Vivian baixou os olhos e soltou a caneta de leve.
No fundo, ela sentia um imenso desejo de retornar; enquanto seu pai estava vivo, ela não havia conseguido passar muito tempo ao lado dele, e não queria deixá-lo totalmente abandonado naquele lugar.
Lucas insistiu com mais alguns conselhos, e Vivian esforçou-se para comer apenas algumas colheradas.
Assim que ela adormeceu para descansar, Lucas deixou o quarto e dirigiu-se ao gabinete do Dr. Murilo.
"Dr. Murilo, há alguma outra alternativa para recuperar o nervo das cordas vocais dela?", ele perguntou com total empenho ao acomodar-se diante do médico.
O Dr. Murilo pousou a caneta e ponderou por um instante antes de responder: "Uma intervenção cirúrgica traria esperanças, o problema é que os riscos são elevados e a taxa de sucesso não é alta. Por essa razão, eu geralmente não recomendo que os familiares assumam tamanho risco."
Ao ouvir aquilo, Lucas baixou a cabeça com as sobrancelhas franzidas.
Ele vinha ocultando de Vivian a gravidade da lesão no nervo das cordas vocais, e ela acreditava que bastaria repousar mais um tempo para conseguir falar. Quanto mais o tempo passava, maior se tornava a expectativa dela. Se ele revelasse agora que talvez nunca mais recuperasse a voz, ela conseguiria aceitar?
O Dr. Murilo pegou um cartão de visitas na gaveta e o pousou diante de Lucas: "Este é um colega de profissão, um especialista renomado em neurofisiologia. Se o senhor decidir seguir em frente, pode procurá-lo."
Lucas pegou o cartão para ler e deparou-se com o nome do Dr. Leandro, mas...
"No Rio de Janeiro?", sua fisionomia travou.
"Ele atende em um hospital de grande porte lá", explicou o Dr. Murilo, com um tom que carregava um rastro de admiração.
O olhar de Lucas obscureceu; depois de tantas voltas, significava que eles teriam que retornar afinal?
Ele guardou o cartão no bolso e disse: "Agradeço o apoio, Dr. Murilo. E diante do estado atual da Vivian, ela teria condições de viajar?"
O Dr. Murilo balançou as mãos imediatamente: "Agora de forma alguma. Ela precisa de repouso absoluto por pelo menos mais um mês."
Lucas ponderou por alguns instantes antes de se levantar: "Compreendo, não vou tomar mais o seu tempo."
"Por nada."
Ao deixar o gabinete médico, Lucas caminhou em direção ao quarto e pegou o cartão no bolso, discando para o número indicado.
"Alô, por favor, gostaria de falar com o Dr. Leandro..."
O clima tornava-se cada vez mais frio. As noites em Curitiba eram muito mais silenciosas do que as do Rio de Janeiro, trazendo a Vivian o ambiente propício para repassar tudo o que havia vivenciado nesses anos.
Ela contemplava as árvores do lado de fora da janela, e o torpor de sono que sentia há pouco pareceu desaparecer por completo.
Já faziam quase dois meses; será que Igor e Juliana já haviam se tornado um casal definitivamente? Ou até mesmo se casado?
Ao pensar nisso, Vivian franziu as sobrancelhas, praguejando contra a sua própria fraqueza no fundo do coração.
Eles já haviam se divorciado e, diante de tudo o que Igor havia feito contra ela, por que ela ainda deveria se importar com ele?
Contudo, à medida que se acalmava, ela sentia uma imensa saudade dos tempos de colégio, quando observava Igor escondida.
Desde o primeiro dia em que havia pisado na escola secundária, ela havia notado a presença dele.
Aquele rapaz rebelde que vestia o uniforme escolar de qualquer jeito e invadia o pátio com imponência acompanhado por cinco ou seis colegas.
Vivian nem sequer recordava o momento exato em que havia se apaixonado por Igor; talvez tivesse sido naquela noite em que retornava para casa após as aulas e percebeu que estava sendo seguida, cruzando por acidente com Igor, que acabara de se envolver em uma briga com terceiros.
Ele desferiu um chute contra o indivíduo para afastá-lo e, erguendo a mochila que não trazia um único livro dentro, apoiaou-a nos ombros, fixando os olhos brilhantes nela.
"Covarde, onde fica a sua casa?"
Capítulo 15: Cordas Vocais Danificadas
Curitiba, madrugada.
O corredor silencioso do hospital abrigava apenas o som dos passos da enfermeira do plantão noturno e o ruído dos grandes aparelhos médicos funcionando na Unidade de Terapia Intensiva.
Antes mesmo de abrir os olhos, Vivian escutou o bipe mecânico contínuo perto de seu ouvido.
Ela franziu o cenho, seus cílios tremeram de leve e ela abriu os olhos lentamente.
O teto branco-encardido ostentava uma iluminação suave, que não chegava a ofuscar, mas a deixava um pouco desconfortável.
Ela... ainda estava viva?
Vivian tentou mover o corpo rígido, mas percebeu que era totalmente impossível; ela estava praticamente imobilizada da cabeça aos pés por vários tubos e faixas. A enfermeira caminhou até a janela exatamente nesse momento e, ao notar a cabeça de Vivian se movendo de leve, correu imediatamente para chamar o Dr. Murilo.
O Dr. Murilo veio às pressas sem demora.
"Não se mexa."
Assim que entrou no quarto, ele viu que Vivian pretendia se virar e pressionou suavemente o ombro dela.
Vivian forçou os olhos um tanto ressecados para enxergar e, ao notar que se tratava de um médico de aproximadamente trinta anos, moveu os lábios.
"Uh... ah..."
Seu olhar estancou em choque. Ela não conseguia emitir nenhuma palavra. Seria por causa do período em coma?
O Dr. Murilo posicionou o estetoscópio e também percebeu a anomalia com Vivian, dizendo: "Não se desespere primeiro, a recuperação precisa ser gradual."
Dito isso, ele se concentrou e realizou um exame detalhado nela.
Vivian arquejou por algumas vezes com esforço, mas acabou sendo vencida pelo torpor do cansaço e adormeceu novamente.
Pouco tempo depois, Lucas chegou às pressas. Ao vê-lo entrar, o Dr. Murilo fechou a porta e caminhou até ele.
"Dr. Murilo, como está a Vivian?"
Lucas olhou pela janela do quarto e, ao ver que Vivian permanecia dormindo, franziu o cenho instantaneamente.
O Dr. Murilo respondeu: "Não se preocupe, ela não corre mais perigo, o problema é apenas..."
Ele exibiu um semblante difícil, guardando as mãos nos bolsos do jaleco branco: "O nervo das cordas vocais sofreu uma lesão severa, temo que seja difícil uma recuperação total futuramente."
Lucas estancou por um instante: "O que o senhor quer dizer com isso?"
"Significa que ela talvez nunca mais consiga falar." O Dr. Murilo soltou um suspiro.
A fisionomia de Lucas travou, e seus ouvidos pareceram resgatar aquela voz doce e melodiosa de Vivian.
Ela nunca mais conseguiria falar?
"Senhor Cavalcante?"
Lucas controlou suas emoções e respondeu com a voz grave:
"Compreendo."
Talvez ele devesse se dar por satisfeito pelo simples fato de Vivian ter escapado com vida.
Lucas manteve-se parado junto à janela, contemplando o rosto pálido de Vivian com imensa compaixão no coração.
Rio de Janeiro.
Juliana estava sentada no sofá com os braços cruzados, esforçando-se para parecer o mais natural possível.
"Igor, quando você vai me entregar o documento de transferência das ações?" Ela forçou um sorriso no canto dos lábios, fingindo desinteresse.
Em meio à fumaça que pairava no ar, Igor sacudiu a cinza do cigarro sem erguer os olhos: "Tanta impaciência assim para assumir os negócios?"
Juliana soltou uma risada sem graça: "Eu só quero começar a trabalhar ao seu lado o quanto antes, além do mais...".
Ela se levantou, caminhou até o assento ao lado de Igor e apoiou a cabeça no ombro dele: "Nós não estamos prestes a nos casar?"
O olhar de Igor escureceu; ele apagou o cigarro e empurrou Juliana de leve para se afastar: "Depende do meu humor."
Ao ouvir aquilo, o sorriso de Juliana congelou no mesmo instante.
Já faziam dias que, fosse por querer ou de forma sutil, ela tocava nesses dois assuntos, e Igor agia como se não ouvisse ou simplesmente dizia que dependia do humor dele. Mesmo que ela fosse uma tola, compreenderia perfeitamente que Igor não pretendia entregar o documento de transferência das ações a ela.
"Igor...", Juliana suavizou o tom de voz.
"Saia", Igor lançou-lhe um olhar de soslaio, respondendo com a voz fria.
Juliana travou os dentes e, embora inconformada, compreendia que não devia provocá-lo, optando por se retirar primeiro.
Na imensa mansão, restava apenas Igor.
Ele relaxou os ombros, como se descarregasse um imenso peso das costas, e escorou-se no encosto do sofá.
O clamor distante das pessoas e dos veículos penetrava no salão através das frestas da janela, deixando Igor um tanto irritado.
Ele pegou o celular e fixou os olhos no número de Vivian; o apego oculto no fundo de suas pupilas escuras passou num piscar de olhos.
O que estava acontecendo com ele afinal? Continuar esperando por uma ligação! Igor mudou o semblante, arremessando o celular para o lado. "Toc, toc, toc" De repente, o som de batidas na porta quebrou aquele silêncio.
Capítulo 16: O Presente de Aniversário
Igor franziu as sobrancelhas e, após um momento, levantou-se para abrir a porta.
Tratava-se de um entregador.
"Por favor, o senhor é o Senhor Igor Cavalcante?" O entregador ergueu os olhos, mas assustou-se com a fisionomia sombria de Igor.