Seraphina não conseguia entender o quão ingênua ele pensava que ela fosse para usar repetidamente o pretexto do casamento apenas para proteger Sabrina.
Ela e Sabrina jamais pertenceriam à mesma família.
Ela ergueu a mão para afastá-lo, com o olhar carregado de rejeição. "Não estou disposta. O que você realmente quer vindo aqui hoje?"
Enzo sentiu um leve descontentamento ao ser rejeitado várias vezes seguidas, mas manteve a postura contida.
"Na verdade... preciso que você me faça um favor."
"A Sabrina perdeu uma corrida de carros ontem e a aposta envolvia um colar de pedras preciosas, além de ter que passar a noite com o adversário. Estou sem saídas e pensei que você pudesse ir no lugar dela para tirá-la daquela situação."
O coração de Seraphina afundou completamente. Então ele havia aparecido ali de forma tão insistente apenas para fazê-la assumir a humilhação no lugar de Sabrina.
Notando o silêncio dela, Enzo apressou-se em complementar: "Não se preocupe. Assim que você conseguir tirar a Sabrina de lá, as pessoas que contratei entrarão em ação para te resgatar imediatamente, você não sofrerá nenhum dano."
Antes que Seraphina pudesse verbalizar sua recusa, o celular de Enzo vibrou com uma chamada de vídeo de urgência.
Assim que a ligação foi completada, uma voz desesperada ecoou do outro lado: "Chefe, deu ruim! A Sabrina foi levada à força pelo Caio!"
A imagem na tela oscilou bruscamente e Seraphina vislumbrou um detalhe que fez suas pupilas se contraírem de imediato.
No visor, Sabrina era contida à força pelo homem chamado Caio, que puxava de seu pescoço um colar de safiras extremamente familiar.
Era a única recordação de sua falecida mãe.
Sua mãe havia lhe entregado aquele colar em seu leito de morte. Ela pretendia levá-lo na viagem e passou os últimos dias procurando por ele sem sucesso. Jamais imaginou que Sabrina o teria furtado para usá-lo como garantia em uma aposta de corrida.
"Merda!"
Enzo soltou uma praga, sua expressão obscurecendo instantaneamente. Ele segurou o pulso de Seraphina com uma força desmedida, quase capaz de fraturar seus ossos.
"Estamos sem tempo, venha comigo!"
Seraphina franziu o cenho pela dor, tentando se libertar. "Por que eu deveria ajudá-la? Enzo, entenda de uma vez, eu não tenho nenhum laço de sangue com ela!"
"A mãe dela foi a amante que destruiu o lar da minha mãe, e ela é apenas uma filha ilegítima que vive às sombras. Por que eu deveria arcar com as consequências dos erros que ela comete?"
"Cale a boca!"
Um brilho de hostilidade surgiu nos olhos de Enzo enquanto ele tentava conter a própria fúria.
"Como você consegue ser tão cruel em suas palavras? Independentemente de tudo, ela ainda é sua irmã perante a sociedade. O que você quer para aceitar ajudá-la?"
Seraphina olhou para a postura protetora dele e esboçou um sorriso desprovido de calor.
"Por causa dela, eu recebi vinte chibatadas. Eu posso ir, mas você terá que receber esses mesmos vinte golpes no lugar dela."
Enzo hesitou por um momento, claramente pego de surpresa pela exigência, suas sobrancelhas se unindo profundamente.
No entanto, avaliando a urgência da situação de Sabrina, ele cerrou os dentes e se dirigiu ao salão ancestral para solicitar os castigos.
"Comecem, andem logo."
Os funcionários hesitaram por um breve instante, mas logo ergueram os chicotes.
O som nítido do primeiro impacto ecoou quando a lâmina atingiu as costas de Enzo, marcando imediatamente a sua camisa escura com um traço avermelhado.
Ele soltou um gemido contido, enquanto o suor frio brotava em sua testa.
Golpe após golpe, ao final das vinte chibatadas, as costas de Enzo estavam completamente feridas e a camisa ensopada de sangue.
"Agora, podemos ir?"
Seraphina permaneceu ao lado, observando friamente o sacrifício dele por Sabrina, sentindo um amargor profundo.
Então era daquela forma que ele agia quando realmente amava alguém: aceitava o ferimento e se submetia à humilhação.
Ela percebeu o quanto havia sido cega por se deixar levar por suas palavras ilusórias por tanto tempo.
"Mostre o caminho."
Sua decisão não era para salvar Sabrina e muito menos por Enzo, mas sim para recuperar o objeto que pertenceu à sua mãe, sua única lembrança afetiva naquela casa.
Enzo conduziu Seraphina até o local da corrida e a utilizou como moeda de troca para libertar Sabrina.
Ela acompanhou Caio até as dependências do hotel e aproveitou o momento em que ele entrou no chuveiro para reaver o colar de safiras.
O tempo passou lentamente e o som da água no banheiro cessou. Seraphina percebeu que Enzo não pretendia cumprir a promessa de resgatá-la.
A inquietude em seu peito cresceu, fazendo-a pegar o celular para realizar uma chamada.
O aparelho chamou por um longo período antes de ser atendido.
Capítulo 5
A voz afetada de Sabrina ecoou pelo receptor: "Eu passei por um grande susto hoje, então convenci o Enzo e os amigos dele a saírem para beber comigo. Não se preocupe, ninguém vai interromper vocês dois esta noite."
A ligação foi encerrada logo em seguida.
Nesse exato momento, a porta do banheiro se abriu e Caio avançou com um olhar predatório, aproximando-se passo a passo.
Ele estendeu a mão na tentativa de rasgar a gola da blusa dela.
"Afaste-se!"
A voz de Seraphina vacilou.
"Não se faça de difícil, o Enzo já deve ter se divertido bastante com você."
Caio segurou suas roupas com força, sua respiração pesada tocando o pescoço dela.
Presa contra a cama, ela tentou se defender de todas as formas. Ao notar o vaso de vidro na mesa de cabeceira, segurou-o com toda a sua força e o desferiu contra a nuca de Caio.
O vidro se estilhaçou com o impacto e o sangue cobriu a cabeça do homem, que desabou desmaiado.
Ignorando o próprio desalinho, Seraphina recolheu um casaco do sofá para se cobrir e correu em direção à saída.
O vento da noite estava cortante contra o seu rosto.
Com as roupas desalinhadas e os cabelos dispersos, ela caminhou com dificuldade até alcançar a residência dos Silva.
O Sr. Silva estava instalado no sofá da sala fumando. Ao notar o estado da filha, exibiu uma expressão de repúdio e esbravejou:
"Onde você estava se expondo dessa maneira? Voltar para casa nesse estado é o seu jeito de cobrir nossa família de vergonha mais uma vez?"
Antes que Seraphina pudesse formular uma justificativa, seu pai arremessou um maço de documentos diretamente contra ela.
"Estes são os papéis de admissão para a escola de artes no exterior, você tem a obrigação de passar nos exames. Se falhar, não espere nenhum apoio meu, a família Silva não sustentará alguém que age de forma tão desregrada."
Seraphina fitou os papéis e a fisionomia indiferente de seu pai, sentindo suas forças se esvaírem por completo.
Ao retornar ao quarto, abriu os testes e deparou-se com o tema proposto, sentindo um aperto no peito.
O tema exigia retratar um familiar próximo.
Seraphina esboçou um sorriso desalentado.
Sua mãe havia partido, seu pai nutria apenas desdém por ela, e a única pessoa que mantinha um carinho genuíno era sua avó.
No entanto, desde a repercussão das imagens na internet, para poupar a idosa de qualquer sofrimento, ela havia configurado o bloqueio de notícias no aparelho da avó e evitado visitá-la.
Sua avó ainda não sabia de sua partida e certamente aguardava por seu retorno.
Seraphina conteve a emoção e passou a traçar os contornos da fisionomia de sua avó com base em suas lembranças.
Quando a obra estava quase finalizada, um ruído discreto vindo da janela chamou sua atenção.
Seraphina ergueu os olhos e notou a estrutura sendo aberta lentamente, dando passagem para uma silhueta alta.
Era Enzo.
Ele se aproximou com rapidez, adotando um tom moderadamente arrependido: "O que aconteceu hoje foi um erro meu, acabei retido por outros compromissos. Quando cheguei ao hotel, você já não estava mais lá."
Enzo tentou tocá-la no ombro enquanto se explicava: "Não há com o que se preocupar, eu já intimidei o Caio, ele não causará novos problemas."
O olhar de Seraphina permaneceu completamente vago, sem qualquer vestígio de emoção.
Fitando o homem que um dia despertou seus sentimentos para depois conduzi-la ao sofrimento, ela pronunciou com total serenidade:
"Enzo, vamos terminar."
A expressão de Enzo congelou. "Seraphina, o que está dizendo?"
"Terminar." Seraphina repetiu de forma firme. "A partir de hoje, não temos mais nenhum vínculo."
Enzo hesitou por instantes antes de esboçar um riso sem graça, assumindo que fosse apenas uma reação momentânea à indignação.
"Eu compreendo que você passou por uma situação difícil hoje, aceitarei qualquer castigo que quiser impor, mas não use o término como brincadeira."
"Foi uma falha de planejamento da minha parte, vou te levar para espairecer e esquecer isso."
Seraphina manteve o silêncio, mas Enzo, convicto de que se tratava de um capricho, segurou seu pulso e a conduziu para fora.
Se causasse algum tumulto que despertasse o Sr. Silva, as consequências recairiam apenas sobre ela.
Ela conteve a reação e permitiu ser guiada por Enzo, deixando a residência sem alarde.