"Sabrina, você tem certeza de que vai abrir mão daquela oportunidade de especialização na prestigiada escola de artes em Londres?"
"A série de fotografias que você produziu recentemente recebeu o prêmio máximo internacional. Você tem um talento raro para a fotografia, não pode desperdiçar isso."
A diretora já havia insistido bastante sobre essa vaga de estudos no passado.
Mas, naquela época, Sabrina ainda vivia na ignorância sobre a troca de identidades entre Arthur e Alex, acreditando estar em um casamento perfeito, e por isso recusou.
A realidade, porém, era que o homem com quem ela dividia a intimidade todos esses anos era Alex, a pessoa que ela mais repudiava.
Diante desse fato, Sabrina não hesitou mais e decidiu agarrar a chance.
"Agradeço muito por ter guardado essa vaga para mim todos esses meses. Eu decidi que vou aceitar."
Do outro lado da linha, a voz da diretora misturou surpresa e alívio.
"Que excelente notícia! Vou encaminhar a sua documentação agora mesmo. O único detalhe é que você e o seu marido terão que lidar com a distância por um tempo."
A ligação foi encerrada logo em seguida, mas Sabrina apenas exibiu um sorriso amargo.
Não haveria relacionamento à distância, pois em breve ela estaria completamente livre e solteira.
Ela guardou o aparelho no bolso e se preparava para acenar para um táxi quando um luxuoso carro preto estacionou abruptamente diante dela.
A porta se abriu e Alex saltou do veículo, segurando sua mão às pressas, enquanto forçava o mesmo tom de voz manso e protetor que Arthur costumava usar.
"Sasa, me disseram que você feriu a mão, já passou algum remédio? A culpa foi minha, eu não devia ter deixado o Alex e a Natália instalados na nossa casa."
Sabrina não fazia ideia de como Alex havia descoberto o seu paradeiro, mas também não tinha energia para tentar adivinhar.
Se eles não estavam cansados daquele teatro, ela certamente já havia chegado ao seu limite.
Ela puxou a mão de volta, respondendo com total indiferença: "Não foi nada grave, já cuidei disso."
Sentindo a palma vazia, o olhar de Alex se obscureceu por um instante, mas ele logo retomou a postura dócil para encarar Sabrina.
"Tive uma ideia, vou te levar para arejar a mente. Alguns amigos fecharam um camarote em um casarão clássico para uma apresentação especial. Você não estava comentando que andava sem inspiração para as suas fotos? Quem sabe lá você não encontra uma boa ideia."
Sem dar margem para que ela recusasse, ele a conduziu com firmeza para dentro do automóvel.
Sabrina preferiu não gastar saliva; fechou os olhos e se encostou no banco para descansar.
Durante todo o trajeto, ela simplesmente ignorou as histórias absurdas que ele continuava inventando.
Meia hora depois, o veículo parou diante de um tradicional teatro histórico no centro da cidade.
Alex continuou desempenhando o papel de marido atencioso: abriu a porta para ela, orientou os funcionários a servirem os petiscos que ela mais gostava e fez questão de cobrir os ombros dela com o paletó.
Os amigos dele que já estavam acomodados no local começaram a zombar da situação.
"Isso já é exibição demais! Que casal meloso, tenham um pouco de consideração com os solteiros do grupo!"
Sabrina permaneceu em silêncio.
Ela mantinha os olhos fixos nos detalhes do cenário e nas telas dispostas no palco.
Para sua surpresa, a atmosfera artística realmente mexeu com sua criatividade, fazendo com que ela se desligasse do ambiente e se concentrasse em suas ideias fotográficas.
Quando finalmente despertou de seus pensamentos, percebeu que Alex e todo o grupo de amigos haviam sumido do camarote.
O setor de assentos estava completamente deserto.
Sabrina franziu o cenho e fez menção de se levantar, mas, naquele exato momento, o ator que realizava a performance no palco executou um truque com fogo, lançando uma labareda imensa exatamente na direção onde ela estava!
O susto foi enorme e, embora ela tenha reagido rápido para se esquivar, algumas fagulhas atingiram novamente as costas de sua mão.
Sentindo a dor intensa no ferimento recente, ela soltou um gemido abafado.
Ela correu imediatamente para os banheiros, abrindo a torneira para resfriar a pele com água corrente.
Nesse instante, um grupo de homens com roupas extravagantes e atitudes suspeitas invadiu o local, medindo Sabrina com olhares maliciosos.
"Vejam só que sorte a nossa, encontramos uma verdadeira joia perdida por aqui."
"Não precisa ficar assustada, linda. Nós vamos cuidar muito bem de você e garantir que você aproveite a noite!"
Sabrina sentiu o sangue sumir do rosto; percebendo o perigo iminente, ela tentou correr em direção à saída do banheiro.
Mas ela não foi rápida o suficiente, e um dos sujeitos a segurou firmemente pelo pulso.
"O que vocês pensam que estão fazendo? Me soltem agora!"
Sabrina debateu-se desesperadamente, mas com a mão ferida, a dor a impedia de exercer qualquer força real, e seus gritos de socorro pareciam sumir no vácuo do corredor silencioso.
O desespero começou a sufocá-la e, bem no momento em que as mãos daquele homem avançavam para rasgar o tecido de suas vestes.
A porta foi arrombada com um estrondo violento!
Alex surgiu com os olhos injetados de sangue, desferindo golpes brutais contra os agressores, rugindo com uma voz animalesca: "Sumam daqui!"
A fúria assustadora dele fez os sujeitos recuarem apavorados; eles se arrastaram pelo chão e fugiram em disparada pela porta.
Ao erguer Sabrina nos braços, as mãos dele tremiam visivelmente: "Sasa, você está bem? Fala comigo!"
Aquelas pupilas escuras transbordavam um pavor genuíno, como se ele estivesse prestes a ver o seu mundo inteiro desmoronar.
Sabrina sentia a consciência oscilar e tentou formular alguma palavra, mas sua mente registrou uma última frase vinda do corredor.
"Al, por que você entrou daquele jeito? O plano não era deixar esses caras acabarem com a Sabrina para dar o troco pelo que ela fez com a Natália?!"
Capítulo 5
Depois daquela frase, a visão de Sabrina escureceu e ela não conseguiu ouvir mais nada.
Quando recuperou os sentidos, percebeu que estava deitada em uma cama de hospital.
Ao tentar mexer minimamente o braço, uma dor lancinante de queimadura a atingiu com força.
No quarto, a enfermeira que trocava os seus curativos comentou com um sorriso amigável:
"Você acordou, querida. Seu marido foi lá embaixo pagar as despesas médicas. Ele entrou correndo com você nos braços direto para a ala de queimados, estava desesperado."
Assim que terminou de falar, a enfermeira empurrou o carrinho e saiu do quarto.
Sabrina esboçou um sorriso amargo, enquanto as últimas palavras que ouvira antes de desmaiar ecoavam em sua mente.
Nesse momento, o celular esquecido sobre a mesa de cabeceira começou a vibrar.
Acreditando ser o seu, ela o pegou, mas logo percebeu que pertencia a Alex.
Na tela, o histórico de mensagens de um grupo saltou aos seus olhos.
"Al, quando você invadiu aquele lugar do nada para salvar a Sabrina, a gente jurou que você tinha amolecido."
"O Arthur já tinha dado a ordem para deixar as mãos dela queimadas e vingar o que ela fez com a Natália. Você não pode ficar para trás nessa disputa."
A resposta enviada por Alex dizia: "Eu sei muito bem o que estou fazendo."
"A Sabrina não me escolheu no passado, e eu ainda não terminei de me vingar. Eu só a salvei porque não queria que aqueles caras a sujassem, seria nojento tocar nela depois. Vocês sabem perfeitamente quem é a dona do meu coração."
"No começo, disputar a Sabrina com o Arthur era só uma diversão, mas tudo mudou quando eu conheci a Natália. Só aí entendi o que é o amor verdadeiro."
"Mas a Natália ama o meu irmão, e ele pode dar a ela tudo o que ela quiser. Se ela estiver feliz, eu aceito abrir mão e me afastar."
"De qualquer forma, ter a Sabrina por perto já é o suficiente para aliviar os meus desejos. Posso usá-la na cama como bem entender, e isso me basta."
Os outros integrantes do grupo responderam imediatamente enviando figurinhas de deboche.
"Quando você enjoar dela, deixa os irmãos do grupo aproveitarem um pouco também. Ela tem um corpo cheio de curvas que é uma tentação."
Poucos segundos depois, Alex respondeu: "Fechado."
O coração de Sabrina pareceu ser brutalmente dilacerado naquele instante.
Ela devolveu o aparelho ao lugar, mordendo os lábios com força, mas não conseguiu conter as lágrimas que começaram a queimar os seus olhos.
Só naquele momento ela compreendeu o verdadeiro significado de uma dor tão profunda que arranca até a voz.
Depois de muito tempo, a expressão em seu rosto foi se tornando completamente serena.
Como brasas que se apagam lentamente até que a última queima se dissipe, restou apenas um vazio gélido e silencioso.
Durante todo o período em que permaneceu internada, as coisas continuaram da mesma forma.
Alex manteve a farsa, cuidando dela como se fosse Arthur.
Todos os dias ele trazia sopas e remédios preparados sob sua supervisão, presenteava-a com as roupas e bolsas de grife mais cobiçadas da estação e chegava a levar o notebook de trabalho para o hospital, dividindo o tempo entre os negócios e os álbuns de fotografia dela.