"Samuel, dei uma pesquisada e esse homem é o coordenador de literatura da escola da Xênia, o Professor Lucas. Fiquei sabendo que ele é solteiro."
"Será que esse sumiço repentino da Xênia significa que ela viajou com ele para Búzios?"
Samuel ampliou a foto, fixando os olhos no sorriso de Xênia, achando aquela imagem insuportável de encarar.
Era um sorriso tão luminoso, uma expressão que ele jamais testemunhara.
Em vinte e cinco anos de casamento, ela sempre se mostrara dócil, resignada e até um tanto submissa diante dele, nunca exibindo uma alegria tão espontânea e desmedida.
"Xênia, você sabe ser cruel."
Ele soltou uma risada fria, os olhos transbordando fúria.
"Se vingando de mim dessa forma? Achou que arranjar um homem faria com que eu me importasse com você?"
Ele preferia acreditar que aquilo era uma retaliação, uma provocação deliberada, a aceitar a possibilidade de que algo grave realmente tivesse acontecido com ela.
O telefone vibrou repentinamente, exibindo na tela a palavra "Escola".
Samuel franziu o cenho e recusou a chamada sem hesitar.
Ele não tinha a menor paciência para lidar com qualquer assunto relacionado a Xênia naquele momento, muito menos com ligações vindas do colégio onde ela trabalhava.
Ele abriu uma gaveta e retirou a certidão de casamento, contemplando o semblante jovem de Xênia na foto de registro.
Naquela época, seus olhos transmitiam doçura e uma profunda esperança em relação ao futuro, bem diferente da fisionomia opaca que ela exibia recentemente.
Uma onda de frustração inexplicável o dominou, e ele rasgou uma das pontas do documento, descontando o descontentamento que sentia no peito.
Nisso, seu olhar foi atraído para a direção do escritório.
Aquele era o cômodo onde Xênia passava a maior parte do tempo; além de corrigir tarefas e preparar aulas, ela parecia não ter nenhum outro passatempo.
Movido por um impulso inexplicável, ele entrou no ambiente.
A escrivaninha estava perfeitamente organizada, exibindo uma pilha de cadernos de redação dos alunos e uma caneta vermelha ao lado.
Ao vistoriar a mesa, ele notou um caderno de capa azul-escura em um dos cantos; era o diário que ela costumava usar.
Ele hesitou por um breve instante, mas acabou pegando o caderno e abrindo-o.
As páginas registravam majoritariamente a rotina escolar dela, mencionando raramente o filho Henrique, e as menções a Samuel eram ainda mais escassas, resumidas a poucas linhas carregadas de uma sutil melancolia.
"1º de setembro de 2018. Primeiro dia do Henriquinho na creche, ele chorou desesperadamente. Samuel estava viajando a negócios e disse ao telefone: 'Meninos não podem ser tão mimados'. Mas eu sei que ele apenas não queria voltar para casa."
"7 de junho de 2021. Cerimônia de encerramento da creche do Henriquinho. Fui a única mãe presente sem o marido. Samuel disse: 'Não há necessidade de comparecer a uma bobagem dessas'. Ver as outras crianças acompanhadas pelos pais e olhar para o Henrique partiu meu coração."
"10 de setembro de 2028. Dia do Professor. Recebi homenagens de muitos alunos, mas nenhuma dele. Ele provavelmente esqueceu que eu também sou professora."
Samuel folheou rapidamente até a última página escrita, onde encontrou uma única frase, traçada com uma caligrafia delicada, mas que carregava uma determinação implacável:
"A aula terminou, e eu, como professora, também devo partir."
O coração de Samuel sofreu um baque.
Ele se lembrou de que, há muitos anos, Xênia lhe dissera:
"O casamento também é uma sala de aula, mas infelizmente nós dois somos péssimos alunos."
Na ocasião, ele achara o comentário dramático e sem importância, desdenhando da forma como ela valorizava os sentimentos.
Mas agora, ao encarar aquela frase, ele empacou.
Será que ela realmente...
O pensamento sombrio surgiu, mas ele tratou de rechaçá-lo imediatamente.
"Teatro puro."
Ele soltou um bufo de desprezo, jogando o diário de volta na mesa. "Acha que escrever essas lamentações vai me fazer sentir culpa? Xênia, você é muito ingênua."
Nesse momento, o celular emitiu o alerta de um aviso bancário.
"Sua conta com final 8879 recebeu um estorno no valor de 500 mil. Mensagem anexada: Doei o dinheiro para uma instituição de caridade em uma região carente. A liberdade que você tanto queria, eu te dei."
Ao ler a mensagem, Samuel explodiu como um barril de pólvora. Ele se levantou de chofre, agarrou o cinzeiro que estava sobre a mesa e o estilhaçou contra o chão.
O objeto se partiu em inúmeros pedaços, espalhando cinzas e fragmentos de vidro por todo o cômodo.
"Xênia!" Ele esbravejou, os olhos injetados de raiva. "Quem te deu permissão para tomar decisões por mim?! Quem te deu o direito de doar o meu dinheiro?!"
Aqueles 500 mil haviam sido transferidos por ele logo após acordar, ao se dar conta de que era o aniversário de casamento deles, como um gesto automático.
Ele reconhecia que fora uma atitude protocolar, mas representava a sua consideração e uma espécie de reparação como marido.
Contudo, em vez de aceitar, ela devolveu o valor e ainda o destinou a uma causa social.
Aquilo era uma afronta direta, um desafio à sua autoridade!
Um forte sentimento de posse começou a dominar seus pensamentos; ele não admitiria ser tratado daquela maneira por Xênia.
Ela era sua esposa, e tudo a respeito dela deveria estar sob o seu controle, inclusive o seu destino e o seu paradeiro.
Ele pegou o aparelho e discou novamente para o investigador particular recomendado por Sabrina.
"Quero todas as informações possíveis sobre Xênia e aquele coordenador de literatura," ordenou com a voz gélida. "Descubra onde estão agora, o que estão fazendo e com quem falaram. Quero um relatório completo imediatamente!"
Ao desligar, caminhou até a janela, observando a tempestade que desabava lá fora.
A chuva batia com força contra o vidro, como se ecoasse uma profunda tristeza.
No entanto, no peito de Samuel, restavam apenas a indignação e o orgulho ferido. Ele manteve o olhar fixo na noite chuvosa, com uma expressão sombria.
Xênia, é melhor você rezar para que eu não te encontre.
Caso contrário, farei você entender quais são as consequências de me trair e me desafiar.
Capítulo 4
No dia seguinte, às dez horas da manhã, o voo de Samuel aterrissou no Aeroporto Internacional de Búzios.
Ele seguiu diretamente para o hotel resort onde Sabrina havia indicado, exibindo uma fisionomia tão fechada que intimidou os funcionários da recepção.
"Sr. Samuel, este foi o bilhete deixado pela Sra. Xênia ao se registrar", informou a atendente, entregando um papel dobrado com cuidado, exibindo a caligrafia elegante de sua esposa.
"Não me procure, sigamos nossos caminhos em paz. — Xênia"
Aquelas poucas palavras feriram o orgulho de Samuel.
Ele amassou o papel, os nós dos dedos empalidecendo, enquanto uma mistura de fúria e teimosia dominava seus pensamentos.
"Seguir nossos caminhos em paz? Você está muito enganada."
Ele resmungou entre dentes, com vontade de rasgar o bilhete em pedaços.
Ele se recusava a acreditar que Xênia realmente quisesse romper os laços com ele; com certeza aquele homem a estava influenciando!
"Quero ver as gravações das câmeras de segurança!", exigiu. "Preciso saber quando ela e aquele homem se hospedaram e quando saíram!"
A funcionária demonstrou hesitação: "Sr. Samuel, receio que isso só seja possível com uma autorização das autoridades."
Samuel pegou o talão de cheques, preencheu um valor alto e o empurrou pelo balcão: "Isto basta?"
Dez minutos depois, ele estava na sala de monitoramento, com os olhos fixos nas telas.
As imagens passavam em ritmo acelerado: o saguão principal, os corredores, o restaurante, a área da piscina...
Nada.
Nenhum sinal de Xênia, nenhum sinal do Professor Lucas. Absolutamente nada.
"Não é possível...", murmurou Samuel para si mesmo. "A Sabrina garantiu que..."
Nesse instante, o celular tocou; era o investigador particular.
"Sr. Samuel, consegui as confirmações. O Professor Lucas de fato está em Búzios, mas ele veio para participar de um congresso nacional de educadores e está hospedado no hotel oficial do evento."
"Verifiquei o registro de entrada dele e a lista de presença das palestras; desde ontem ele não se ausentou do centro de convenções."
"Quanto à Sra. Xênia...", o homem fez uma breve pausa, "não há nenhum registro de voo, hospedagem ou transação bancária no nome dela. É como se tivesse desaparecido no ar."
O peito de Samuel contraiu-se dolorosamente.
Desaparecido no ar?
Como seria possível?
Uma pessoa não sumiria sem deixar o menor rastro.
"Continue procurando!", esbravejou. "Vire a cidade do avesso, mas encontre-a!"
Ao encerrar a chamada, permaneceu no saguão do hotel, contemplando a imensidão azul do mar lá fora, sentindo um calafrio repentino.
Se Xênia não havia viajado para Búzios...
Se ela não tinha nenhuma ligação com aquele colega de trabalho...
O que significavam, então, as evidências que Sabrina lhe enviara?
Um pensamento alarmante cruzou sua mente, mas ele tratou de contê-lo de imediato.
Inaceitável. Sabrina não mentiria para ele.
Ela sempre se mostrara tão correta e prestativa, jamais seria capaz de...
O telefone vibrou novamente; desta vez era Sabrina.
"Samuel! Você já chegou? Por que não atende minhas ligações?", questionou ela com tom de queixa. "Estou te esperando há horas no hotel..."