Samara não sabia se deveria lamentar ou se aliviar.
Quem dissera que ninguém sabia de seu passado?
Silas sabia perfeitamente.
Ela observou Silas ao seu lado, que se apoiava na janela de olhos fechados simulando repouso, sentindo total quietude em seu íntimo.
Ele arquitetara e executara todo aquele plano complexo, alcançara a vingança, mas não exibia nenhuma feição de contentamento.
A melancolia em seu semblante permanecia evidente.
"Eu jamais conheci a minha mãe", Silas proferiu subitamente. "Fui criado pela minha tia."
Samara compreendeu que ele passava por um momento complexo e demandava uma figura de apoio, permanecendo em silêncio para escutá-lo.
"Minha tia afirmava que ela mantivera uma conduta totalmente digna ao longo da vida, sem cometer desvios."
"Pessoas com esse perfil raramente cometem falhas, mas quando se equivocam, o impacto é devastador. Ela acabou se envolvendo com um homem casado."
O coração dela oscilou.
"No momento em que ela percebeu a armadilha daquele envolvimento, já era tarde, ela estava gestante."
"A esposa daquele homem contratou assassinos para eliminar qualquer ameaça à herança, mas eu sobrevivi por obra do destino."
Silas interrompeu a fala e abriu os olhos lentamente.
"O indivíduo que me resgatou foi o seu mestre."
"O meu mestre?" Samara contraiu as sobrancelhas, encarando-o com total incredulidade.
"O seu mestre testemunhou o momento em que o atual líder tirou a vida da minha mãe, executou os procedimentos para me salvar do ventre dela, garantiu a minha sobrevivência e me entregou aos cuidados da minha tia."
Aqueles fatos haviam ocorrido há aproximadamente trinta anos. "Como você obteve esse registro?"
Ela fixou os olhos em Silas.
Silas apontou na direção do anel que trazia no dedo e explicou: "Este acessório e a placa de jade formam um conjunto integrado, contendo um dispositivo de armazenamento de dados."
Compreendeu o cenário.
Seu mestre de fato realizara grandes feitos no passado.
"Esses fatos... o meu mestre jamais compartilhou comigo..." Ela sentiu uma sutil melancolia.
Silas encarou a placa de jade no peito de Samara, demonstrando forte comoção: "Não havia necessidade de relatos, você já recebeu a herança de maior valor."
Ela buscou o contato da placa de jade, sentindo o toque caloroso e um acalento em seu íntimo.
"De fato, viver sã e salva é o melhor desfecho."
O veículo reduziu a velocidade até parar, e ela estagnou ao notar o cemitério diante deles.
Silas pretendia prestar homenagens à mãe?
Ele desceu do carro e permaneceu aguardando que ela fizesse o mesmo.
"Eu também devo acompanhar?"
Silas assentiu com a cabeça: "Agora que estamos formalmente casados, gostaria de compartilhar o fato com ela."
Diante daquelas pupilas melancólicas, Samara não encontrou justificativas para recusar, apenas assentindo em concordância.
A noite era densa e o luar elevado projetava sombras complexas entre a vegetação, assemelhando-se a figuras escuras.
O cemitério exibia uma iluminação escassa, e os dois caminhavam um atrás do outro em total isolamento, escutando apenas o som dos próprios passos.
O ambiente poderia evocar temor.
Contudo, ela fora uma assassina e estava habituada a operar na escuridão.
E Silas vinha ao encontro da própria mãe, não havendo motivos para temores.
Samara inclusive estendeu o olhar para avaliar os arredores.
Durante o período diurno, o local deveria apresentar uma bela paisagem.
Silas conhecia o trajeto com precisão, conduzindo-a por entre as curvas até alcançar um jazigo coberto de flores.
"Minha tia cuida da vegetação, ela afirmava que a minha mãe apreciava flores."
Silas acionou o acendedor para iluminar os dois suportes de vela diante do jazigo.
A iluminação revelou a imagem fixada na lápide.
A mulher exibia uma idade semelhante à deles, mantendo pupilas extremamente expressivas e um sorriso sereno direcionado para fora da imagem, provocando uma sutil comoção.
Silas compartilhava grande semelhança visual com a mãe.
Samara observava as ações de Silas em silêncio.
"A sua dívida foi cobrada", ele proferiu, depositando a lâmina de latão com vestígios de sangue diante do jazigo.
Ele utilizou um lenço como proteção ao apoiar o objeto, demonstrando o cuidado de não contaminar o local.
"Além disso, eu formalizei o meu casamento, gostaria que a conhecesse."
Silas retirou os dois documentos de registro da união e os posicionou diante da imagem.
"Ela é a discípula do homem que salvou a minha vida", ele segurou a mão de Samara e continuou, "e também salvou a minha própria vida no passado."
Capítulo 27
Como?
"Em qual momento eu salvei a sua vida?" Samara encarou Silas com total surpresa.
Embora após o casamento tivesse se dedicado às tarefas domésticas, passara um longo período executando contratos e operações do submundo, e o volume de vidas ceifadas por suas mãos era de fato expressivo.
Contudo, se fosse contabilizar as vidas que salvara, seria possível computar nos dedos de uma única mão.
A atuação prolongada como assassina tornava o coração rígido como metal sob o gelo eterno, sem margem para fragilidades.
A única ocasião em que agira por compaixão para salvar alguém ocorrera há muitos anos, em uma noite de tempestade.
O adolescente encontrava-se prostrado ao chão, quase sem lucidez, mas mantivera o aperto obstinado contra a barra da roupa dela enquanto clamava: "Me salva."
Samara agira por um sutil impulso de compaixão para resgatá-lo, encaminhando-o ao hospital em seguida.
Naquele período, temendo as inspeções do Pub Semiacordado, realizava visitas secretas apenas nas madrugadas.
Posteriormente ele partira sem deixar avisos, e ela acabou esquecendo o fato gradativamente.
Seria possível...
Silas curvou os cantos dos lábios e ergueu as sobrancelhas, revelando um lampejo de sutil satisfação no olhar:
"O adolescente sob o vão do viaduto naquela noite de tempestade era eu."
Diante daquela revelação, Samara paralisou por completo.
O mundo de fato apresentava conexões estreitas.
As curvas do destino determinaram que o mestre dele o salvara no passado, e ela fizera o mesmo posteriormente.
Aquilo configurava uma real conexão?
"Você me deixou naquele leito hospitalar e permaneceu três dias sem realizar visitas diurnas, demonstrou total desapego..."
Silas baixou o olhar para encará-la, adotando um tom que simulava ressentimento.
Suas pupilas brilhavam intensamente como estrelas na noite escura; ser fitada daquela forma tornava difícil sustentar o olhar.
Samara desviou a atenção e resmungou em voz baixa: "Eu realizei as visitas."
"Você veio me visitar?" Silas possuía uma excelente capacidade auditiva e captou a fala com precisão.
Ele demonstrou sutil entusiasmo, aproximou-se dela e questionou: "Por qual motivo jamais notei a sua presença? Eu pretendia identificar a minha salvadora para estender uma compensação."
"Naquele período eu estava focada na execução de contratos e temia ser descoberta pelas inspeções, de modo que realizava as visitas secretas apenas no meio da madrugada", ela explicou.
"Você mantinha tanta preocupação por mim..." Silas se aproximou, e um sutil aroma de nicotina pairou no ar, sem causar repulsa, mas instigando uma sutil atração.
"Você poderia simplesmente ter ignorado a minha situação, por qual motivo se empenhou em realizar visitas todas as madrugadas, não foi cansativo?"
Que tipo de questionamento era aquele?
Samara contestou a abordagem de Silas: "Tratava-se de uma vida humana, se decidi resgatar, precisava conduzir o amparo até o desfecho!"
Silas contraiu levemente os lábios, baixou o rosto para alinhar o olhar às pupilas focadas dela e esboçou um sorriso: "Agradeço imensamente por ter permitido a minha sobrevivência."
Ela fez um gesto com a mão minimizando o agradecimento dele. "O impulso de sobrevivência partiu de você, a minha presença foi apenas uma casualidade."
No momento do resgate no passado ela já afirmara que a vida pertencia a ele próprio.
O empenho de viver partira dele, ela fora apenas o elemento casual daquela noite.
Portanto, os agradecimentos eram totalmente dispensáveis.
Silas, contudo, reiterou a afirmação com obstinação: "Obrigado."
Obrigado por sua presença, Samara.
Naquela madrugada imersa em total escuridão, ela escutara o clamor dele por socorro, amparara seus passos para tirá-lo da tempestade e projetara uma perspectiva de vida.
Samara não compreendia a real extensão daquele agradecimento, optando por fazer um gesto com a mão para alterar o foco do assunto: "Portanto, você dedicou todo esse período para me localizar?"
Ela retomou a pergunta inicial.
Silas assentiu com a cabeça: "Os registros deixados pelo mestre foram fundamentais para que eu consolidasse a sua localização com sucesso."
"E qual o seu real objetivo ao me localizar?" Ela ironizou com bom humor. "Pretende se oferecer como compensação afetiva?"
Samara proferiu a frase como uma simples brincadeira.
As tramas românticas costumavam apresentar esse desfecho.
Uma noite de tempestade, um amparo salvador e a forte descarga de adrenalina eram elementos suficientes para projetar a ilusão de um envolvimento imediato.
Não esperava que o homem erguesse as sobrancelhas e apontasse com o dedo na direção dos documentos diante do jazigo: "A compensação já foi formalizada."
"Ah..." Seu sorriso desapareceu imediatamente. "Então a intenção era real..."
Silas segurou a mão dela, entrelaçando os dedos com os dela firmemente diante do jazigo, e declarou para a imagem da mulher de semblante sereno:
"Mãe, eu localizei a mulher que amo."
Capítulo 28
A casa de Silas, quarto de hóspedes.
Ontem, quando voltamos do cemitério, já estava quase amanhecendo.
Samara trocou de roupa e desabou na cama, pegando no sono imediatamente.