A mansão dos Albuquerque parecia diferente naquela noite.
O silêncio que costumava transmitir luxo agora carregava tensão. Funcionários caminhavam pelos corredores em passos cuidadosos, evitando olhar diretamente uns para os outros. Todos sabiam o que havia acontecido.
Todos sabiam que Helena havia sido expulsa.
E todos sabiam que Lucas não havia parado de chorar desde então.
No quarto do bebê, Elisa caminhava de um lado para o outro, os nervos à flor da pele.
“Por que ele não para?” perguntou pela décima vez.
Uma das funcionárias abaixou a cabeça.
“Não sabemos, senhora.”
Lucas estava vermelho.
Os pequenos punhos fechados.
As lágrimas molhavam seu rosto sem parar.
Elisa tentou pegá-lo nos braços.
O resultado foi imediato.
O bebê começou a gritar ainda mais.
“Chega!” ela explodiu.
A funcionária recuou imediatamente.
O choro ecoava pelo quarto inteiro.
Parecia não ter fim.
Parecia pior do que nunca.
Elisa sentiu um aperto estranho no peito.
Pela primeira vez, começou a sentir medo.
Medo verdadeiro.
Porque não importava o que tentasse.
Nada funcionava.
Nada.
Enquanto isso, no escritório da mansão, Ricardo Albuquerque observava as imagens das câmeras de segurança.
Seu rosto estava fechado.
A mandíbula rígida.
Nos últimos dias, ele havia tentado ignorar algumas coisas.
Tentado acreditar que tudo não passava de coincidências.
Mas agora não conseguia mais.
A imagem de Lucas estendendo os braços para Helena continuava aparecendo em sua mente.
O desespero do bebê.
O choro.
O medo.
Tudo aquilo era real.
Muito real.
E a ausência de Helena só tornava isso ainda mais evidente.
Quando ouviu os gritos vindos do andar superior, Ricardo fechou os olhos por alguns segundos.
Depois se levantou.
Ao entrar no quarto do bebê, encontrou Elisa completamente desesperada.
Lucas continuava chorando.
Sem parar.
Sem conseguir respirar direito.
As pequenas mãos agitavam-se no ar.
Como se procurassem alguém.
Como se estivessem sentindo falta de alguém.
Ricardo observou a cena em silêncio.
Depois perguntou:
“Onde está Helena?”
Elisa virou-se imediatamente.
“Você não vai falar disso de novo.”
“Eu perguntei onde ela está.”
“Eu mandei embora.”
“Eu sei.”
“Então qual é o problema?”
Ricardo olhou para o filho.
Depois voltou os olhos para Elisa.
“O problema é que Lucas precisa dela.”
Elisa soltou uma risada nervosa.
“Isso é ridículo.”
“É verdade.”
“Ela é apenas uma empregada.”
“Não para ele.”
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Muito pesado.
Lucas continuava chorando.
E cada segundo parecia confirmar as palavras de Ricardo.
Elisa cruzou os braços.
“Você está exagerando.”
“Não estou.”
“Vai colocar uma empregada acima da própria mãe?”
Ricardo respirou fundo.
“Estou colocando meu filho em primeiro lugar.”
As palavras atingiram Elisa como uma bofetada.
Ela permaneceu imóvel.
Sem reação.
Enquanto isso, Lucas continuava chorando.
Cada vez mais.
Cada vez pior.
Ricardo tomou uma decisão.
Sem pedir autorização.
Sem discutir.
Pegou as chaves do carro.
“Ricardo?”
“Vou buscá-la.”
“Você enlouqueceu?”
“Talvez.”
Ele caminhou em direção à porta.
“Mas Lucas precisa dela.”
E saiu.
Sem olhar para trás.
Quase uma hora depois, os portões da mansão se abriram novamente.
Os funcionários que ainda estavam acordados olharam pela janela.
Um carro preto entrou lentamente.
Parou diante da entrada principal.
A porta abriu.
E Helena Silva desceu.
Seu coração disparava.
Ela não imaginava voltar tão rápido.
Muito menos daquela forma.
Ricardo saiu logo atrás dela.
Os dois entraram juntos na mansão.
O hall principal estava completamente silencioso.
Quando Elisa apareceu no topo da escadaria, sua expressão mudou imediatamente.
Primeiro surpresa.
Depois incredulidade.
Por fim, pura raiva.
“O que ela está fazendo aqui?”
Ricardo respondeu sem hesitar.
“Ela voltou.”
“Não.”
Elisa desceu alguns degraus.
“Eu a demiti.”
“Você não pode demitir alguém que está cuidando do nosso filho.”
“Ela é uma empregada!”
“Ela é a única pessoa em quem Lucas confia.”
O silêncio tomou conta do hall.
Funcionários observavam discretamente.
Ninguém ousava interferir.
Elisa percebeu.
Todos estavam olhando.
Todos estavam ouvindo.
E aquilo a enfureceu ainda mais.
Ricardo continuou:
“A partir de hoje, Helena será oficialmente responsável pelos cuidados de Lucas.”
Helena arregalou os olhos.
Os funcionários também.
Até Elisa pareceu não acreditar no que acabara de ouvir.
“O quê?”
“Você ouviu.”
“Está me humilhando.”
“Estou protegendo meu filho.”
Elisa ficou sem palavras.
Porque no fundo...
Ela sabia que Lucas realmente precisava de Helena.
Mas admitir isso significava aceitar uma derrota.
E Elisa Albuquerque nunca aceitava derrotas.
Sem perder tempo, Helena correu para o quarto do bebê.
Assim que entrou, encontrou Lucas chorando desesperadamente.
Seu coração se partiu.
“Meu amor...”
Ela correu até o berço.
Pegou o bebê nos braços.
E algo impressionante aconteceu.
Em poucos segundos...
O choro começou a diminuir.
Os soluços ficaram mais espaçados.
A respiração desacelerou.
Lucas agarrou o uniforme dela com força.
Como se tivesse medo de que ela desaparecesse novamente.
As lágrimas encheram os olhos de Helena.
“Está tudo bem.”
Ela beijou a testa dele.
“Eu voltei.”
Pela primeira vez naquela noite, Lucas fechou os olhos.
Tranquilo.
Seguro.
Protegido.
No andar de baixo, Elisa observava tudo da porta.
A cena parecia uma humilhação pública.
Seu filho.
Seu marido.
Sua casa.
E ainda assim...
Tudo parecia girar ao redor daquela empregada.
Ela sentiu a raiva crescer dentro do peito.
Uma raiva que queimava.
Que consumia.
Que a fazia perder o controle.
Quando entrou na sala de jantar, seus olhos encontraram uma taça de cristal sobre a mesa.
Sem pensar.
Sem hesitar.
Ela a pegou.
E a arremessou contra a parede.
O barulho do cristal se espalhou pelo ambiente.
Fragmentos voaram pelo chão.
Seu peito subia e descia rapidamente.
Os olhos estavam cheios de ódio.
“Isso não vai ficar assim.”
Ela apertou os punhos.
Enquanto observava os pedaços de vidro espalhados pelo chão.
Pela primeira vez, Elisa não via Helena apenas como uma empregada.
Ela via uma ameaça.
Uma rival.
E naquele instante, uma única certeza nasceu dentro dela.
Se Helena queria ficar naquela mansão...
Ela faria questão de transformar sua vida em um inferno.