Ele ainda devia estar se sentindo muito inseguro.
Ficava claro que os acontecimentos do dia o tinham assustado bastante, e eu precisava dar ainda mais carinho a ele de agora em diante.
Afastei-me dali resmungando baixinho, sem notar um brilho azul refletido no vidro do aquário.
Eram duas luzes idênticas às pupilas e aos olhos de Gabriel.
9
Quando acordei, já passava do meio-dia.
Fiquei extremamente chateada e me vesti o mais rápido que pude.
Gabriel tinha acabado de chegar à minha casa e eu sequer tinha levantado cedo para ir ao mercado comprar comida fresca para ele, que péssima dona eu era!
Saí do quarto correndo e logo senti um aroma intenso de comida.
Na mesa de jantar, o pão com manteiga e a sopa de batata ainda soltavam fumaça.
Eu mal conseguia acreditar no que via, desde que meus pais faleceram, nunca mais tinha acontecido de eu levantar e ter uma refeição prontinha me esperando.
Gabriel veio por trás de mim segurando um copo de leite quente, depositou um beijo suave no canto do meu olho e me empurrou delicadamente para eu me sentar na cadeira.
Bom dia, Lucas.
Só então reparei nas roupas dele. O peitoral que antes ficava sempre nu, por conta da necessidade de cozinhar, agora estava coberto por um avental meu que ele tinha pegado.
No entanto, como meu porte físico era bem menor, o avental ficou parecendo aqueles corpetes antigos no corpo dele.
O peitoral firme e os músculos bem marcados do abdômen não ficaram nada cobertos, criando uma estética de pura provocação.
Era um tanto sensual.
Cobri meus olhos, sem coragem de continuar olhando.
Mas Gabriel parecia não ter a menor consciência do seu poder de sedução e continuava andando de um lado para o outro bem na minha frente.
Em um momento de distração, acabei derrubando o copo de leite sem querer.
Enquanto eu procurava desesperadamente por um pano para limpar as mãos, Gabriel segurou meus pulsos e os puxou para perto do seu corpo, pressionando minhas mãos contra o seu peitoral firme e usando o avental para limpá-las.
Foi a primeira vez que toquei em um peitoral musculoso daquela forma, relaxado parecia macio.
Mas, tocando com cuidado, percebi que era elástico e muito quente.
Assim que terminou de limpar minhas mãos, ele inclinou levemente a cabeça para me encarar e um sorriso malicioso surgiu no canto dos seus lábios.
Você está com vergonha? Foi apenas um toque para limpar as mãos, o que você estava pensando?
Eu já não conseguia mais lidar com aquilo, então peguei o casaco no encosto da cadeira e saí de casa correndo.
Para minha surpresa, Gabriel veio atrás de mim.
Eu estava apenas brincando, você ficou chateada?
Balancei a cabeça, sem coragem de olhá-lo diretamente. — Não, eu preciso ir receber os aluguéis.
Eu era dona de um prédio antigo de apartamentos que recebi como herança dos meus pais. Vivia dos aluguéis daquele imóvel, o que era mais do que suficiente para garantir uma vida sem preocupações.
Gabriel retirou o avental e caminhou lado a lado comigo. — Eu vou com você.
Nunca ninguém tinha me acompanhado para receber os aluguéis antes, aquela era uma sensação completamente nova.
Durante todo o trajeto, Gabriel tomava a iniciativa de puxar diversos assuntos para conversar comigo e, a cada diálogo concluído, eu sentia que nos conhecíamos um pouco melhor.
Provavelmente por ser muito raro me ver caminhando acompanhada do meu tritão, as pessoas na rua que normalmente nem falavam comigo começaram a me cumprimentar.
Lucas, esse é o seu novo tritão? Ele é realmente lindo e parece muito saudável.
Fiquei um pouco tímida, sem saber direito como responder.
Mas Gabriel respondeu antes de mim.
Sim. Ela é a minha mestre, e eu serei eternamente fiel a ela.
Eu não saberia explicar o sentimento que tomou conta do meu peito naquele momento, era como se tivesse comido um doce puríssimo, fazendo meu sangue ferver e meu coração disparar em um ritmo frenético.
E, por causa da presença marcante de Gabriel, assim que os inquilinos abriam a porta e o viam ali, pagavam o aluguel do último trimestre imediatamente, sem questionar.
Aquilo era infinitamente melhor do que a minha antiga rotina de precisar convencer um por um.
Quando voltamos para casa, eu estava radiante de alegria.
Aproveitei o momento para beber um pouco e acabei ficando levemente alterada, agarrando a cauda de Gabriel sem querer soltar.
Aquela era a primeira vez que eu sentia que tinha alguém com quem contar, então o abracei, distribuindo beijos e carinhos.
Gabriel permaneceu imóvel ao meu lado, em total silêncio, sem corresponder aos meus gestos.
Tomei coragem e depositei um beijo diretamente nos lábios dele.
Gabriel, você não quer se acasalar comigo?
Gabriel não deu nenhuma resposta e simplesmente puxou a cauda das minhas mãos de forma ríspida.
Ele saiu correndo do quarto.
Fiquei sentada na cama, paralisada.
Até o meio da noite, eu continuava sem conseguir pegar no sono.
E ouvi novamente barulhos vindos do banheiro.
Parecia que tinha alguém ali dentro fazendo algo de forma extremamente reservada e, embora tentasse conter os movimentos ao máximo, alguns sons abafados ainda escapavam.
Acompanhados de alguns suspiros profundos.
Os ruídos eram baixos e eu acabei pegando no sono eventualmente.
Mas, no meu sonho, aquela cauda familiar voltou a me envolver, apertando meu corpo com força.
E um par de mãos ágeis deslizou suavemente pela minha cintura.
10
Eu estava no quintal regando as flores quando, de repente, ouvi uma movimentação vinda da casa vizinha.
Era o Leo que estava de volta.
Leo era um estudante universitário que passava a maior parte do tempo estudando em Porto Real, e nós éramos grandes amigos.
Fiz questão de convidá-lo com entusiasmo para entrar e tomar um café na minha casa.
Leo estava muito animado por não me ver há tanto tempo.
Fiquei sabendo que você trocou de tritão e pegou um que é a personificação da obediência. Eu sempre te avisei que aquele Vitor era mimado demais e não servia para você, agora sim você vai poder aproveitar a vida.
Por azar, Gabriel não estava em casa naquele momento, já que costumava sair sozinho para comprar os mantimentos.
Desde que ele chegou, assumiu a responsabilidade por todas as tarefas domésticas da casa, sem que eu precisasse me preocupar com absolutamente nada.
E ele demonstrava uma fidelidade cega a mim, sem tentar fugir como Vitor fazia, por isso eu nunca limitava a liberdade dele.
Gabriel era perfeito em tudo, o único ponto que me intrigava era o fato de ele não gostar do meu toque e parecer não ter o menor interesse em se acasalar comigo.
Leo franziu a testa ao ouvir meu desabafo e colocou a xícara de café de volta na mesa.
A minha especialidade na faculdade é justamente biologia marinha, e os tritões são criaturas naturalmente instintivas, deveriam demonstrar um grande interesse pelo acasalamento.
Esse seu novo companheiro não teria algum tipo de problema anatômico? Você não notou nada de estranho no comportamento dele?
Coloquei a mão no queixo, tentando puxar pela memória.
A cauda dele é extremamente sensível. Sempre que eu tento acariciar aquela região, ele inventa uma desculpa para ir ao banheiro logo em seguida, passa pelo menos meia hora trancado lá dentro e depois fica me evitando.
Leo arregalou os olhos, chocado com a minha ingenuidade.
Não me diga que você não sabia que a cauda de um tritão é a zona mais sensível do corpo dele? Aquela região equivale exatamente ao que nós, humanos, temos entre...
Ele apontou com o olhar para as partes íntimas, parecendo desacreditado com a minha falta de informação.
Então está explicado o mistério. Você fica abraçando, beijando e agarrando a cauda do coitado, e ele precisa correr para o banheiro porque não consegue mais se conter. Ele está sendo puramente torturado por você.
As peças finalmente se encaixaram na minha mente.
Com razão, todas as noites vinham aqueles suspiros abafados do banheiro, e Gabriel sempre saía de lá me olhando com uma expressão cheia de ressentimento e timidez.
Sob a perspectiva dele, eu devia estar parecendo uma verdadeira tarada abusiva.
Leo, sentindo uma mistura de pena e frustração, tirou uma pequena pílula do bolso e me entregou.
Dê isso aqui para ele tomar, vai ajudá-lo a liberar a tensão acumulada, não é saudável ficar prendendo isso por tanto tempo.
Assim que peguei o comprimido da mão dele, Gabriel passou pela porta.
Os movimentos de Gabriel no chão com a cauda eram completamente silenciosos.
Eu já estava acostumada com aquilo, mas Leo levou um susto enorme com a aparição repentina.
Mas que... Então esse é o seu tritão? Mas isso não parece um tritão, está mais para uma criatura abis...
Gabriel interrompeu a fala dele abruptamente, tomando a palavra.
O senhor Leo já terminou a conversa com a minha mestre? Gostaria de ficar para o almoço?
Leo começou a piscar os olhos repetidamente de forma bizarra, tentando me passar algum tipo de sinal desesperado.
Eu não consegui entender o que ele queria dizer e, antes que eu pudesse perguntar, Leo se levantou em um salto e saiu correndo como se estivesse pisando em brasas, gritando enquanto se afastava.