.
Devagar.
"Não."
Ana permaneceu imóvel.
"Foi."
"Isso é impossível."
Sua voz saiu mais alta desta vez.
Mais dura.
Mais emocional.
Porque ele sabia exatamente como Isabela havia morrido.
Hospital.
Cirurgias.
Máquinas.
Médicos.
Horas intermináveis ao lado da cama.
Não houve despedidas secretas.
Não houve visitas escondidas.
Não houve tempo.
Então como?
Como sua esposa havia entregado algo tão pessoal para uma empregada?
Dona Hargrave deu um passo à frente.
"Senhor..."
Daniel ergueu a mão.
Sem desviar os olhos de Ana.
"Quando?"
Ana engoliu em seco.
"A semana antes do acidente."
O coração de Daniel falhou uma batida.
A semana antes.
Imediatamente uma memória surgiu.
Nítida.
Dolorosa.
Isabela chorando no quarto.
Ele fechando uma mala para uma viagem.
Ela pedindo para conversar.
Ele olhando o relógio.
Ela dizendo:
"Você não está me ouvindo."
E ele respondendo:
"Você está exagerando."
Daniel sentiu o estômago revirar.
Porque agora...
pela primeira vez...
ele não tinha certeza de que ela estivesse exagerando.
"Você conhecia minha esposa."
Não era uma pergunta.
Era uma conclusão.
Ana demorou alguns segundos para responder.
Então assentiu.
Devagar.
"Sim."
O silêncio explodiu dentro do corredor.
Sofia levantou a cabeça.
Confusa.
“Papai não sabia.”
Daniel virou imediatamente.
"O quê?"
Sofia piscou.
Como se não entendesse o problema.
"Mamãe visitava o quarto da Ana."
O sangue desapareceu do rosto de Daniel.
"O quê?"
Ana fechou os olhos.
Dona Hargrave levou a mão à boca.
Tarde demais.
Sofia já havia falado.
"Mamãe ia lá."
"Quando?"
"Às vezes."
"Quando?"
"Antes do acidente."
Daniel sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Porque aquilo não fazia sentido.
Nada fazia sentido.
Sua esposa.
A mulher que compartilhava sua casa.
Sua vida.
Seu sobrenome.
Escondendo encontros com uma empregada.
Sem que ele soubesse.
Sem que ele percebesse.
Como?
Como era possível?
Então uma lembrança voltou.
A última mensagem de voz de Isabela.
Poucos dias antes da morte.
Três palavras.
Três palavras que ele nunca entendeu.
Ela sabe tudo.
Na época, parecia sem sentido.
Agora não.
Agora parecia um aviso.
Daniel encarou Ana.
"O que minha esposa contou para você?"
Ana respirou fundo.
Mas não respondeu.
"O que ela contou?"
Sofia apertou sua mão.
"Papai..."
Daniel não ouviu.
Pela primeira vez desde a morte de Isabela...
ele estava com medo.
Não de Ana.
Mas da possibilidade de nunca ter conhecido verdadeiramente sua esposa.
Ana finalmente falou.
"Ela estava infeliz."
Daniel soltou uma risada amarga.
Curta.
Sem humor.
"Isso eu já sei."
"Não."
Ana levantou os olhos.
Pela primeira vez.
Diretamente para ele.
"Você sabia que ela estava sozinha."
Daniel congelou.
Ana continuou:
"Não é a mesma coisa."
As palavras atingiram em cheio.
Porque eram verdadeiras.
Daniel amava Isabela.
Sempre amou.
Mas amor e compreensão não são a mesma coisa.
E talvez...
ele tivesse confundido os dois durante anos.
"O que mais?"
Ana hesitou.
Tempo demais.
Daniel percebeu imediatamente.
Havia mais.
Muito mais.
"O que mais, Ana?"
Ela respirou fundo.
Os olhos começaram a ficar vermelhos.
"Ela tinha medo."
O corredor ficou gelado.
"Medo de quê?"
"Eu não sei."
"Não minta para mim."
"Eu não estou mentindo."
A voz dela falhou.
"Ela dizia que alguma coisa estava errada."
Daniel sentiu um arrepio.
"Que coisa?"
"Ela não explicava."
"Ana."
"Ela só dizia que precisava proteger Sofia."
O nome da filha atingiu Daniel como uma pancada.
Porque tudo voltava para Sofia.
Sempre voltava para Sofia.
"Proteger de quem?"
"Eu não sei."
"Você sabe."
"Não."
"Ana."
"Eu não sei."
Sofia observava tudo em silêncio.
Assustada.
Confusa.
Pequena demais para entender.
Grande demais para não sentir.
Então Daniel fez a pergunta que realmente importava.
"Por que ela confiou em você?"
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Ana desviou o olhar.
Mas respondeu.
"Porque eu escutava."
Daniel não conseguiu falar.
Porque aquilo doeu mais do que qualquer outra coisa.
Eu escutava.
Não porque era mais inteligente.
Não porque era mais importante.
Não porque era especial.
Mas porque estava presente.
E Daniel não estava.
A verdade era simples.
Cruelmente simples.
Ana escutava.
Ele não.
Sofia aproximou-se dela imediatamente.
Instintivamente.
Como fazia sempre.
E aquilo destruiu alguma coisa dentro dele.
Porque sua filha procurava conforto em outra pessoa.
Não nele.
Não mais.
Daniel passou a mão pelo rosto.
Tentando respirar.
Tentando pensar.
Tentando juntar pedaços de uma vida que começavam a não fazer sentido.
Então viu Ana colocar a mão no bolso do avental.
Lentamente.
Ela parecia nervosa.
Quase assustada.
Como alguém prestes a atravessar um ponto sem retorno.
"Tem mais uma coisa."
Daniel ergueu os olhos.
Ana retirou um objeto pequeno.
Prateado.
Brilhando sob a luz do corredor.
Por um segundo ninguém falou.
Ninguém respirou.
Ninguém se moveu.
Porque Daniel reconheceu imediatamente.
A chave.
A chave da sala de música.
A sala que permanecia trancada desde a morte de Isabela.
A sala onde ninguém entrava.
Nunca.
Os dedos de Ana tremiam.
"Ela me pediu para guardar isso."
Daniel ficou imóvel.
"Por quê?"
A voz quase não saiu.
Ana olhou para Sofia.
Depois para Daniel.
E finalmente respondeu:
"Porque se alguma coisa acontecesse com ela..."
Sua voz falhou.
"...eu deveria entregar para Sofia."
O mundo pareceu parar.
Daniel encarou a chave.
Depois Ana.
Depois sua filha.
E pela primeira vez em três anos...
um pensamento impossível surgiu.
E se Isabela estivesse escondendo algo?
E se a morte dela não fosse apenas um acidente?
E se existisse uma parte da história que ninguém conhecia?
O silêncio ficou sufocante.
Então aconteceu.
BEEEEEEEEEEP.
O alarme explodiu pela Mansão Monteiro.
Luzes vermelhas acenderam imediatamente.
Os corredores ficaram tingidos de vermelho.
Sofia deu um grito.
Dona Hargrave levou a mão ao peito.
Passos começaram a ecoar no andar de baixo.
Gritos.
Correria.
Portas batendo.
E então a voz do chefe de segurança atravessou a Mansão Monteiro inteira.
"Sr. Monteiro!"
Daniel virou instantaneamente.
"O que aconteceu?"
A resposta veio acompanhada por puro pânico.
"Alguém invadiu a propriedade!"
E naquele exato momento...
um disparo ecoou do lado de fora.
Fazendo toda a Mansão Monteiro estremecer.
Sofia começou a tremer.
E sussurrou algo que fez o sangue de Daniel gelar.
"É ele..."
Daniel virou imediatamente.
"Quem?"
Sofia olhou para as luzes vermelhas.
Os olhos cheios de medo.
"O homem de quem a mamãe estava escondendo."