Dado o ocorrido com Vivian, Igor, na condição de marido, talvez estivesse ali para recolher os pertences dela...
"Senhor Cavalcante." Carlos engoliu o orgulho e caminhou na direção dele; ele ainda não havia esquecido o olhar assassino de Igor daquele dia. Igor fixou os olhos nele com severidade: "Quem é você?"
Carlos emudeceu por um instante, pressionou os lábios e caminhou até a recepção para pegar uma caixa de papelão, posicionando-se novamente diante de Igor.
Ele falou com a voz um pouco mais baixa: "Estes são os pertences deixados por Vivian."
Aquela pequena caixa de papelão agiu como o estopim que acendeu a bomba no peito de Igor, espalhando uma fumaça sufocante por sua mente.
Com um som de impacto, Carlos assistiu chocado às coisas sendo espalhadas pelo chão, sem conseguir acreditar no que via quando Igor estendeu a mão e virou a caixa com violência.
Ele enlouqueceu?
Igor pisou com força sobre um caderno de anotações: "Vou repetir mais uma vez, mande a Vivian descer."
O rosto de Carlos ficou vermelho de indignação: "Você, na condição de marido da Vivian, por acaso não sabe do falecimento dela?" Amanda sobressaltou-se ao lado e correu para amparar Carlos, apontando para Igor com indignação: "Como você pode agredir as pessoas desse jeito?!"
Igor parecia ter retornado aos tempos de colégio, agindo como aquele jovem arrogante e prepotente que brigava sem medir as consequências para atingir seus objetivos.
No momento, havia apenas um único objetivo: ver Vivian!
E ele não demonstraria a menor piedade contra qualquer um que tentasse impedi-lo de ver Vivian.
Amanda, vendo que Igor pretendia invadir as salas de transmissão, desesperou-se e ligou para a polícia.
Perto da meia-noite, a chuva finalmente cessou. Delegacia de polícia.
O assistente Enzo, após concluir a conversa com o delegado, correu para encontrar Igor.
"Diretor." Ele trazia um paletó novo nas mãos e preparava-se para estendê-lo sobre os ombros dele, mas Igor o empurrou com rispidez e caminhou direto para a saída.
Enzo estancou por um momento, mas, diante do semblante sombrio de Igor, não ousou proferir mais nenhuma palavra.
Ele trabalhava ao lado dele há tantos anos e era a primeira vez que via Igor ostentar uma fisionomia tão pavorosa.
Será que era tudo por causa de Vivian...
Igor dirigia com uma expressão totalmente vazia. Somente ao retornar à mansão, chutar a porta principal e acomodar-se no sofá, ele conseguiu resgatar sua consciência que parecia vagar por algum lugar distante.
No salão completamente às escuras, ouvia-se apenas o ruído de sua respiração pesada.
Ele pegou o celular e buscou pelo contato que já havia visualizado inúmeras vezes nos últimos dias: Vivian.
Com o polegar trêmulo, pressionou o botão de chamada. Igor reduziu o ritmo da respiração involuntariamente, temendo perder o som de uma voz doce do outro lado... "Lamento, mas o número discado encontra-se desligado ou fora da área de cobertura, por favor tente mais tarde..."
Capítulo 12: Esperando a Ligação Dela
A voz feminina e mecânica ecoou do celular.
O coração de Igor sofreu um solavanco violento. Devido à dor, ele apertou a mão com tanta força que quase esmagou o aparelho.
Ele olhou fixamente para o nome dela na tela e sussurrou para si mesmo: "Está apenas desligado...".
Exatamente como naqueles dias, ela não atendia as ligações apenas por estar de mau humor.
No entanto, essa tentativa de consolar a si mesmo agiu como um anzol, trazendo à tona ainda mais lembranças sobre ela.
As súplicas desesperadas e a melancolia dela sob a chuva torrencial, além daquele olhar de quem já havia perdido as esperanças na vida, transformaram-se em espinhos de aço que se cravavam em seu coração cada vez mais dolorido.
Com um ruído surdo, o celular foi arremessado sobre a mesa de centro. Igor apoiou os cotovelos nos joelhos, cobrindo com as palmas das mãos a testa coberta de suor frio.
Na escuridão, seus olhos brilhantes carregavam uma dor impossível de ocultar.
Ele não acreditaria. Ele jamais acreditaria que ela estivesse morta!
De repente, o celular que acabara de ser jogado sobre a mesa começou a tocar. O coração de Igor saltou uma batida; ele estendeu a mão rapidamente para pegá-lo e atendeu antes mesmo de ver quem ligava.
"Alô!"
"Igor."
O nome dela, que estava prestes a escapar por sua boca, ficou travado na garganta diante da voz afetada e adocicada de Juliana. O olhar de Igor obscureceu, e uma onda de desilusão cruzou sua mente.
Seu corpo tenso relaxou instantaneamente, e o tom de voz antes ansioso tornou-se gélido: "O que foi?"
Juliana pareceu notar a mudança no humor dele e controlou um pouco a intenção de ser manhosa: "Amanhã é o aniversário do Gabriel. Às oito da noite, no lugar de sempre, no clube."
Ao ouvi-la falar com tanta naturalidade, parecia não haver o menor vestígio de sofrimento pela perda de uma parente.
O semblante de Igor decaiu. Ele havia esquecido que Juliana era apenas filha adotiva da madrasta e não tinha nenhum laço de sangue com ela.
"Igor? Por que você não diz nada?"
Igor franziu as sobrancelhas e apenas murmurou um "hum" antes de desligar o telefone abruptamente.
Tudo retornou ao silêncio absoluto.
Igor jogou o corpo para trás, escorando-se no encosto do sofá, e fechou lentamente os olhos avermelhados.
Na manhã seguinte.
O sol, que não aparecia há tempos, cobria o chão úmido, liberando vestígios de um frescor gelado no ar.
"Toc, toc, toc"
O som das batidas na porta principal era tão barulhento quanto um gongo. Igor, ainda com a consciência pesada de sono, franziu o cenho antes mesmo de abrir os olhos.
Enzo gritava do lado de fora enquanto batia na porta: "Diretor!"
Ele olhou para o relógio no celular; já eram dez horas. Se Igor não fosse para a empresa logo, se atrasaria para a reunião.
Somente após cinco minutos a porta foi aberta.
A camisa branca amassada, os cabelos pretos desalinhados e as olheiras profundas sob os olhos evidenciavam que Igor não havia dormido bem.
Ele ergueu os olhos cheios de linhas vermelhas de sangue: "O que aconteceu?"
Enzo disse: "Diretor, o senhor esqueceu? Hoje, às dez e meia, o senhor tem uma reunião com o conselho administrativo."
A mão de Igor, que massageava a cabeça, travou. Seu olhar permaneceu vago por um instante até que, como se lembrasse de algo de repente, ele se virou e correu para o interior da casa.
Ele pegou o celular sobre a mesa de centro.
No entanto, no segundo seguinte, o brilho em seus olhos extinguiu-se como a chama de uma vela soprada pelo vento, restando apenas um fio de fumaça solitária.
Ela ainda não havia ligado.
Enzo tomou coragem e reforçou o aviso: "Diretor, realmente não temos mais tempo."
Igor lançou-lhe um olhar irritado: "Eu já sei!"
Dito isso, guardou o celular no bolso e subiu as escadas para trocar de roupa.
Ao ver a cena, Enzo suspirou impotente. Ele não teve escolha senão adiar a reunião primeiro.
Contudo, ele ainda sentia preocupação pelo futuro da empresa. No passado, Igor ocupava apenas o cargo de vice-diretor, e Enzo era o seu assistente.
Mas aquele cargo de vice-diretor não passava de um título de fachada; a mente de Igor nunca esteve voltada para os negócios.
Enzo também não compreendia como o velho patriarca havia depositado tanta confiança a ponto de entregar a empresa nas mãos de Igor.
Capítulo 13: A Pequena Sereia
Após se arrumar, Igor, agora vestindo um terno alinhado, transformou-se novamente naquele imponente diretor da empresa.
Dentro do carro, Igor apertava o celular firmemente nas mãos, mas mantinha o olhar fixo na paisagem que passava voando do lado de fora da janela.
Enzo olhou de soslaio pelo espelho retrovisor e pressionou os lábios, optando por permanecer em silêncio.
"Ligue o rádio."
De repente, Igor pronunciou as três palavras do nada.
Enzo estancou por um momento. Ligar o rádio agora? Será que ele estava com saudades dela? Mas, mesmo que ela estivesse viva, este não seria o horário de exibição do programa dela.
Ainda assim, Enzo não fez perguntas; estendeu a mão e ligou o aparelho.
Uma melodia suave começou a tocar e, logo em seguida, a voz um tanto infantil de uma jovem preencheu o ambiente.
"Hoje vamos contar a história de A Pequena Sereia."
Enzo agiu por instinto para mudar de estação, mas foi contido por um comando frio de Igor: "Não mexa."
Ele ficou totalmente confuso. Aquilo era claramente um conto de fadas infantil. Por que Igor queria escutar aquilo de repente?
No silêncio, Igor escorou-se no encosto do banco, tateando o celular levemente aquecido, enquanto escutava atentamente a narração daquela voz feminina.
"Há muito, muito tempo, nas profundezas do oceano, vivia uma linda princesinha sereia. No dia do seu aniversário de quinze anos, ela subiu até a superfície do mar...".
"Ao ver o príncipe se afogando nas águas, a bondosa pequena sereia nadou até ele e o salvou, levando-o até a praia...".
"A pequena sereia se apaixonou pelo príncipe. Ela trocou sua própria voz, a mais bela de todo o oceano, com a bruxa do mar. Bebeu a poção e transformou-se em...".