Afinal de contas, ela o amava tanto, como seria capaz de tirar a própria vida?
A porta se abriu e um médico legista vestindo um avental branco saiu segurando uma prancheta com documentos.
"Sr. Samuel?", o legista o avaliou com o olhar. "Por favor, acompanhe-me."
Samuel seguiu o profissional para o interior do necrotério. O ambiente ali dentro era ainda mais frio, fazendo seus dentes baterem.
No centro da sala, havia uma mesa de aço onde repousava uma silhueta humana coberta por um lençol branco.
O legista aproximou-se da mesa e olhou para Samuel: "O senhor precisa se preparar psicologicamente. Devido ao longo período de submersão na água do mar, as feições faciais estão desfiguradas, sendo necessária a análise de DNA para a confirmação definitiva da identidade."
Samuel assentiu com a cabeça, a garganta tão seca que o impedia de falar.
O médico puxou uma das pontas do lençol branco.
Samuel olhou.
Era um corpo deformado pela ação da água, com a pele extremamente pálida e enrugada, os cabelos empastados e a fisionomia completamente irreconhecível.
Contudo, alguns detalhes ainda podiam ser distinguidos.
No dedo anelar esquerdo, havia uma marca profunda de anel — o vestígio deixado pelo uso da aliança de casamento por vinte e cinco anos.
No pulso direito, notavam-se marcas de punções decorrentes de acessos venosos frequentes — o sinal característico de pacientes em tratamento oncológico.
E havia também aquele vestido branco — embora estivesse desbotado e danificado pelo mar, ele reconheceu imediatamente: fora o presente que ele comprara sem dar importância no aniversário de vinte anos de casados.
Ela nunca o havia usado.
Até o dia de sua morte.
Samuel começou a tremer dos pés à cabeça. Ele deu alguns passos à frente, fixando os olhos naquele corpo.
"Não...", ele balançava a cabeça, a voz saindo rouca. "Não é ela... com certeza não é ela..."
No entanto, ele sabia que estava apenas tentando se enganar.
A marca da aliança, os vestígios dos acessos venosos, o vestido branco... todos os indícios apontavam para a mesma realidade devastadora:
Aquela era Xênia.
A mulher que o esperara por vinte e cinco anos.
A mulher que o amara por vinte e cinco anos.
A mulher que fora negligenciada por ele por vinte e cinco anos.
Agora, ela repousava ali, fria e imóvel, sem nunca mais sorrir para ele, sem chorar por ele, sem esperá-lo voltar para casa.
"Encontramos alguns pertences junto ao corpo", informou o legista, estendendo um saco plástico transparente de evidências. "Por favor, verifique."
Dentro do invólucro, havia uma embalagem impermeável — idêntica àquela que ele visualizara no parque costeiro.
A embalagem continha três itens:
Sua credencial de professora, exibindo a foto de Xênia com seu sorriso sereno;
A aliança de casamento, com a gravação interna contendo as iniciais dos nomes deles e o ano de casamento de 1987;
Um aparelho celular antigo, completamente danificado pela água.
E havia também um bilhete escrito por ela, com os traços levemente borrados pela umidade, mas ainda perfeitamente legíveis:
"Samuel, quando você ler isto, eu provavelmente não precisarei mais esperar você voltar para casa."
"Eu nunca tive inveja do cuidado que você dedicava à Sabrina; guardo apenas a melancolia de ter dedicado a minha vida inteira sem receber de você uma única demonstração de afeto sincero."
"Não permita que o Henrique veja a minha fisionomia neste estado. Diga a ele... que a mamãe viajou para dar aulas voluntárias em uma comunidade carente."
"Por fim, peço que transmita minhas desculpas aos meus alunos. A professora... não conseguirá cumprir a promessa."
Samuel encarou aquelas palavras e as lágrimas finalmente rolaram por suas faces.
As gotas caíam sobre o plástico de evidências, borrando ainda mais os traços da escrita.
Ele relembrou a pergunta que Xênia fizera na noite anterior: "Se eu dissesse que estou prestes a morrer, você acreditaria?"
E a resposta dele fora: "Esse joguinho de se fazer de vítima já dura vinte e cinco anos, ainda não cansou?"
Aquilo nunca fora uma encenação.
Fora a última e desesperada tentativa dela de pedir a sua ajuda.
E ele, com as próprias mãos, a empurrara para o abismo.
"Ah!..."
Samuel soltou um urro de desespero e desabou de joelhos no chão, abraçando aquele corpo gélido.
"Xênia... Xênia, acorde... por favor, acorde..."
"Eu errei... eu estava completamente errado..."
"Volte... volte para mim... eu prometo nunca mais te ignorar... nunca mais..."
No entanto, o corpo permaneceu totalmente imóvel e gélido como uma rocha.
O legista permaneceu em silêncio a uma certa distância, observando a cena. Ele já testemunhara muitas reações semelhantes em sua profissão, mas episódios como aquele sempre causavam consternação.
"Sr. Samuel", ponderou o médico com tom brando, "o laudo oficial de DNA será emitido amanhã, mas, diante dos pertences e das características físicas, podemos considerar a identificação confirmada..."
"Eu sei", interrompeu Samuel com a voz embargada. "Eu sei... é ela..."
Ele estreitou o corpo contra o peito, as lágrimas correndo de forma incessante.
As lembranças de vinte e cinco anos de convivência o invadiram como uma enxurrada:
Todas as madrugadas em que ela permaneceu acordada esperando seu retorno;
Cada refeição cuidadosa que ela preparara pensando no bem-estar dele;
Todas as declarações de afeto que ela registrara em segredo nas páginas do diário;
Cada momento de tristeza que ela suportara em silêncio por ser ignorada;
Todas as vezes em que ela tentara pedir o seu socorro.
Ele finalmente compreendeu a dimensão da sua perda.
Havia perdido a única pessoa neste mundo que o amara de forma pura e incondicional.
Havia perdido sua esposa, a mãe de seu filho, a metade de sua existência.
E agora, era tarde demais para reparar qualquer erro.
"Xênia...", ele balbuciou em meio ao pranto, "me perdoe..."
"Se houver uma próxima vida... se o destino nos unir novamente..."
"Será a minha vez de esperar por você."
"Será a minha vez de te amar."
"Será a minha vez... de dedicar cada segundo para compensar o passado."
No interior do necrotério, ecoava apenas o pranto desolado daquele homem.
Misturando-se ao som da tempestade, que se tornava cada vez mais intensa do lado de fora.
Capítulo 7
Resultado do exame de DNA: compatibilidade de 99,99%.
Samuel segurava aquela folha fina de relatório, com os nós dos dedos brancos de forma assustadora. O ar gélido do necrotério infiltrava-se até a medula dos seus ossos, mas ele não conseguia sentir o frio; sentia apenas como se o seu corpo estivesse em chamas.
Aquelas chamas eram alimentadas por vinte e cinco anos de negligência, frieza e omissão acumuladas, que agora se transformavam no combustível do arrependimento, reduzindo-o a cinzas de dentro para fora.
"Sr. Samuel, estes são os pertences pessoais encontrados com o corpo." O legista estendeu um saco de evidências.
Dentro dele, além da embalagem impermeável de antes, havia um celular antigo — não o aparelho que Xênia costumava usar no dia a dia, mas um modelo de smartphone bem mais velho, com a tela completamente estilhaçada.
"O aparelho sofreu danos graves, mas a nossa equipe de perícia técnica conseguiu fazer a recuperação dos dados." O legista fez uma breve pausa. "Há uma gravação de áudio em formato de arquivo que a Sra. Xênia registrou antes de partir. O senhor... gostaria de ouvir agora?"
Samuel assentiu com a cabeça de forma rígida.
O legista acionou os comandos do equipamento e pressionou o botão de reprodução.
Após um chiado inicial de estática, a voz debilitada, porém serena, de Xênia ecoou pelo ambiente:
"Samuel, quando você ouvir este áudio, eu provavelmente já estarei morta."
Samuel sofreu um solavanco em todo o corpo.
"Quero deixar registrados três assuntos finais. Primeiro, eu nunca fugi com ninguém, jamais faria isso. Aquela fotografia foi uma montagem feita pela Sabrina; ela já havia me mostrado uma suposta foto de vocês dois juntos em um hotel há cinco anos, que também era falsa."
"Segundo, eu estou doente, com câncer pancreático em estágio avançado. O dia do diagnóstico coincidiu exatamente com as nossas bodas de prata. O médico me deu no máximo três meses de vida. Eu tentei te contar, mas você viajou para Búzios para acompanhar o aniversário da Sabrina."
A gravação registrou um som de tosse contida.
"Terceiro, o Henriquinho me perguntou na semana passada: 'Mãe, se o papai te trata mal, por que você não pede o divórcio?'. Eu respondi: 'Quando você crescer, vai entender'. Agora ele cresceu, e chegou a minha hora... de encerrar a aula."
A voz saía cada vez mais fraca, como se estivesse prestes a sumir.
"Aquela jiboia no vaso... peço que coloque água nela mais uma vez por mim. Eu cuidei daquela planta por vinte e cinco anos, nunca tive coragem de jogá-la fora porque você me disse uma vez... Bem, deixa para lá, você com certeza não vai se lembrar disso."
O áudio terminou.
O necrotério mergulhou em um silêncio sepulcral.
Samuel desabou de joelhos no chão, apoiando a testa contra os azulejos congelantes, o corpo inteiro tremendo como uma folha seca sob o vento de outono.
A jiboia.
Ele se lembrou.
No primeiro ano de casamento, Xênia trouxe um vaso com uma muda de jiboia do mercado de flores e disse com entusiasmo: "Dizem que a jiboia é muito fácil de cuidar, basta colocar água que ela sobrevive. Samuel, vamos fazer uma aposta para ver quanto tempo ela consegue durar?".