Sabrina nunca imaginou que a secretária por quem Arthur estava tão obcecado a ponto de trocar de identidade com o irmão era a própria Natália.
Incapaz de conter o turbilhão em seu peito, Sabrina rebateu: "Realmente é uma surpresa. Eu me lembro muito bem de quando você tentava conquistar o Arthur a todo custo, Natália. Não sabia que seus sentimentos mudavam tão rápido a ponto de agora amar o Alex."
"Sasa, meça suas palavras."
Antes que ela pudesse terminar, a voz sempre gentil de Arthur interveio com um tom nítido de irritação.
O coração de Sabrina se contraiu e ela apenas o encarou em silêncio.
Aquele instante foi o xeque-mate que confirmou o enorme peso que Natália tinha na vida de Arthur.
Sentindo o olhar dela e percebendo que havia sido duro demais, Arthur tentou suavizar a voz.
"Sasa, eu não quis ser grosseiro com você..."
Antes que ele completasse a frase, as luzes da sala se apagaram de repente.
Alguém na multidão anunciou: "O baile vai começar, encontrem seus pares na escuridão!"
Sabrina não tinha a menor condição de dançar e, sem avisar Arthur, tentou se afastar aproveitando a penumbra.
Mas bastou dar um passo para trás para sentir duas mãos firmes e quentes segurarem seus pulsos com força.
O aroma marcante de hortelã que ela conhecia tão bem a envolveu imediatamente.
No segundo seguinte, uma voz carregada de segundas intenções soprou bem rente ao seu ouvido:
"Sasa, nós nunca tentamos fazer isso no escuro."
Capítulo 3
Dizendo isso, o homem segurou com força o pulso dela e a fez girar, conduzindo-a para o centro da pista de dança.
Aquela atitude obsessiva e familiar só podia vir de Alex.
Sabrina enrigidceu o corpo inteiramente e franziu a testa, desconfortável: "Me solta!"
Ela lutou com todas as forças para se libertar, mas, conforme a música do baile ecoava, a mão posicionada em sua cintura se apertava ainda mais, quase a esmagando contra o peito dele.
Tomada pela indignação, Sabrina não conseguiu mais se conter e disparou: "Alex, me solta!"
Com um estalo, as luzes do salão se acenderam novamente.
Sabrina piscou os olhos, incomodada com a claridade, e deu de cara com Arthur parado bem ao seu lado.
Logo à frente, Natália segurava o braço de Alex, que a encarava com um olhar calmo e divertido.
"Sasa, você estava me chamando? Dançando com o meu irmão e pensando em mim? Fico lisonjeado."
Natália soltou um murmúrio de descontentamento: "Sabrina, eu sei que você, o Alex e o Arthur cresceram juntos como amigos de infância."
"Mas chegar ao ponto de não conseguir diferenciar o próprio marido do cunhado já é um pouco demais, não acha?"
Diante daquela provocação de Natália, Sabrina não pretendia engolir o desaforo e se preparou para rebater.
Arthur, contudo, adiantou-se e cortou o assunto: "Foi apenas um mal-entendida. O Alex acabou de voltar e a Sasa deve ter se confundido com a situação."
Voltando-se para ela, ele continuou com a voz mansa: "Você está cansada? Vou te levar para o quarto."
Sabrina realmente não queria continuar fingindo simpatia com eles, mas também estava farta de ser tratada como tola.
Ela olhou fixamente para Arthur e Alex e soltou um riso amargo: "A verdade é que está cada vez mais difícil diferenciar vocês dois."
Sem esperar qualquer reação deles, ela deu as costas e subiu as escadas.
Para sua surpresa, Arthur veio logo atrás e tentou se justificar enquanto a seguia.
"Sasa, o que aconteceu na pista de dança foi desespero meu. Eu me descuidei e não segurei sua mão a tempo, prometo que isso não vai se repetir."
Ao entrarem no quarto, ele se abaixou para ajudá-la a tirar os sapatos de salto alto, preparou um copo de leite morno e ajeitou os travesseiros exatamente na altura que ela gostava.
Observando aquele cuidado todo, as lembranças de tudo o que ele já havia feito por ela no passado começaram a pesar.
Quando ela ficava doente na infância, era Arthur quem passava as noites em claro ao lado de sua cama.
Por que o homem que sempre a tratou com tanta exclusividade, agindo como seu cavaleiro protetor, seria capaz de sustentar uma mentira dessas?
O peito de Sabrina parecia sufocado por uma mistura de mágoa e decepção.
Ela ergueu os olhos e o confrontou diretamente: "Arthur, por que você e o Alex se juntaram para me fazer de boba?"
Assim que as palavras saíram de sua boca, o celular de Arthur começou a tocar.
Ele virou a tela para baixo rapidamente para silenciá-lo.
Mesmo no curto segundo, Sabrina conseguiu ler o nome que brilhava no visor: Natália.
Em seguida, ele se virou para ela e disse: "Sasa, o que você tinha dito? Me desculpe, surgiu um imprevisto urgente na empresa que preciso resolver agora. Conversamos assim que eu voltar, tudo bem?"
Sabrina não respondeu, sentindo apenas um vazio gélido tomar conta de si.
Não havia mais o que perguntar, e ela não alimentaria mais nenhuma expectativa em relação a Arthur.
Assim que o divórcio estivesse concluído, ela estaria finalmente livre daquelas demonstrações vazias de afeto que só serviam para feri-la.
Por isso, logo após a saída de Arthur, ela acessou o sistema online para agendar a retirada da certidão de divórcio.
No dia seguinte, assim que o dia amanheceu.
Sabrina guardou o documento de divórcio em uma pasta parda e desceu.
Na mesa de jantar, ela se deparou com Arthur soprando delicadamente uma colher de mingau antes de oferecê-la a Natália.
"Come mais um pouco, meu bem."
Aquele cuidado paciente e focado fez Sabrina se lembrar do passado.
Anos atrás, quando ela foi trancada por Alex em uma câmara fria e acabou contraindo uma febre severa, foi Arthur quem cuidou dela daquela mesma forma, dando-lhe o remédio colher por colher.
As lembranças doeram no fundo de sua alma; ela desviou o olhar e caminhou direto em direção à saída.
Arthur, no entanto, chamou sua atenção.
"O meu irmão precisou fazer uma viagem de negócios de última hora e não quis te deixar sozinha. Ele pediu para eu e a Natália ficarmos aqui para te fazer companhia."
"Cunhada, não quer se juntar a nós para o café?"
O tom com que ele pronunciava a palavra "cunhada" era assustadoramente natural.
Sabrina se virou, encarando Arthur, achando toda aquela situação de uma ironia sem limites.
Antes que pudesse recusar, Natália se levantou, pegou a pasta parda das mãos de Sabrina, colocou-a sobre a mesa e a puxou gentilmente para se sentar.
"Cunhada, coma um pouco conosco, não faz bem ficar de jeito nenhum em jejum."
Dizendo isso, ela estendeu a mão para servir o mingau.
"Não precisa."
Sabrina tentou pegar a tigela por conta própria, mas no momento em que seus dedos tocaram a louça, a mão de Natália falseou de lado.
O líquido fervente virou direto nas costas da mão de Sabrina; a dor da queimadura foi imediata e intensa, deixando a pele vermelha num instante.
"Natália!"
Ao lado, Arthur segurou imediatamente as mãos de Natália para ver se havia algum ferimento.
Seus olhos se tornaram frios e cortantes ao se direcionarem para Sabrina.
"Cunhada, a Natália só estava tentando ser gentil e te servir, por que você tinha que agir com tanta agressividade e queimá-la de propósito?"
"Não importa o que você sinta por ela por conta do passado, ela agora é minha namorada, e eu não vou permitir que ninguém a machuque!"
A voz dele era firme e carregava um tom pesado de advertência.
Embora a queimadura estivesse na pele de Sabrina, era o seu coração que parecia estar em carne viva.
Ela engoliu o nó na garganta e disse com a voz baixa: "Ela se descuidou sozinha, eu não tive nada a ver com isso..."
Antes de terminar a frase, ela notou que a pasta parda sobre a mesa estava começando a ser atingida pelo mingau derramado.
Com o rosto pálido, ela esticou o braço para recuperá-la.
Contudo, as mãos ágeis de Arthur foram mais rápidas: ele pegou o envelope e o abriu sem hesitar.
Capítulo 4
No momento em que Arthur se preparava para puxar o acordo de divórcio de dentro do envelope, Natália soltou um gemido de dor.
"Está doendo tanto... Será que vai ficar cicatriz na minha mão?"
As feições de Arthur se contraíram imediatamente; ele largou os papéis sobre a mesa, inclinou-se para erguer Natália nos braços e caminhou apressado em direção à saída.
"Preparem o carro, vamos para o hospital agora!"
Sabrina observou as folhas com o título de "Acordo de Divórcio" espalhadas pelo chão e esboçou um leve sorriso irônico.
Foi até melhor que ele não tivesse visto.
Pelo menos assim ela evitava um confronto direto e desgastante naquele momento.
Ela se abaixou para recolher as folhas, cuidou rapidamente da queimadura na própria mão e chamou um carro para ir direto ao cartório.
Dez minutos mais tarde, ela cruzava as portas do prédio com o processo finalizado.
Enquanto aguardava um táxi na calçada, sentiu o celular vibrar no bolso.
Era a diretora de fotografia da prestigiada revista de moda internacional com quem trabalhava.