A sala de aula estava completamente vazia e silenciosa, exibindo no quadro-negro o último conteúdo que ela escrevera — um trecho de uma obra clássica sobre perdas e ausências melancólicas: "Havia uma árvore plantada no quintal no ano em que minha esposa partiu; hoje ela cresceu e estende a sua copa frondosa, testemunhando a passagem do tempo."
Ele tinha lembrança daquela lição.
No dia em que completaram dez anos de casados, Xênia vestira um traje especial e fizera a leitura daquele mesmo texto para ele em casa. Na ocasião, devido ao cansaço e ao consumo de bebida em um compromisso de negócios, ele adormeceu sobre a mesa enquanto ela falava.
Posteriormente, ele encontrara um registro nas páginas do diário dela: "Ele não compreende a dor da ausência definitiva, assim como é incapaz de mensurar a dimensão do afeto que dedico a ele."
Agora, ele compreendia perfeitamente.
Samuel segurou um pedaço de giz e, com as mãos trêmulas, adicionou uma linha ao lado da caligrafia dela:
"As palavras encontram um limite, mas o sentimento é permanente."
O pó do giz descia lentamente pela superfície do quadro, assemelhando-se a um suspiro silencioso naquele ambiente.
Ele abriu a gaveta do tablado do professor e deparou-se com um lote de redações escolares ainda sem correção; o texto do topo exibia o tema: "A pessoa a quem dedico a minha maior gratidão".
O aluno registrara em linhas simples: "Minha maior gratidão é direcionada à Professora Xênia. Ela sempre nos ensina que, por mais complexas que sejam as circunstâncias, enquanto houver determinação, haverá uma possibilidade de mudança."
As correções a caneta vermelha de Xênia apresentavam uma interrupção no meio da página, acompanhada de uma observação final:
"Nota da professora: A esperança constitui a ferramenta mais valiosa que podemos carregar em nossa trajetória. Por essa razão, jamais abra mão de buscar uma transformação."
Samuel recolheu os cadernos de redação e sentou-se na cadeira que ela costumava ocupar diante da turma.
A claridade da manhã começou a adentrar gradualmente pelas janelas da sala de aula.
A luz do sol iluminava os traços no quadro-negro, preenchia o espaço vazio do tablado e evidenciava... a imensa solidão de um mundo que não contava mais com a presença dela.
Nesse instante, o celular emitiu o alerta de uma chamada de longa distância.
Tratava-se de uma ligação internacional feita por seu filho, Henrique.
Samuel fixou os olhos na palavra "Filho" piscando na tela, sentindo uma completa ausência de coragem para atender.
Ele tinha plena consciência do teor dos questionamentos do jovem.
Sabia que ele entraria em desespero, sofreria um forte abalo emocional e direcionaria toda a sua indignação contra ele.
Contudo, a recusa da chamada não era uma opção.
Ele acionou o comando de atendimento com as mãos trêmulas.
"Pai", a voz de Henrique soou do outro lado, com uma calmaria que gerava apreensão. "Onde está a minha mãe?"
Samuel sentiu a garganta travar, incapaz de formular uma resposta imediata.
"Estou te fazendo uma pergunta, onde está a minha mãe?" O tom de voz do jovem começou a demonstrar instabilidade. "Estou tentando contato no aparelho dela há três dias e o sinal indica desligado. Na secretaria da escola informaram que ela solicitou um afastamento por tempo indeterminado, e o meu tio Xavier disse que também não tem informações. Pai, me diga a verdade, onde a mãe está?"
"Henrique...", a voz de Samuel saiu em um tom extremamente rouco e debilitado. "Peço que escute o que o pai tem para te explicar..."
"Eu não quero ouvir as suas explicações!", exclamou Henrique em completo desespero do outro lado da linha. "Eu exijo falar com a minha mãe! Devolva a minha mãe! Devolva ela para mim!..."
O som de um choro desolado e doloroso preencheu a ligação.
Samuel segurava o aparelho junto ao ouvido, escutando o pranto do filho enquanto as suas próprias lágrimas corriam em silêncio.
"Me perdoe... Henrique... o pai falhou gravemente com você... e falhou ainda mais com a sua mãe..."
"Suas desculpas não têm o menor valor agora!", esbravejou o jovem entre soluços. "Eu só quero a minha mãe de volta..."
A ligação foi interrompida abruptamente.
Samuel permaneceu sentado na sala de aula vazia, observando o sol nascer lá fora, sendo tomado por uma dolorosa percepção.
A trajetória da vida terrena pareceria longa demais a partir daquele momento.
Longa o suficiente para que ele dedicasse cada segundo restante na tentativa de compensar os vinte e cinco anos de negligência.
Longa o suficiente para que ele convivesse diariamente com o peso do arrependimento, em memória daquela... a quem perdera de forma definitiva.
Capítulo 10
Samuel permaneceu de joelhos à beira-mar durante a noite inteira.
Ao amanhecer, uma última onda gigantesca arrebentou, agindo como as mãos do próprio destino para arrastá-lo em direção às profundezas do oceano.
O arrependimento avassalador queimava sua alma como fogo, fazendo-o lutar desesperadamente.
"Xênia! Eu prometo que vou te valorizar de verdade! Eu prometo!"
Uma luz branca e intensa engoliu tudo de repente, fazendo o som das ondas sumir por completo de seus ouvidos.
"Diretor Samuel? Diretor Samuel, o senhor está bem?"
A voz preocupada do assistente ecoou bem ao seu lado. Samuel abriu os olhos abruptamente, cerrando as pálpebras por reflexo diante da claridade do sol.
Ele deu por si sentado no banco traseiro do carro, vestindo um terno impecável, enquanto a janela exibia a paisagem urbana familiar.
Aquela era a cidade de Florianópolis de quinze anos atrás.
"Eu..." Com a garganta completamente seca, ele baixou o olhar para encarar as próprias mãos.
Seus dedos pareciam firmes e limpos, sem os tremores decorrentes do alcoolismo tardio ou as marcas de ferimentos nas paredes.
"O senhor teve uma tontura repentina agora há pouco, fiquei muito assustado." O assistente lhe estendeu uma garrafa de água. "Faltam apenas quarenta minutos para chegarmos ao Hotel Crown. A Srta. Sabrina já está te esperando e comentou que preparou uma surpresa para o aniversário de casamento de vocês."
Aniversário de casamento.
O coração de Samuel deu um salto violento e ele fixou os olhos no relógio em seu pulso.
20 de maio de 2018.
Era exatamente o dia em que ele e Xênia completavam cinco anos de casados!
Seguindo a linha do tempo do passado, às dezesseis horas de hoje, Xênia faria seus exames de rotina sozinha e detectaria a primeira alteração no marcador CA199.
Por receio de atrapalhar a assinatura do contrato dele, ela optaria pelo silêncio.
E essa omissão se arrastaria por cinco anos.
Cinco anos depois viria o diagnóstico de câncer pancreático inicial; dez anos depois, o estágio avançado; e quinze anos depois...
No dia de suas bodas de prata, ela terminaria com a própria vida jogando-se no mar.
E hoje, o compromisso que ele estava prestes a firmar selaria uma parceria societária profunda entre o Grupo Shen e a família de Sabrina, fornecendo a ela todas as ferramentas para encurralar Xênia mais tarde.
"Não...", Samuel sentiu um calafrio na espinha. "Não posso deixar que a história se repita!"
Nesse exato momento, o aparelho celular vibrou, exibindo o rascunho de uma mensagem de texto não enviada.
Remetente: Xênia.
Conteúdo: Samuel, vou fazer uns exames de rotina hoje e estou um pouco apreensiva. Você poderia... me acompanhar?
Samuel encarou aquelas linhas e sentiu os olhos arderem instantaneamente.
Na vida anterior, ela sequer teve coragem de enviar essa mensagem.
E nesta vida... ela ainda demonstrava hesitação.
"Faça o retorno!", ordenou ele segurando o encosto do banco dianteiro, com a voz rouca, porém implacável. "Conduza o carro para o Centro de Diagnósticos da Cidade! Agora!"
"Diretor?", o assistente demonstrou surpresa. "Mas e a assinatura da parceria?..."
"Cancele tudo!", o olhar de Samuel era gélido. "Informe à Sabrina que farei o pagamento integral da multa de rescisão se for necessário, mas a cooperação está encerrada!"
O veículo fez uma manobra brusca no meio do trânsito, fazendo os pneus emitirem um som estridente no asfalto.
Samuel instava o motorista a acelerar enquanto discava números de forma frenética:
"Diretor do Hospital? Aqui é Samuel! Cancele imediatamente todos os exames agendados para o protocolo número 19870615! Isso, em nome da minha esposa, Xênia! Estou a caminho!"
"Professor Lucas, aqui é o pai do Henrique. Vamos nos atrasar um pouco para a atividade de integração com os pais marcada para as quinze horas, mas peço a gentileza de avisar ao Henrique que eu e a mãe dele compareceremos sem falta!"
"Secretária, faça a reserva do melhor restaurante da cidade para um evento fechado esta noite. Providencie também um buquê de rosas brancas e faça a entrega imediata no Centro de Diagnósticos!"
Por fim, enviou uma mensagem curta para Sabrina, contendo poucas palavras:
"Parceria encerrada. Não insista."
Na tela do sistema de navegação, Samuel mantinha os olhos fixos no destino do hospital.
"Mais rápido!", esbravejou. "Acelere mais!"
No interior da sala de coleta do Centro de Diagnósticos.
Xênia estava sentada junto ao balcão de atendimento, com a manga da blusa dobrada, exibindo o braço alvo e delicado.
A enfermeira segurava a seringa, cuja agulha refletia a claridade das lâmpadas.