Capítulo 1
Às vinte e três horas e três minutos, Xênia recebeu dois presentes de aniversário de bodas de prata.
Um veio do médico: "Câncer pancreático em estágio avançado, no máximo dois meses."
O outro veio do marido: "Convite para a festa de aniversário de Sabrina, casa com vista para o mar em Búzios, depois de amanhã."
O laudo médico tremia levemente em suas mãos.
Do outro lado da mesa de centro, Samuel acabara de chegar em casa, exalando aquele perfume familiar.
Era o "Midnight Rose", o favorito de Sabrina, que ela já havia sentido inúmeras vezes.
"Ainda acordada?"
Sem sequer olhá-la nos olhos, ele caminhou direto para a adega e serviu um copo de uísque.
"Ou... está se fazendo de coitada de novo?"
Xênia sentava-se na escuridão, observando aquele homem com quem fora casada por vinte e cinco anos.
A luz batia de lado, projetando a silhueta imponente dele, mas não conseguia iluminar o canto onde ela estava.
"Samuel, se eu dissesse que estou prestes a morrer, você acreditaria?"
O copo de uísque congelou no ar.
Samuel finalmente virou a cabeça, seu olhar pousando no rosto dela como se examinasse um objeto antigo que perdera o valor.
Em seguida, ele sorriu.
Era aquele sorriso desdenhoso, carregado de deboche.
"Xênia," ele pousou o copo, afrouxou a gravata e falou com tom de sarcasmo, "você tem cinquenta e um anos, não é mais uma garotinha de quinze."
"Esse joguinho de se fazer de vítima já dura vinte e cinco anos, ainda não cansou?"
Os "joguinhos" aos quais ele se referia eram as três únicas rebeliões que ela tivera em vinte e cinco anos de casamento.
A primeira foi no aniversário de cinco anos de casados, quando ela o flagrou em uma noite chuvosa levando Sabrina para casa. Aquela mulher estava aninhada no peito dele, segurando o colar que ele havia prometido dar a Xênia como lembrança de casamento.
A segunda foi no aniversário de dez anos, quando Sabrina apareceu à sua porta exibindo uma falsa barriga de grávida, com os olhos marejados de lágrimas, segurando sua mão:
"Xênia, eu e o Samuel nos amamos de verdade... a criança não pode crescer sem um pai."
No vigésimo aniversário, Sabrina faliu em seus negócios e ele, sem pensar duas vezes, trouxe a mulher para dentro de casa, acomodando-a no quarto de hóspedes.
Ele dissera: "Sabrina não tem para onde ir, não posso virar as costas para ela."
Sempre que ela falava em divórcio, ele achava que era birra.
Sempre que ela tentava ir embora, ele achava que era manipulação.
Xênia de repente achou tudo aquilo hilário.
Ela desdobrou o laudo médico e o empurrou para o centro da mesa de centro.
As palavras "Câncer pancreático em estágio avançado" ficaram completamente expostas sob a luz.
Naquela manhã, logo após dar a última aula de literatura para os seus alunos, ela sentiu o mundo girar e, quando acordou, já estava na cama do hospital.
O médico, segurando os exames, lhe dissera: "As células cancerígenas já se espalharam para o fígado, você tem no máximo dois meses."
"Essa doença vem se arrastando há pelo menos cinco anos. Os sintomas iniciais são discretos, mas deveriam ter sido detectados nos exames de rotina anuais. Por que só veio agora?"
Por que só agora?
Ela se lembrou do relatório de saúde alterado de cinco anos atrás, do qual ele apenas desdenhara: "Tempestade em copo d'água."
Lembrou-se de quando tossiu sangue há três anos e ele disse: "Foi o pó do giz que te sufocou."
Lembrou-se de quando emagreceu drasticamente há um ano e ele comentou: "As pessoas ficam assim quando envelhecem."
No fim das contas, quando alguém decide fechar os olhos de vez, mesmo que você coloque toda a luz do mundo diante dele, ele ainda insistirá que a noite está escura.
O olhar de Samuel passou pelo papel, detendo-se por menos de um segundo.
"Francamente," ele soltou uma risada de deboche, tirou um convite do bolso interno do terno e o jogou na mesa de centro, cobrindo exatamente o laudo médico.
"Xênia, seus truques estão cada vez mais sofisticados, conseguiu até um laudo médico falso?!"
O convite dizia: "Convidamos cordialmente para a festa de trinta e cinco anos da Sra. Sabrina", o local era "Mansão com Vista para o Mar em Búzios", e no rodapé havia uma pequena anotação escrita à mão: "Do meu eterno amor, Samuel — Sabrina".
Aquelas palavras eram tão cortantes que pareciam sangrar.
Xênia olhou para o convite e depois para o calendário na parede.
Amanhã seria o aniversário de vinte e cinco anos de casamento dela com Samuel, suas bodas de prata.
E também era o aniversário de Sabrina.
A tela do celular de Samuel acendeu de repente. As notificações do aplicativo de mensagens estavam desbloqueadas, deixando o conteúdo totalmente visível.
Era uma mensagem de Sabrina:
【Samuel, o local da festa está reservado. Vai ser no terraço daquela casa em Búzios, dá para ver o mar!~】
Samuel pegou o celular e respondeu na mesma hora:
【Combinado, chego amanhã à tarde.】
Xênia olhou para aquele "combinado" e sentiu seu coração afundar em um abismo de gelo.
"Samuel," Xênia se levantou, com a voz serena, "vamos nos divorciar."
Samuel hesitou por um instante e caiu na gargalhada: "Lá vem você de novo. O que você quer desta vez? Um carro? Uma casa? O que é?"
Ele caminhou até ela, estendendo a mão para tocar seu rosto, mas ela desviou a cabeça.
A mão dele congelou no ar e seu olhar ficou gélido: "Xênia, tudo tem limite."
"Não quero carro, nem quero casa."
Ela caminhou até a janela, contemplando a noite densa lá fora. "Você se lembra do dia do nosso casamento? Você disse diante de todos que Samuel cuidaria de Xênia pelo resto da vida."
Samuel franziu a testa: "Assunto do passado, por que desinterrar isso agora?"
"É, assunto do passado." Xênia se virou, a luz do luar iluminando seu rosto pálido como uma fina camada de geada. "Mas eu me lembrei disso por vinte e cinco anos."
"Samuel, não quero mais esperar por você."
Dito isso, ela caminhou em direção à porta.
"Xênia! Pare agora mesmo! Onde você pensa que vai no meio da noite?!"
Ela não olhou para trás.
A porta da sala se abriu e fechou. O som dos passos foi se distanciando na noite silenciosa, até desaparecer por completo.
Samuel encarou a porta, o peito arfando de irritação, e jogou a gravata com força no sofá.
Às duas da manhã, Xênia estava de pé na areia da praia do parque costeiro.
Quando a água do mar cobriu seus tornozelos, ela de repente compreendeu uma coisa.
Sua vida nesses vinte e cinco anos havia sido uma piada.
Samuel nunca guardara um espaço para ela em seu coração.
Ela era apenas a esposa "adequada": de boa família, com uma profissão respeitável, capaz de manter as aparências, de cuidar dos idosos e dos filhos, e que não fazia escândalos.
Enquanto Sabrina, a mulher que entrara na vida deles usando a sombra da falecida irmã, era quem recebia todos os seus mimos e privilégios.
Quando o negócio dela faliu, ele deu milhões;
Como ela gostava do mar, ele comprou a casa em Búzios e a colocou no nome dela;
No aniversário dela, ele era o mais dedicado.
Relação triangular? Nunca existiu.
O coração de Samuel sempre esteve inclinado para um lado só. Ela fora apenas a boba que assistia de camarote ele mimando outra pessoa, enquanto ainda exigiam que ela fosse compreensiva e generosa.
A água do mar subiu até os joelhos, depois até a cintura.
Estava frio, um frio congelante.
Mas, por incrível que pareça, ela sentiu um leve calor. Aquela era provavelmente a primeira vez em vinte e cinco anos que alguém a abraçava com tanta força.
Ela se lembrou da mensagem que seu filho Henrique enviara no mês passado:
"Mãe, recebi a carta de aceitação do MIT! Assim que eu me formar, vou te levar para morar comigo e nunca mais vamos nos separar."
Me desculpe, meu querido Henriquinho, a mamãe não vai conseguir esperar.
Lembrou-se de seus pais antes de partirem, segurando suas mãos: "Xênia, você precisa ficar bem, precisa ser feliz."
Me desculpem, pai e mãe, sua filha os decepcionou.
A água do mar atingiu seu peito. A respiração começou a ficar difícil.
Xênia ergueu a cabeça para o céu noturno. As estrelas estavam tão brilhantes, como naquela noite de núpcias há muitos anos, quando Samuel a abraçou no telhado e disse: "De agora em diante, cada estrela pertence a você."
Mais tarde, todas as estrelas se apagaram.
Ela fechou os olhos, permitindo que seu corpo afundasse.
A água salgada e amarga começou a invadir seus pulmões, provocando um zumbido ensurdecedor nos ouvidos. Em meio ao torpor, pareceu ouvir alguém gritando seu nome desesperadamente. Parecia o Samuel, mas ao mesmo tempo não parecia.
Mas nada disso importava mais.
Estava cansada demais.
Aquela lição havia durado vinte e cinco anos, e agora, finalmente...
A aula havia terminado.
Capítulo 2
Quando Samuel acordou no sofá, o dia já havia amanhecido completamente.