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《Aprendendo a Te Amar》Capítulo 7

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Em seguida, levantou-se e dirigiu-se ao escritório.

Aquele era o cômodo onde Xênia passava a maior parte do tempo.

Samuel abriu a gaveta da escrivaninha com as mãos trêmulas.

Não havia joias ou objetos de valor ali dentro, apenas uma caixa metálica de recordações, exibindo uma etiqueta colada na tampa:

"Para o Henrique. Com amor, Mamãe."

Ele abriu o recipiente.

No interior, havia uma grande quantidade de bilhetes e passagens de transporte rodoviário e aéreo acumulados.

Eram registros de viagens de Florianópolis para São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador... todas as capitais para onde ele viajara a trabalho ao longo de vinte e cinco anos.

No verso de cada passagem, havia uma pequena anotação com a caligrafia dela:

"Hoje ele está nesta cidade. Tive vontade de ir até o local do compromisso para vê-lo trabalhar, mas fiquei com receio de causar algum incômodo."

Samuel folheava os papéis um a um, com as lágrimas embaçando a sua visão.

Durante todos aqueles vinte e cinco anos, ela nunca deixara de pensar nele.

Ela apenas... não queria ser um estorvo na rotina dele.

A caixa continha também dois cadernos de anotações.

Um deles funcionava como um diário da vida de casados, trazendo registros de pequenos episódios do cotidiano em cada página:

"20/05/2018. Aniversário de cinco anos de casamento. Ele esqueceu a data; preparei um bolo e esperei na sala até a madrugada. O confeito derreteu, e eu chorei sozinha."

"20/05/2023. Aniversário de dez anos de casados. Recebi o alerta de alterações nos meus exames de rotina e pensei em conversar com ele, mas ele estava concentrado na assinatura de um contrato corporativo importante. Deixei para lá, achei melhor não tocar no assunto."

"10/09/2028. Dia do Professor. Ele comprou uma bolsa de marca exclusiva para presentear a Sabrina. A única lembrança que recebi foi uma mensagem automática de felicitações."

O outro caderno trazia o acompanhamento do crescimento do filho, com anotações no verso de cada fotografia:

"Henriquinho aos três anos. Falou a palavra 'papai' pela primeira vez olhando para o telefone e chorou por longos minutos."

"Henriquinho aos sete anos. Pediu como desejo de aniversário que o pai o levasse para conhecer um parque de diversões. Ele viajou a negócios."

"Henriquinho aos doze anos. Escreveu uma redação escolar com o tema 'Meu Pai', descrevendo-o como um exemplo de determinação. Ele mal sabe que essa dedicação nunca está presente em casa."

Samuel desabou de joelhos no chão daquele cômodo, abraçando aqueles dois cadernos enquanto chorava de forma desolada.

Ele nunca imaginara que, durante todas as suas ausências, ela registrara silenciosamente cada um daqueles momentos.

Anotara a frieza dele.

Registrara a expectativa do filho.

Evidenciara... toda a dedicação silenciosa e desolada de sua existência.

O aparelho celular vibrou, exibindo uma notificação enviada por Xavier:

"Samuel, entre os pertences pessoais da minha irmã, havia uma carta endereçada a você, guardada no meio dos planos de aula dela. Ela deixou instruções claras de que o documento só deveria ser entregue caso você demonstrasse um interesse real em ler."

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"Agora, você tem esse interesse?"

Samuel manteve os olhos fixos na mensagem por um longo tempo antes de responder com as mãos trêmulas:

"Sim."

Capítulo 9

O documento entregue por Xavier consistia em um envelope de papel pardo bastante volumoso.

Samuel sentou-se diante da escrivaninha, encarando o pacote com as mãos tão trêmulas que mal conseguia segurá-lo.

Ele recordou-se de uma frase que Xênia lhe dissera em vida: "Samuel, a sua maior falha nesta vida é a sua total incapacidade de ouvir com atenção o que as pessoas tentam te dizer."

Ela estava coberta de razão.

Ele nunca prestara atenção real às palavras dela.

Nunca avaliara a expressão do seu olhar.

Jamais parara para mensurar... a dimensão do sofrimento dela.

Samuel respirou fundo e abriu o envelope.

O conteúdo não era uma simples carta, mas o conjunto completo de seus planos de ensino acumulados.

Representava a essência de trinta anos de dedicação ao magistério, com cada página contendo observações detalhadas e tópicos destacados em tinta vermelha.

Na última página do volume, havia uma reflexão escrita à mão por ela:

"Educar não consiste em transferir conteúdos, mas em despertar o interesse pelo conhecimento."

"A literatura não deve ser vista apenas como matéria de avaliação, mas como a ferramenta que ensina os jovens a compreender o afeto, a lidar com a dor e a encontrar sentido na existência."

"Dediquei trinta anos à sala de aula e a minha maior frustração foi a minha total incapacidade de ensinar a importância da consideração à pessoa que eu mais amava."

Logo abaixo, havia uma mensagem direcionada a ele:

"Samuel, se este documento chegou às suas mãos, significa que você finalmente... demonstrou interesse em ler."

"Não sei em qual momento da vida você estará fazendo esta leitura; talvez eu já tenha falecido, ou talvez você continue agindo com a mesma indiferença de sempre e sequer tenha aberto este envelope."

"Contudo, caso esteja lendo estas linhas, quero deixar registradas algumas considerações finais."

"Primeiro, não guarde ressentimentos pelo distanciamento do Henrique. A falha foi minha na condução da criação dele, permitindo que ele crescesse achando que não era amado pelo pai. A sua consideração existe, mas a forma de demonstrar sempre foi equivocada."

"Segundo, não carregue o peso da culpa. O agravamento do meu quadro de saúde decorreu da minha própria negligência em adiar os exames, não há relação com as suas atitudes. Nas três oportunidades em que pensei em conversar sobre o assunto, notei que você estava sobrecarregado e optei pelo silêncio por decisão minha."

"Terceiro, se... se o arrependimento pelo passado for real, peço que cumpra um último desejo por mim."

"Destine os valores dos meus direitos autorais e publicações para o apoio educacional de meninas de comunidades vulneráveis, garantindo a elas o acesso aos estudos e a oportunidade de conduzir as suas próprias trajetórias, sem depender do suporte financeiro de terceiros para sobreviver."

"Por fim..."

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A escrita apresentava uma interrupção naquele ponto, exibindo uma mancha no papel onde a tinta havia escorrido, sugerindo o rastro de uma lágrima.

"Por fim, cuide da sua própria trajetória."

"Acompanhe o amadurecimento do Henrique até que ele constitua a sua própria família e presencie o sucesso daquelas jovens alcançando o ensino superior."

"Aprenda... a ter consideração por si mesmo."

"Sua esposa, Xênia."

"Último registro."

A folha de papel escorregou de suas mãos.

Samuel recostou-se na cadeira, encarando a escuridão da noite através da janela, sentindo uma imensa opressão no peito que dificultava a respiração.

Ela pedira para ele "não carregar o peso da culpa".

Afirmara que "não havia relação com as atitudes dele".

Recomendara que ele "cuidasse da sua própria trajetória".

No entanto, quanto mais benevolência ela demonstrava naquelas linhas, mais ele se desprezava pelas escolhas do passado.

Desprezava-se por não ter percebido a gravidade da situação a tempo.

Apequenava-se por não ter demonstrado o mínimo de afeto quando ela estava presente.

Oodiava-se por... ter compreendido o valor da presença dela apenas após a perda definitiva.

O aparelho celular começou a vibrar de forma insistente.

Uma sucessão de mensagens começou a chegar em curto espaço de tempo:

Primeiro, o relato de um responsável de aluno: "Sr. Samuel, as mensalidades escolares dos últimos três anos que a Professora Xênia custeou para o meu filho, agora tenho condições de fazer o ressarcimento, mas não consigo contato com ela por nenhum canal..."

Em seguida, o depoimento da funcionária da limpeza, Dona Zica: "Sr. Samuel, no último mês de trabalho, a Professora Xênia frequentemente tossia sangue nos banheiros da escola; eu insistia para que ela procurasse atendimento médico, mas ela argumentava que precisava aguardar o encerramento do período de avaliações dos alunos..."

Depois, a mensagem de um colega do corpo docente: "Professor Samuel, a Xênia já havia deixado todo o material didático e planos de aula organizados previamente, comentando que 'caso precisasse se ausentar repentinamente, as turmas teriam uma base de consulta segura'..."

Por fim, o recebimento de um arquivo de vídeo.

Enviado pelo líder de classe, Caio. As imagens mostravam os alunos reunidos ao redor da mesa de trabalho de Xênia na escola, todos com semblantes consternados e olhos marejados.

Caio exibia uma folha de papel diante da câmera, com a voz embargada: "Sr. Samuel, este é o abaixo-assinado que toda a turma organizou... estamos sentindo muita falta da Professora Xênia... ela havia prometido nos acompanhar até a conclusão dos exames finais de acesso à faculdade... ela... realmente não vai mais retornar?"

No encerramento do vídeo, os jovens exclamaram em uníssono:

"Professora Xênia! Estamos aguardando o seu retorno!"

O som daquela saudação ecoou de forma dolorosa nos ouvidos de Samuel.

Ele interrompeu a reprodução do arquivo e debruçou-se sobre a escrivaninha, com os ombros sacudindo pelo pranto.

Não haveria retorno.

A professora deles jamais cruzaria aquela porta novamente.

Ela pensara no bem-estar deles, na continuidade das aulas e no futuro daquelas turmas até o seu último instante de consciência.

Contudo, a pessoa que ela mais priorizara naquela trajetória... nunca dedicara a ela a devida atenção.

Às três horas da madrugada, Samuel conduziu o carro até as dependências da escola.

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